Religião

25/09/2020 | domtotal.com

O Reino de Deus, onde está?

Discursos de Jesus no Evangelho de Mateus inserem o discípulo na lógica do Reino dos Céus

O Sermão da Montanha, afresco renascentista de Fra Angelico, nascido em Guido di Pietro
O Sermão da Montanha, afresco renascentista de Fra Angelico, nascido em Guido di Pietro Foto (Manuel Cohen/AFP)

Antônio Ronaldo Vieira Nogueira*

O evangelista Mateus organizou boa parte da pregação de Jesus em cinco discursos: discurso da montanha (c.5-7), discurso missionário (c.10), discurso das parábolas (c.13), discurso comunitário (c.18) e discurso escatológico (c.24-25). Em todos eles aparece a temática do Reino de Deus (Mateus usa normalmente a expressão "Reino dos Céus", pois, escrevendo para uma comunidade vinda do judaísmo, prefere não pronunciar o nome Deus). Nessa pequena reflexão, tomaremos uma referência ao discurso da montanha e ao discurso escatológico em que aparecem, respectivamente, o Reino anunciado e o Reino realizado.

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Para falar do Reino de Deus, é preciso ter clareza de quem são seus destinatários privilegiados: "hoje e sempre, ?os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho? [Bento XVI], e a evangelização dirigida gratuitamente a eles é sinal do Reino que Jesus veio trazer" (EG 48). Jesus nasceu no meio dos pobres, viveu numa aldeia simples e pobre e conviveu diariamente com os muitos pobres de seu tempo, maltratados e explorados para manter a vida de luxo e soberba dos governantes de Israel e do Império. Os pobres conheciam um reino que significava miséria e exploração.

O Reino de Deus anunciado por Jesus vai em direção contrária. Já no início do discurso da montanha, ao falar da felicidade ou bem-aventurança, proclama a inversão realizada pelo Reino de Deus: ele é dos pobres em espírito, dos que choram, dos mansos, dos que têm fome e sede de justiça, dos misericordiosos, dos puros de coração, dos que promovem a paz, dos que são perseguidos por causa da justiça, dos que, por causa de Jesus, são insultados, perseguidos e caluniados (cf. Mt 5,1-12). Ao contrário do que se pensava, a felicidade e bem-aventurança do Reino não estão na abundância de bens, mas nos que não têm ninguém por si e, por isso, clamam a Deus, pois só Ele está por eles. "Os que não interessam a ninguém interessam a Deus; os que sobram nos impérios construídos pelos homens têm um lugar privilegiado em seu coração; os que não têm patrono algum que os defenda têm a Deus como pai" (PAGOLA, J.A. Jesus: aproximação histórica. Petrópolis: Vozes, 2012. p.228).

A bem-aventurança do Reino que se dirige aos pobres é sinal da gratuidade de Deus: não se trata, pois, de mérito algum por parte dos pobres, não se trata de glorificar a situação de miséria e exploração dos pobres e até justifica-la com uma recompensa que virá no futuro e, assim, continuar a promover sua situação de miséria e exploração. As bem-aventuranças mostram de que lado Deus está e qual o caminho para encontrar-se com Ele: "Só por este motivo, os pobres merecem uma atenção preferencial, seja qual for a situação moral ou pessoal em que se encontrem. Criados à imagem e semelhança de Deus para serem seus filhos, esta imagem jaz obscurecida e também escarnecida. Por isso Deus toma sua defesa e os ama" (Puebla 1142).

Nas bem-aventuranças, portanto, indica-se que Deus não quer a situação de miséria, marginalização e crueldade em que vivem tantos filhos seus. E na conclusão do discurso da montanha, Jesus recorda que o caminho do Reino não está simplesmente no louvor a Ele endereçado, nem na profecia em seu nome, nem mesmo nos milagres realizados, mas na prática da justiça (cf. Mt 7,21-23). E o caminho da prática da justiça está numa vida, toda ela, aos moldes de Jesus, doada no serviço e defesa dos pobres.

Foi o que Jesus realizou durante toda a sua vida e ministério: aproximou-se do leproso (Mt 8,1-4) e do paralítico (Mt 9,1-7) para curá-los, sentiu compaixão da multidão que era como ovelhas sem pastor (Mt 9,35-38) e, por isso, enviou os Doze a todos (Mt 10,1-15), exigiu que os discípulos mesmos dessem de comer aos famintos (Mt 14,16ss), defendeu a vida e a dignidade da mulher (Mt 19,1-10), acolheu crianças (Mt 19,13-15), criticou e realizou gestos duros contra os que se aproveitam dos pobres para beneficiar-se (Mt 21,12-17; 23,13-36). Em tudo isso, Jesus mostrou que "nunca, nem na Galileia, nem em parte alguma, se construirá a vida tal como Deus a quer a não ser libertando estes homens e mulheres da fome, da miséria e da humilhação" (PAGOLA, op.cit., p.229).

Mas não parou por ai. No discurso escatológico, em que fala da realização definitiva do Reino, apresenta-o identificado com os pobres e faz depender da acolhida e do serviço a eles a entrada definitiva na salvação: "Venham, benditos de meu Pai! Recebam por herança o Reino preparado para vocês desde a criação do mundo. Pois tive fome e vocês me deram de comer, tive sede e me deram de beber, era estrangeiro e me acolheram, estava nu e me vestiram, estava doente e me visitaram, estava na cadeia e vieram me ver" (Mt 25,34-36) porque "todas as vezes que vocês fizeram isso a um desses meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizeram" (Mt 25,40).

Recordando essa passagem evangélica na via sacra com os jovens na JMJ da Polônia (29/07/2016), disse o Papa Francisco: "Somos chamados a servir Jesus crucificado em cada pessoa marginalizada, a tocar a sua carne bendita em quem é excluído, tem fome, tem sede, está nu, preso, doente, desempregado, é perseguido, refugiado, migrante. Naquela carne bendita, encontramos o nosso Deus; naquela carne bendita, tocamos o Senhor. O próprio Jesus no-lo disse, ao explicar o ?Protocolo? com base no qual seremos julgados: sempre que fizermos isto a um dos nossos irmãos mais pequeninos, fazemo-lo a Ele (cf. Mt 25, 31-46)".

O definitivo, o último de Deus para nós, sua salvação, seu Reino, passa pela nossa acolhida ao pobre e maltrapilho que todos os dias insistem em mexer com nossas consciências, mas que também são os que preferimos não enxergar e passar ao largo, sem assumir o compromisso efetivo de amor e serviço a eles como sendo o serviço ao próprio Senhor que com eles se identifica. É preciso, pois, tomar consciência de que "todo o caminho da nossa redenção está assinalado pelos pobres" (EG 197). Por isso, permanecer "surdos" ao clamor dos pobres e não solidarizar-se com eles implica em estar "fora da vontade do Pai e do seu projeto" e "influi diretamente sobre a nossa relação com Deus" (EG 187).

Assim, a exigência fundamental do Reino de Deus passa pela solidariedade com os pobres e excluídos. Normalmente ao ouvirmos essa palavra, pensamos em termos de ajuda momentânea que sana uma situação de fome ou outra necessidade básica. No entanto, o Papa Francisco, no I Encontro Mundial com os Movimentos Populares declarou: "Solidariedade é muito mais do que alguns gestos de generosidade esporádicos. É pensar e agir em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns. É também lutar contra as causas estruturais da pobreza, da desigualdade, da falta de trabalho, da terra e da casa, da negação dos direitos sociais e laborais". É preciso, no mundo atual, superar a "cultura do descartável" (EG 53), "globalização da indiferença" e "ideal egoísta" (EG 54), por meio da cultura da solidariedade que ouve "o clamor de povos inteiros, dos povos mais pobres da terra" (EG 190).

Deixemo-nos, pois interpelar pela novidade inaudita do Reino anunciado por Jesus. Esse Reino é endereçado aos pobres e é por eles, com os quais o Senhor se identificou, e no serviço a eles que encontraremos o definitivo de Deus para nós. 

*Presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte-CE. Mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) de Belo Horizonte/MG; professor e coordenador do Curso de Teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) de Fortaleza/CE.



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