Cultura

18/09/2020 | domtotal.com

O Oscar censurado

A força da grana disfarçada de solidariedade

Oscar poder estar instrumentalizando pauta inclusiva apenas com fins mercadológicos
Oscar poder estar instrumentalizando pauta inclusiva apenas com fins mercadológicos (AFP/Emmanuel Dunand)

Fernando Fabbrini*

Em 1988, os figurões da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas decidiram transformar o mundo, solucionar as injustiças sociais, resolver os problemas da civilização e outras mazelas históricas – tudo com uma só frase. No lugar de "...and the winner is..." os apresentadores da premiação passariam a dizer "...and the Oscar goes to...".

Como tudo no show business, tratava-se apenas de uma esperteza para fazer média com as minorias e a opinião pública. Nas artes, nos negócios, nos esportes, nas relações pessoais, não só a cultura norte-americana como as demais permanecem, claramente e em total hipocrisia, valorizando o winner e esnobando o loser. A Academia joga para a plateia, em função da moda e da conjuntura. No ano passado atores exigiram mais comida vegana no coquetel e menos combustível fóssil no mundo – e foram liquidados pelo discurso devastador de Ricky Gervais lembrando, entre outras coisas, que todos chegaram à festa de limusines e usando botas ou casacos de couro.

Agora, uma coleção de tolices passa a enquadrar as produções cinematográficas no melhor estilo ditatorial. Diretrizes da Academia obrigam inclusão e diversidade que os cineastas deverão cumprir na marra para que seu trabalho seja elegível ao Oscar a partir de 2024. Desde a direção, argumentos, elencos e equipes técnicas, tudo deverá ser composto por percentuais de representantes de etnias, minorias, nacionalidades – uma salada de frutas que beira o surreal.

Exemplo: dentre os atores participantes de uma produção, a Academia obriga que um percentual inclua asiáticos, hispânicos, negros, indígenas, oriundos do oriente médio, norte da África, Havaí ou outra ilha do Pacífico e nativos do Alasca (Alasca, juram? Esta eu não entendi mesmo). Tem mais: pelo menos 30% de todos os atores em papéis principais e secundários devem ser mulheres, representantes dos grupos étnicos descritos acima, pessoas com orientações afetivo-sexuais variadas e pessoas com deficiências cognitivas ou físicas.

Uma das mais célebres orquestras sinfônicas da Europa tem um método curioso para selecionar novos instrumentistas. O candidato faz o teste oculto por uma cortina no palco; os examinadores só o conhecem depois de encerrada a prova. Pode ser homem, mulher, negro, chinês, árabe, trans, gay, pigmeu, marciano, extraterrestre – vale é o seu talento.  

Na verdade, a nova farsa do Oscar é explicada pela ascendência da China no mercado cinematográfico. A revista The Economist informa que em 2005 a China investiu US$ 275 milhões na indústria do cinema. Em 2019, chegou a US$ 10 bilhões. Ao mesmo tempo, o número de salas no país passou de 4 mil para 70 mil no mesmo período.

Hollywood cada vez mais se curva ao poder e aos gostos daquele regime moralista e totalitário, excluindo dos filmes temas de sexo, nudez, religião, ditaduras e outros assuntos delicados para os chineses. E aí vemos novamente a arte domada, submissa, vendida à política, às ideologias – e, sobretudo, ao poder econômico. De volta, a negação da liberdade criativa, da crítica inteligente, da expressão individual sem censuras – caminho trilhado pelo fascismo, o comunismo e simpatizantes explícitos ou disfarçados de ambos. Para piorar, também aumentam as chances dos artistas medíocres que serão contratados apenas para atendimento de tais regras.  

George Orwell provou ser mesmo um profeta dos costumes quando disse que "todos os porcos são iguais, mas alguns porcos são mais iguais que outros". Amantes da sétima arte, preparem-se: porcarias entrarão em cena, em grande estilo e sob aplausos.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O Tempo.



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