Meio Ambiente

21/09/2020 | domtotal.com

BR-319: ministro tenta desvincular imagem do desmatamento da obra

Tarcísio de Freitas foco em um discurso que vai na contramão do que dizem estudiosos

Ministro ignora impactos e defende obra na BR-319
Ministro ignora impactos e defende obra na BR-319 (Alan Santos/PR)

O ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, tenta descolar os planos da controversa  pavimentação da BR-319, no Amazonas, da imagem de ameaça à preservação ambiental no entorno da rodovia. Considerada pelo governo crucial para a integração do Norte com o restante do país, a estrada de 870 quilômetros liga os Estados do Amazonas e Rondônia e teve sua construção finalizada na década de 70.

Ao longo dos anos, no entanto, a pavimentação se tornou crítica, o que fez com que planos de retomada das obras fizessem parte de praticamente todos os governos desde a redemocratização. Atualmente, apenas dois trechos estão pavimentados: os primeiros 198 quilômetros e os 164 quilômetros finais.

Em evento com governadores da região Norte nesta segunda-feira (21),  Tarcísio falou em sustentabilidade, o que é rebatido por ambientalistas e especialistas.

"Vamos mostrar a partir desse empreendimento que o desenvolvimento pode coexistir com a sustentabilidade, e estaremos atentos a isso. Para mostrar que não é porque vai ter a pavimentação que o desmatamento vai aumentar naquela região", disse Freitas nesta segunda-feira. As declarações são dadas num momento em que o governo Bolsonaro enfrenta forte pressão por sua política ambiental e pelos números de desmatamento.

Em junho, o governo lançou o edital para contratação de empresa que fará os projetos e as obras de pavimentação do lote C da BR-319, cujo resultado será aberto nesta terça-feira (22). As obras no trecho serão um "start". Segundo Freitas, a ideia é que em 2022 a pavimentação de toda a rodovia já esteja contratada.

Uma série de reportagens do Dom Total,publicada em julho deste ano, as questões jurídicas e legais, nacionais e internacionais, que envolvem a reconstrução da rodovia e apontam a ilegalidade da obra. A BR-319 é questionada por várias questões: legais, ambientais, viabilidade econômica e impacto social.

?Existe um mito que o asfaltamento da BR-319 vai levar governança e condições pra combater o desmatamento. É o contrário, na verdade. Isso tem sido observado e acompanhado há muito em todas as rodovias amazônicas e tem muito respaldo da literatura científica?, contesta Lucas Ferrante, cientista que realiza seu doutorado em ecologia no Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa).

Apesar dos impactos ambientais negativos apontados por estudiosos, o ministro da Infraestrutura afirmou que não haverá novos desmatamentos na região para que o empreendimento seja tocado. "Observem que a pavimentação, a terraplenagem, vai acontecer nas áreas que já estão degradadas. Vamos usar a faixa que já está aberta, não vamos acrescentar nada novo, não vamos fazer novo desmatamento, vamos aproveitar aquilo que já existe, aquilo que já está posto", disse o ministro no evento, que foi transmitido ao vivo.

Freitas repetiu diversas vezes que o desejo é transformar as obras de pavimentação da BR-319 num modelo de sustentabilidade e governança ambiental. "É possível fazer a pavimentação com sustentabilidade, com governança ambiental, e essa não é uma tarefa só do governo federal, mas de todos. Estamos falando de zoneamento econômico-ecológico, na da fiscalização do desmatamento", disse.

Para o ministro da Infraestrutura, a pavimentação da BR-319 vai, inclusive, fazer com que a região "ganhe" em termos de preservação, com a recuperação de áreas degradadas. "São várias travessias de fauna, aéreas, subterrâneas. Estamos ganhando em recuperação de áreas degradadas. Observem, realmente é fundamental fazer essa pavimentação, inclusive do ponto de vista ambiental", disse.

Freitas ainda explicou que as obras no lote estarão de acordo com o termo de ajustamento de conduta (TAC) firmado ainda em 2007 com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama), órgão responsável pelo licenciamento ambiental. Como mostrou o Estadão em reportagem publicada em setembro do ano passado, a retomada da estrada divide opiniões. Ambientalistas afirmam que, caso as obras da BR-319 seja retomadas sem considerar a complexidade ambiental da região, podem resultar em experiências catastróficas.



Agência Estado/DomTotal



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