Cultura TV

22/09/2020 | domtotal.com

Borgen: entre o idealismo e a realpolitik

Política não é para ingênuos, mas não pode ser o escudo do canalha

Sidse Babett Knudsen interpreta Brigitte Nyborg em Borgen
Sidse Babett Knudsen interpreta Brigitte Nyborg em Borgen (Divulgação)

Alexis Parrot*

Shakespeare já havia entendido no século 16 o fascínio  que tramas políticas podem gerar. Habilmente, utilizou-se da própria história da Inglaterra e produziu a série de peças focadas nos monarcas ingleses, começando com Ricardo II, passando pelos Henriques IV e V e até chegar em Ricardo III, aquele do "meu reino por um cavalo". (Aliás, está disponível no Amazon Prime a soberba adaptação dessas peças pela BBC, A coroa vazia – que pretendo resenhar neste espaço em breve. Por enquanto, fica a dica.)

Recentemente, pudemos acompanhar (do ápice ao desfecho mequetrefe) House of cards, a saga com tintas macbethianas ambientada na Casa Branca norte-americana. O estrondoso sucesso da série da Netflix prova que as lições aprendidas com o bardo inglês nunca saem de moda. Se todas as histórias já foram contadas, quem as contou melhor foi mesmo o bom e velho William.

Porém, antes de House of cards, houve The West wing e Borgen, a série dinamarquesa que finalmente chega até nós, com o atraso imperdoável de uma década. Comparadas as três, as duas últimas ganham disparado pela simples decisão de se aterem apenas à política, prescindindo de avançar por caminhos policialescos para envolver o público, além da recusa ao cinismo – como bem sabemos, a mola propulsora da narrativa do castelo de cartas desmoronado de Kevin Spacey.  

Em termos de educação política, o que The west wing fez pelo presidencialismo, Borgen opera em favor do parlamentarismo. Além de nos fazerem sentir dentro do gabinete de um presidente ou de um primeiro-ministro, entender melhor os mecanismos íntimos de um governo é o bonus track que ganhamos após assistir às duas séries.  

Ambas dizem a que vieram já no título. Se na produção norte-americana a geografia dramática gira em torno do Salão Oval (localizado na ala oeste da Casa Branca), a série dinamarquesa trabalha sobre um mapa mais complexo. Borgen significa castelo e é o apelido do Palácio Christiansborg, sede do legislativo e também da Suprema Corte – eximindo qualquer dúvida sobre quem é que dá as cartas no sistema político de cada país.

A cada início de episódio, Borgen nos brinda com uma citação que servirá de mote ou comentário para o que veremos a seguir. De Maquiavel a Kierkegaard; políticos de várias épocas e plumagens ideológicas, como Churchill, Lincoln, Mao e Lenin; de Dante a Rudyard Kipling e a James Joyce; de Buda a Jesus, o desfile de frases e autores célebres parece uma versão daquele livrinho Minutos de sabedoria da estratégia política através dos tempos. Ao invés da cereja vir no topo do bolo, ela já é servida como entrada.

(Ouso fazer uma sugestão. Para a epígrafe do primeiro episódio dessa nova temporada, uma citação da velha raposa mineira Tancredo Neves seria perfeita: "Política é como nuvem. Num momento, você olha e está de um jeito; no momento seguinte, você torna a olhar, e o jeito já mudou"). 

A série acompanha a trajetória da fictícia líder de um partido de centro Brigitte Nyborg, a primeira mulher alçada ao cargo de primeira-ministra da Dinamarca.

O carisma da protagonista, interpretada por Sidse Babette Knudsen (um dos destaques da primeira temporada de Westworld) é apoiado por um elenco impecável, com algumas caras conhecidas – como Pilou Asbaek (já ensaiando alguns dos trejeitos de psicopatia que iria encarnar como o Euron Greyjoy de Game of thrones) e Claes Bang (o Drácula da recente minissérie da BBC e o ator mau-caráter da última temporada de The affair) – e outras inesquecíveis a partir de agora.

Entre traições parlamentares e uma nem sempre tranquila relação com a imprensa, a política ainda precisa cuidar da vida familiar que incluem uma filha adolescente e uma crise no casamento – o eterno embate entre público e privado, não raro com uma coisa afetando a outra.

Não bastassem todas essas atribulações, o real dilema vivido pela personagem é a tensão diária entre a realpolitik e seus princípios e idealismo. Conjugar estes dois fundamentos é como viver na corda bamba, onde o jogo de cintura político deve ser muito hábil e coordenado, sem que se perca nunca a visão panorâmica sobre as questões que realmente importam. Aprender a ceder quando o momento pede é necessário, mas não a qualquer custo.

Política não é para ingênuos, mas não pode ser o escudo que protege o canalha. A duras penas, Nyborg vai entendendo que estava certa desde o início e seu maior lastro como primeira-ministra é aquilo que a levou até ali: a ética.

Aí repousa a grande beleza da série. De forma simples, direta e sem nenhuma gota de sentimentalismo, Borgen faz uma elegia da ética como pilar indispensável da democracia. Quer seja na política partidária, na imprensa, no mundo corporativo e profissional ou nas relações pessoais.   

Após a transmissão da segunda temporada, pela primeira vez uma mulher assumiu o posto de primeira-ministra na Dinamarca; um curiosíssimo caso daqueles em que a vida imita a arte. Embora nenhum político dinamarquês vá assumir a teoria, é lícito imaginarmos que o sucesso estrondoso da série possa ter ajudado a pavimentar o caminho que levou a esta decisão. A ideia do governo liderado por uma mulher já estava naturalmente sedimentada no imaginário coletivo do país.

A Netflix se associou à TV pública dinamarquesa (responsável pela produção da série) e já está engatilhada uma quarta temporada com exibição programada para 2022. Será curioso ver o que o destino reservou aos personagens quase dez anos depois do último episódio exibido; ainda mais em um cenário global com as fake news se passando por liberdade de expressão, a ascensão de discursos racistas e xenófobos e após gente que desconhece o sentido do termo "ética" (como Trump, Salvini e Bolsonaro) terem passado pelo poder.

Aqui não é a Dinamarca, mas Borgen e o idealismo que a série representa caem bem em qualquer lugar do mundo.

(BORGEN – em cartaz na Netflix)

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outros Artigos