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19/09/2020 | domtotal.com

Pequeno painel sobre a humanidade

Dramaturgo mineiro Julliano Mendes faz bela estreia em romance com 'Um circo'

Autor de várias peças, Julliano Mendes mostra pleno domínio narrativo em seu romance
Autor de várias peças, Julliano Mendes mostra pleno domínio narrativo em seu romance (Facebook/Reprodução)

Tadeu Sarmento*

 Um circo, romance de estreia de Julliano Mendes (que teve sua primeira edição custeada por uma campanha de financiamento coletivo) começa com uma espécie de introdução explicativa sobre a estrutura incomum do livro, dentro da chave de uma simulação da "própria vida recortada"; expediente que não deve ser compreendido no sentido da redundância deleuziana, qual seja, a de que a escrita é uma "questão de devir" (uma vez que sempre se debruça sobre uma matéria inacabada); mas, no sentido de que a totalidade do universo retratado pelo autor deve ser pressentida já a partir de suas partes – instantes antes de serem entrecruzadas.

Mas em que consiste essa estrutura incomum? Sob este aspecto, os primeiros capítulos do romance apresentam o arranjo de um conto, e servem para apresentar, separadamente, as personagens que em breve comporão esse "circo" ou, nas palavras do autor, esse imenso painel da "natureza humana", cuja diversidade de tons e de destinos é identificada, propositalmente, com o clichê do "maior espetáculo da terra".

A esta altura, o ritmo da escrita sugere os dispositivos de condensação do texto (o vaivém dos protagonistas, por exemplo), os quais darão à narrativa a percepção de um movimento de deriva, servindo para refletir o caráter transitório e errante dos integrantes dessa "fauna circense": um homem paralisado que consegue mover apenas um dos braços; uma garota que entende o mundo tão somente pela mediação de sua paleta de cores; um carregador de móveis que acaba de perder o pai; uma travesti com talento artístico que precisa se prostituir para sobreviver; uma professora do primário vítima da violência do marido; um decadente empresário do ramo de entretenimento, além de uma solitária dona de pousada – que no decorrer do livro deverá ser convencida a ceder espaço em seu estabelecimento e em seu terreno para que o espetáculo idealizado possa ser levado adiante.

Em seguida, o referido ritmo vai transcorrendo e se multiplicando aos poucos diante da entrada dos personagens secundários, bem como prosseguem transcorrendo e se multiplicando os recursos de costura e entrecruzamento de histórias do autor. Aqui entramos no tecido do romance propriamente dito, uma maneira de reunir em um tempo único e estendido (e em um só lugar) todos os integrantes desse circo.

O momento em que o destino de todos se cruzam é o momento em que a ideia do circo vem à tona; com ela, a percepção de que o interesse da audiência seria justamente o que cada um ali teria de "incompleto, de torto, partido, difuso", uma vez que, para os espectadores, na "falta da beleza e do arrebatamento", sobra o contentamento da "observação da miséria alheia".

Tal "miséria alheia" é pintada pelo autor com cores fortes e naturalistas. Porém, ainda que os mecanismos narrativos do romance aproximem a temática de Um circo do naturalismo (sobretudo nas descrições sexuais), ao passo em que este movimento seguiu as teorias deterministas de sua época (falamos do século 19) como sendo uma resposta literária a elas, o naturalismo de Mendes mistura em seu percurso traços de sarcasmo e ingenuidade, vivenciados não como características inatas a esta ou àquela classe, mas como tentativas de, primeiro, estabelecer vínculos e, depois, vencer os obstáculos da vida com artifícios.

Nenhum dos personagens de Um circo está em suas condições normais porque todos desejam agarrar o próprio destino nas unhas. Parafraseando Northrop Frye (na Anatomia da crítica), é como se cada um deles fosse um herói possuidor de uma fraqueza que fala alto à nossa simpatia porque situada no nosso plano de experiência, tanto que à certa altura das páginas Maria do Rosário, Juliana, Sérgio, Avelino, Wanda e os demais parecem saltar vivos em carne e osso das páginas.

É este salto que afetará para sempre não só os artistas deste circo humano, mas também seus espectadores, uma vez que, nas palavras do próprio narrador, ninguém ali pensará nas consequências do empreendimento, para o qual "aquela cidade simples, de gente limitada pela imaginação" parecia ser "o lugar perfeito". E se falta talento para a quase totalidade dos circenses retratados por Mendes, sobra a capacidade que têm de se adaptarem aos próprios defeitos – e nisto nos identificamos com eles.

Em outras palavras, ao final, o grande e real mérito de Um circo (para além de seus acertos estruturais) é fazer o leitor atingir uma compreensão da humanidade pela ótica de suas estratégias de sobrevivência. Não bastasse, Julliano Mendes prova ser um exímio contador de histórias, desses que mantém as rédeas esticadas sobre cada um de seus personagens e respectivos destinos.

UM CIRCO
De Julliano Mendes
214 páginas
Editora Ouro Preto
R$ 50


Dom Total

*Tadeu Sarmento é escritor, autor de ‘E se deus for um de nós?’ (Confraria do Vento), ‘Associação Robert Walser para sósias anônimos’ (Cepe), entre outros.



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