Religião

20/09/2020 | domtotal.com

Eu ou nós? Vaticano gera polêmica sobre fórmula do batismo

Controvérsia sobre fórmula batismal é esquecimento do princípio da graça e do 'Ecclesia supplet'

Papa Francisco batiza um dos 32 bebês enquanto celebra a Missa na festa do Batismo do Senhor na Capela Sistina do Vaticano 12 de janeiro
Papa Francisco batiza um dos 32 bebês enquanto celebra a Missa na festa do Batismo do Senhor na Capela Sistina do Vaticano 12 de janeiro (CNS/Vaticano Media)

Joshua J. McElwee*

A decisão do Vaticano, em agosto passado, de esclarecer a fórmula que deveria ser usada no rito católico do batismo atraiu um interesse incomum depois que causou uma espécie de confusão teológica.

Um padre em Detroit citou a medida, que especificava que os ministros devem usar "Eu batizo" e não "Nós batizamos" no início da fórmula, como motivo para fazer uma espécie de três em um: rebatismo, re-confirmação e reordenação.

O padre Matthew Hood tinha visto recentemente um antigo vídeo caseiro de seu batismo em 1990, no qual o diácono que administrava o sacramento usava a fórmula do "nós".

A Congregação para a Doutrina da Fé havia dito em uma instrução de 6 de agosto que tais batismos não deveriam ser considerados válidos. A Igreja Católica acredita que o ministro do batismo não está agindo apenas em nome de si mesmo ou da comunidade local, mas como "a presença e sinal real de Cristo".

Para aqueles que ainda estão coçando a cabeça, a teóloga e membro da congregação da Caridade de Leavenworth, irmã Susan Wood, explica isso de forma clara.

"O que o 'eu' significa é que a pessoa que está batizando está agindo no lugar de Cristo", disse Wood, ex-presidente da Sociedade Teológica Católica da América ao NCR. "Cristo é o ator principal em todos os sacramentos. É Cristo quem perdoa os pecados. É Cristo quem batiza".

"A decisão do Vaticano mantém em primeiro plano que Cristo é o ator principal do sacramento", disse a religiosa.

Vários outros teólogos e líderes ecumênicos concordaram amplamente com essa análise, mesmo que alguns se sentissem um pouco desconfortáveis com o modelo que adotou a diocese de Detroit de olhar para trás para avaliar os batismos ao longo da sua história. (Um funcionário do Vaticano, falando sob condição de anonimato, chamou essa abordagem de "fundamentalista").

Dirk Lange, secretário-geral adjunto para as relações ecumênicas da Federação Luterana Mundial em Genebra, disse que o esclarecimento do Vaticano está "totalmente de acordo com a tradição observada em muitas Igrejas".

Lange descreveu a teologia luterana em torno do ato do batismo como uma reflexão que entende o sacramento "no meio de uma comunidade, mas não é a comunidade que faz o batismo".

"A decisão, desse ponto de vista, faz total sentido também para os luteranos", disse Lange, também professor de espiritualidade no Seminário Luterano em São Pedro, em Minnesota.

A reverenda Margaret Rose, delegada ecumênica e inter-religiosa do bispado da Igreja Episcopal, disse simplesmente que "a primeira pessoa do singular é a fórmula certa". Rose aponta que, embora alguns possam pensar que um ministro que usa o termo "nós" para batizar poderia representar melhor o papel da comunidade local no sacramento, do que alguém que diz "eu", é o contrário, pois Cristo age por meio da comunidade.

"Eu diria que me parece uma forma de envolver a comunidade de um modo ainda mais amplo, porque o 'nós' ... pressupõe que a pessoa que é o celebrante pode englobar tudo isso com as palavras da fórmula", disse a delegada ecumênica.

"Para a Igreja Episcopal, nosso entendimento seria que o 'eu' é na verdade a palavra certa", aponta Rose.

Wood, reitora acadêmica do Regis College, a Escola Jesuíta de Teologia da Universidade de Toronto, disse que não viu "absolutamente nenhuma implicação" para o esclarecimento do Vaticano sobre os diálogos ecumênicos atuais.

A teóloga disse que ao pesquisar no documento oficial Um batismo de 2009: As Implicações ecumênicas da doutrina do batismo, não conseguia se lembrar de nenhuma fórmula moderna de batismo em que o ministro usasse o plural "nós".

"A preocupação por parte do Vaticano nesses casos não é erguer muros contra as outras Igrejas cristãs ou contra a unidade cristã", disse Morrill. "A coisa toda é uma questão disciplinar interna na Igreja romana, não se pretende ter qualquer repercussão ecumênica".

Como vários outros teólogos, Morrill, entretanto, notou que os católicos de rito oriental e os ortodoxos orientais usam uma fórmula batismal totalmente diferente. Em vez de o ministro declarar o evento do sacramento com um "eu" ou um "nós", essas tradições se expressam usando um particípio passado: "A pessoa X é batizada".

"Não se pode reduzir isso à fórmula atual, pois é a única forma válida", disse Morrill. "O fato é que a Igreja Romana reconhece todos os batismos ortodoxos orientais, por exemplo. E eles usam uma fórmula diferente".

Maxwell Johnson, um teólogo luterano da Universidade de Notre Dame, apontou o exemplo ortodoxo oriental e o desenvolvimento histórico do rito batismal ao longo dos séculos para argumentar que a decisão do Vaticano não deveria ser aplicada retroativamente.

Johnson disse que há evidências de que alguns batismos nas primeiras igrejas romana e milanesa não usavam nenhuma fórmula.

"Aplicar a recente decisão [do Vaticano] retroativamente pode significar que ninguém foi batizado validamente durante vários séculos nos ritos milanês e romano, incluindo Santo Agostinho", apontou Johnson.

Quanto a saber se as pessoas que olham para as novas instruções do Vaticano deveriam se preocupar com a validade de seus próprios batismos, Wood sugeriu que os católicos "não deveriam ficar nervosos demais com isso".

"Acho que não devemos ficar excessivamente ansiosos ou indevidamente duvidosos sobre os sacramentos que recebemos", disse. "Não acho que as pessoas devam ficar demasiadamente ansiosas, mas devem confiar na graça de Deus e na Igreja".

Publicado originalmente em NCR

*Joshua J. McElwee é correspondente do NCR no Vaticano. Seu endereço de e-mail é jmcelwee@ncronline.org. Siga-o no Twitter: @joshjmac



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outras Notícias