Cultura

21/09/2020 | domtotal.com

E eis que me vejo nu

Quencossou? Doncovim? Oncotou? Poncovou? Valei-me, senhor Deus dos desnudados!

Sair sem lenço e sem documento, tudo bem. Mas... sem roupa?
Sair sem lenço e sem documento, tudo bem. Mas... sem roupa? (Unsplash/Road Trip with Raj)

Afonso Barroso*

Nesse tempo incerto de pandemia, não sei ao certo que dia é hoje. Se for domingo, devo vestir uma roupa mais arrumadinha, de preferência até com gravata. É que sou católico e pretendo ir à missa. E, como sempre ensinava minha santa mãe, não se deve visitar a casa de Deus com qualquer roupa. É um desrespeito, chega a ser um sacrilégio. Então tá.

Mas, e se for segunda-feira? Aí é diferente. Visto uma roupa de segunda, é claro. Tenho trabalho, emprego, e preciso estar bem arrumado. Posso tirar a gravata, mas não posso ir ao trabalho de camiseta. O patrão tá de olho na gente, quer todo mundo vestido, como ele diz, decentemente. Não sei o que é decência no vestir, mas imagino que seja uma roupinha mais caprichada. Assim como obedeço à mãe, também obedeço ao patrão.

No caso de ser terça-feira, prevalecem as recomendações da segunda. Mas penso que posso mudar um pouco. Visto uma calça jeans, por que não? Só não posso é vestir aquela camisa com o Ché Guevara estampado na frente. Isso não. Jimmy Hendrix será que pode? Não, não vou me arriscar. Melhor aquela com a inscrição I’m in love.

E se for quarta-feira? Bem, a quarta sendo o meio certo da semana, também posso ficar no meio termo. Nem muito sério nem muito abusado. Vou vestir aquela calça de moleton...será que pode? Se estiver frio, sim, pode. Vou pensar melhor.

A quinta é o vestibular do fim de semana, que invariavelmente começa na sexta. Não sei o que vestir se a gente estiver nesse dia. Passo em branco.

Por falar em branco, chegou a sexta-feira. Como dizem os donos e arautos do novo normal, sextou. O patrão que me desculpe, mas eu vou ficar mais descontraído. Sou capaz até de vestir aquela camisa vaporosa. Branca, naturalmente. E calça justa de veludo cotelê. Sim, é isso. Vamos nessa.

E eis que é sábado. Dia da liberação geral desencadeada na sextagem do dia de ontem. Mas, será por que as pessoas estão me olhando desse jeito? Umas parecem curiosas, outras furiosas, outras meditabundas.

Meditabundas? Será por que? Onde estou mesmo? Parece ser uma cidade. E por que estou assim, completamente nu no meio da rua? Sair sem lenço e sem documento, tudo bem. Mas... sem roupa? Que dia é hoje mesmo? Quem sou eu e ponqueuvou?

E eis que me vejo correndo desesperado, tapando com as mãos as coisas (ou as partes), como se diz nos nordestes. Tem um guarda atrás de mim. Senhor Deus dos acossados, valei-me vós, senhor Deus!

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor



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