Religião

24/09/2020 | domtotal.com

Discurso do presidente na ONU é irreal e delirante, atesta Cimi

Conselho Indigenista Missionário aponta má-fé, preconceito e irresponsabilidade de Bolsonaro perante nações

José Gregorio Diaz Mirabal coordenador Geral da Coica, no Sínodo para a Amazônia de 2019
José Gregorio Diaz Mirabal coordenador Geral da Coica, no Sínodo para a Amazônia de 2019 (Vatican Media)

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) emitiu nota de repúdio pelo discurso do presidente Jair Bolsonaro na abertura da 75ª Assembleia da Organização das Nações Unidas (ONU), no dia 22 de setembro.

Segundo o organismo, "Bolsonaro utilizou um discurso falacioso, refratário e irreal sobre o combate à pandemia do coronavírus e às desigualdades sociais, os direitos humanos e, principalmente, em relação ao combate aos incêndios e à proteção do meio ambiente".

Com atuação junto a mais de 180 povos indígenas, em 26 estados e nas cinco regiões do Brasil, o Cimi desmente com propriedade a culpa que lhes é imputada no discurso presidencial pelos incêndios no Pantanal e Amazônia. "De todas as inverdades, essa demonstra a má-fé, o preconceito e a irresponsabilidade do presidente do Brasil perante outras nações", diz a nota.

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O Cimi é um organismo vinculado à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) que, em sua atuação missionária, conferiu um novo sentido ao trabalho da Igreja Católica junto aos povos indígenas, promovendo articulação entre aldeias, povos e setores populares.

Resposta à ONU

No dia 22 de setembro, a Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica) se reuniu sob o tema "A Amazônia diante da sua pior crise: Covid-19, incêndio, violências e mudanças climáticas" para lançar seu Grito da selva. O cardeal Cláudio Hummes, presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam) participou o do evento.

No final do encontro foi apresentada uma carta aberta às lideranças reunidas na assembleia da ONU. Intitulada Na Amazônia, também não podemos respirar, o documento busca apoio da comunidade internacional. "Estamos aqui, quase sem poder respirar devido à fumaça dos incêndios em nossas florestas ou pela intensidade da Covid-19 em nossos corpos. Apesar disso, estamos fazendo todo o possível para conter simultaneamente o avanço do fogo, do vírus e das invasões, em uma batalha desigual para sobreviver e garantir a sobrevivência de toda a humanidade", diz a carta.

Assinam o documento a Coica e os representantes de mais de 3 milhões de indígenas, que habitam a bacia e bioma amazônico, compondo mais de 500 povos originários.

Leia a íntegra da carta do Cimi:

O Conselho Indigenista Missionário – Cimi vem a público repudiar o discurso do presidente Jair Bolsonaro na abertura da 75ª Assembleia da Organização das Nações Unidas (ONU), neste dia 22 de setembro de 2020. O presidente Jair Bolsonaro utilizou um discurso falacioso, refratário e irreal sobre o combate à pandemia do coronavírus e às desigualdades sociais, os direitos humanos e, principalmente, em relação ao combate aos incêndios e à proteção do meio ambiente. Sempre na defensiva e culpando terceiros, o discurso do presidente não contribuiu para a solução dos problemas e para a melhora da imagem do Brasil no exterior.

No discurso, o presidente responsabiliza os índios pelos incêndios que devastam boa parte da Amazônia, Cerrado e Pantanal no Brasil. De todas as inverdades, essa demonstra a má-fé, o preconceito e a irresponsabilidade do presidente do Brasil perante outras nações, o que coloca o nosso país em situação constrangedora perante a opinião pública nacional e internacional.

Os territórios indígenas no Brasil se constituem como espaços de preservação da mata e de toda a biodiversidade. Os povos indígenas têm se esforçado no combate aos incêndios que chegam aos seus territórios, provocados por interesses ligados à expansão da agropecuária, aos monocultivos de grãos, à exploração mineral e madeireira. É importante salientar que esses setores têm tido todo o apoio do presidente e sua equipe para concretizar ações de violência contra os povos e o meio ambiente, a partir do desmonte de toda a estrutura de fiscalização e da política de proteção sob responsabilidade do governo federal.

O presidente Jair Bolsonaro, sob os olhares do mundo, ao proferir tal acusação, comete mais um ato de violência contra os povos indígenas no Brasil. Ele não só responsabilizou, mas também criminalizou os povos indígenas que, de fato, são as vítimas dos crimes ambientais em curso no país. Entendemos que Bolsonaro deve ser responsabilizado por seus atos. Não é justo que os povos indígenas no Brasil venham a sofrer mais violência por mais uma acusação sem provas, fantasiosa, do senhor presidente.

O discurso do presidente reforça as graves e infundadas acusações feitas pelo ministro de Estado Chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, contra a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), buscando criminalizar suas lideranças e silenciar justas críticas ao governo. O Cimi manifesta solidariedade à Apib e apoio à sua iniciativa de buscar que o ministro responda pelos ataques junto ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Nos solidarizamos, ainda, com os povos indígenas e com as famílias que se encontram enlutadas em consequência da pandemia do novo coronavírus e devido à irresponsabilidade de um governo que não cuida e não defende seu povo.

Brasília, 22 de setembro de 2020

Conselho Indigenista Missionário


Cimi



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