Religião

20/09/2020 | domtotal.com

Se Deus é bom com todos, ele não é meritocrata

Reflexão sobre o Evangelho do 25º Domingo do Tempo Comum - Mt 20,1-16

Mais que se preocupar com a vinha, o patrão da parábola quer que ninguém fiquem sem trabalho
Mais que se preocupar com a vinha, o patrão da parábola quer que ninguém fiquem sem trabalho (Joan Valls/NurPhoto via AFP)

José Antonio Pagola*

Sem dúvida, é uma das parábolas mais surpreendentes e provocadoras de Jesus. Costumava chamar-se "parábola dos trabalhadores da vinha". No entanto, o protagonista é o proprietário da vinha. Alguns investigadores chamam-lhe hoje "parábola do empregador que queria trabalho e pão para todos".

Esse homem sai pessoalmente à praça para contratar vários grupos de trabalhadores. Os primeiros, às seis da manhã, outros às nove, mais tarde ao meio dia e às três da tarde. Os últimos são contratados às cinco da tarde, quando só falta uma hora para terminar a jornada.

Sua conduta é estranha. Não parece motivado pela vindima. O que quer é que aquelas pessoas não fiquem sem trabalho. Por isso, sai inclusive na última hora para dar trabalho àqueles que ninguém chamou. E por isso, no final da jornada, dá a todos o denário que necessitam para jantar nessa noite, mesmo aqueles que não o mereceram. Quando os primeiros protestam, esta é a sua resposta: "Vão ter inveja porque sou bom?".

O que está Jesus sugerindo? Será que Deus não atua com os critérios de justiça e igualdade que nós utilizamos? Seria verdade que, mais do que estar medindo os méritos das pessoas, Deus procura responder às nossas necessidades?

Não é fácil acreditar nessa bondade insondável de Deus da qual fala Jesus. Mais de um pode se escandalizar de que Deus seja bom com todos, sejam eles merecedores ou não, sejam crentes ou agnósticos, invoquem seu nome ou vivam de costas para Ele. Mas Deus é assim. E o melhor é deixar Deus ser Deus, sem o diminuirmos com as nossas ideias e esquemas.

A imagem que não poucos cristãos fazem de Deus é um "conglomerado" de elementos heterogêneos e até contraditórios. Alguns aspectos vêm de Jesus, outros do Deus justiceiro do Antigo Testamento, outros dos seus próprios medos e fantasmas. Então, a bondade de Deus com todas as suas criaturas fica perdida ou distorcida.

Uma das tarefas mais importantes em uma comunidade cristã será sempre aprofundar cada vez mais na experiência de Deus vivida por Jesus. Somente as testemunhas desse Deus colocam uma esperança diferente no mundo.

Publicado originalmente em Religión Digital e traduzido pelo IHU

*José Antonio Pagola é padre e tem dedicado a sua vida aos estudos bíblicos, nomeadamente à investigação sobre o Jesus histórico. Nascido em 1937, é licenciado em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma (1962), licenciado em Sagradas Escrituras pelo Instituto Bíblico de Roma (1965), e diplomado em Ciências Bíblicas pela École Biblique de Jerusalém (1966). Professor no seminário de San Sebastián (Espanha) e na Faculdade de Teologia do Norte de Espanha (sede de Vitória), foi também reitor do seminário diocesano de San Sebastián e vigário-geral da diocese de San Sebastián.



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