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21/09/2020 | domtotal.com

Placa simbólica de manifestantes na Tailândia desafia a monarquia do país

Monarquia tailandesa é protegida por uma das legislações mais duras do mundo, e qualquer ato considerado difamatório ao rei e sua família é punido com prisão

A 'Placa do Povo' colocada por manifestantes pró-democracia tailandeses em Sanam Luang, uma praça perto do Grande Palácio no centro de Bangkok, em 20 de setembro de 2020
A 'Placa do Povo' colocada por manifestantes pró-democracia tailandeses em Sanam Luang, uma praça perto do Grande Palácio no centro de Bangkok, em 20 de setembro de 2020 (Vivek Prakash/AFP)

Manifestantes tailandeses pró-democracia colocaram neste domingo (20) uma placa perto do antigo palácio real em Bangkok, onde se lê que a Tailândia pertence ao povo e não ao rei. A placa é um desafio à monarquia, um tabu no país até os dias de hoje.

A manifestação começou no sábado (19), reunindo dezenas de milhares de oponentes. Milhares de pessoas continuaram reunidas neste domingo no centro da capital para exigir mais democracia e a renúncia do primeiro-ministro.

Alguns deles também exigem uma reforma da monarquia. É o protesto mais massivo desde o golpe de 2014 que levou ao poder o chefe de governo Prayut Chan-O-Cha, legitimado em eleições polêmicas.

A placa foi fixada com cimento em Sanam Luang, uma praça próxima ao Grande Palácio. "Neste lugar, o povo expressou sua vontade: que este país pertença ao povo e não seja propriedade do monarca", diz a frase impressa.

"A nação não pertence a ninguém, mas a todos", acrescentou Parit Chiwarak, uma das figuras nos protestos. "Abaixo o feudalismo, viva o povo", acrescentou.

"Um desafio imediato"

O gesto é altamente simbólico: uma placa, instalada no centro de Bangkok durante anos para comemorar o fim da monarquia absoluta em 1932, foi removida em condições misteriosas em 2017, logo após a ascensão de Maha Vajiralongkorn ao trono.

Este é um "desafio imediato" para a realeza, diz Paul Chambers, um cientista político da Universidade Tailandesa de Naresuan. "O endurecimento do protesto pode levar à violência estatal contra os manifestantes."

Os opositores seguiram então para os escritórios do poderoso Conselho Privado, que ajuda o soberano em suas funções. Um dos organizadores entregou uma carta contendo uma série de demandas ao chefe da polícia real.

"É uma primeira vitória, o povo despertou", disse Napassorn Saengduean, um estudante de 20 anos. O Palácio Real não fez comentários.

Os manifestantes, que marcham quase diariamente desde o verão, enfrentam abertamente a monarquia. Eles exigem a não interferência do rei nos assuntos políticos, a revogação da lei draconiana sobre lesa-majestade e a devolução dos bens da Coroa ao estado.

Algo nunca visto na Tailândia onde, apesar da derrocada sucessiva de regimes, a monarquia – defendida pelas elites e pelo Exército – permaneceu intocável até agora.

Tensão

A tensão aumentou após um fim de semana de protestos pró-democracia na Tailândia, onde uma "placa do povo" colocada perto do Grande Palácio de Bangcoc para desafiar a poderosa monarquia foi retirada e os processos contra opositores são cada vez mais numerosos.

"Estamos investigando para averiguar em que circunstâncias e por quem a placa foi retirada", declarou à reportagem Piya Tawichai, vice-comandante de polícia. As autoridades anunciaram um processo contra as pessoas que colocaram a placa "sem autorização em uma área arqueológica".

Os ativistas não pensam em desistir e pretendem distribuir um modelo da placa "para que cada um possa fazer um molde e colocá-la onde desejar", anunciou Pinguim. "Esta placa é o início do combate sobre a reforma da monarquia", completou.

A retirada quase imediata da nova placa mostra que os ultramonárquicos não estão dispostos a ceder e estão "exasperados pelas demandas de reforma da monarquia, assim como por qualquer símbolo que reflita uma oposição ao palácio", destaca Paul Chambers, cientista político da universidade tailandesa de Naresuan.

"A elite e o exército, apoio tradicional à monarquia, não estão dispostos a perder seu poder. O apoio à realeza ainda é grande", disse Christine Cabasset, pesquisadora em Bangcoc no Instituto de Pesquisas para o Sudeste da Ásia.

Apesar das várias mudanças de regime (12 golpes de Estado desde 1932), a monarquia tailandesa é protegida por uma das legislações mais duras do mundo, que pune com a prisão qualquer ato considerado difamatório ao rei e sua família.

Mas o movimento estudantil se tornou cada vez mais ousado e elevou o tom no fim de semana. Parte dos opositores defende a não interferência do rei nas questões políticas, a revogação da lei de lesa-majestade e a devolução dos bens da Coroa ao Estado, reivindicações consideradas inaceitáveis pelo governo.

"Nosso objetivo não é destruir a monarquia, e sim modernizá-la", explica Panusaya Sithijirawattanakul, conhecido como Rung, outro líder do movimento de oposição.

O protesto, que recebeu apoio no fim de semana de ativistas do movimento "camisas vermelhos", próximos ao ex-primeiro-ministro no exílio Thaksin Shinawatra, também pede mais democracia e a renúncia do primeiro-ministro Prayut Chan O Cha, que governa o país desde o golpe de Estado de 2014.

O poder nas sombras

O rei tailandês, além de seu status de monarca constitucional, tem uma influência considerável que frequentemente exerce nas sombras. A figura de Maha Vajiralongkorn, que ascendeu ao trono após a morte de seu pai, o venerado Rei Bhumibol, é controversa.

Em poucos anos, ele fortaleceu a autoridade de uma monarquia já muito poderosa, especialmente assumindo diretamente o controle da fortuna real.

As autoridades consideram as exigências à monarquia inaceitáveis. "A polícia foi instruída a agir com paciência. Os manifestantes podem se reunir, mas de forma pacífica e dentro da lei", reagiu o porta-voz do governo Anucha Burapachaisri no sábado.

Outra manifestação está marcada para quinta-feira (24) diante do Parlamento, onde os deputados debatem possíveis mudanças constitucionais. Os organizadores convocaram uma greve geral para 14 de outubro.


AFP



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