Religião

25/09/2020 | domtotal.com

A importância do Evangelho de Mateus para o discipulado

Evangelho de Mateus é espécie de resumo da proposta cristã para quem deseja tornar-se discípulo de Jesus

Jesus indica que o Batismo como modo de fazer fazer discípulos, mergulhando-os na vida da Trindade
Jesus indica que o Batismo como modo de fazer fazer discípulos, mergulhando-os na vida da Trindade Foto (Unsplash/Joshua Eckstein)

Rodrigo Ferreira da Costa*

O discipulado cristão é o grande tema que perpassa todo o evangelho segundo Mateus. Ele utiliza a palavra "discípulos" 72 vezes em sua obra. Como ainda não existia a terminologia "cristãos", o termo "discípulos" será utilizado para designar o seguidor e a seguidora de Jesus Cristo. Pois o discipulado cristão consiste em ir após Jesus, renunciando a si mesmo, assumindo a cruz e seguindo as pegadas do Mestre (cf. Mt 16, 24). Desta forma, o(a) discípulo(a) é chamado(a) a vivenciar a nova dinâmica do Reino dos céus, não mais firmada no legalismo da Lei Mosaica, e, sim, na Palavra revelada por Jesus Cristo que atinge o cerne da vontade do Pai ?" o espírito da Lei ?" e toca o mais íntimo do ser humano, a ponto de conformar todo o seu ser e agir ao querer de Deus.

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A comunidade de Mateus vinda do judaísmo tinha muitas dúvidas, principalmente no que consistia realmente o ser cristão. Por isso vai escrever o seu evangelho como uma espécie de resumo da proposta cristã para quem deseja tornar-se discípulo de Jesus. Na linguagem de hoje, talvez pudéssemos chamar o evangelho segundo Mateus de "o catecismo do discipulado", no qual Jesus é o grande catequista. Ele é o mestre da comunidade, que ensina, esclarece os discípulos, responde-lhes as questões, abri-lhes as mentes, de forma a reforçar-lhes a fé e prepará-los para missão de proclamar o Reino dos Céus e curar os doentes, "dando de graça, o que de graça receberam" (Mt 10, 8). Sendo mestre, Jesus convida a seus discípulos a aprender dele (Mt 11, 29) a nova dinâmica da fé, ou seja, Cristo é a nova lei a qual todos devemos seguir. 

Fazer discípulos é a grande missão dada por Jesus aos Onze, em seu último testamento: "Indo, pois, discipulai todas as nações" (Mt 28,19). Em nossas traduções clássicas desse versículo, toda ênfase é dada no "ide", porém no texto grego, língua original em que o Novo Testamento foi escrito, não é o verbo "ir" que aparece no imperativo, e sim outro verbo, o "fazer discípulos". Isso não diminui a força missionária presente na conclusão da obra mateana, mas nos indica um caminho catequético pelo qual devemos trilhar, isto é, em tudo o que fazemos e por onde formos, a nossa atenção primeira deve estar no processo discipular, na evangelização. Pois, diferentemente do judaísmo, no qual já se nasce judeu, "os cristãos não nascem, se fazem" (Tertuliano), daí a importância da catequese no processo de fazer discípulos do Reino.

A missão de "discipular" é mais que um desejo do Ressuscitado, é uma ordem, um mandado. Uma missão árdua, que dura por toda a vida, porque, ao contrário dos judeus, o discipulado cristão não tem "formatura", é para sempre. Mesmo sendo enviado em missão, o apóstolo permanece discípulo, porque o cristão é aquele que deve sempre aprender e seguir seu Mestre, até o final da sua vida terrena. Este caminho discipular, nós não o fazemos sozinhos, pois o Senhor prometeu permanecer conosco todos os dias, até o fim dos tempos (cf. Mt 28, 20).

O imperativo "discipulai" nos coloca diante de um grande desafio, pois, parece que Jesus quer indicar que todo lugar onde os apóstolos estiverem, devem se empenhar para formar novos discípulos do Reino. Por isso, quando a Igreja dedica suas forças em atividades diversas e, mas se esquece da evangelização, da catequese, Ela, na verdade, está traindo a sua missão primeira recebida do seu Mestre. Como afirma a Documento de Aparecida (DAp), "isso constitui grande desafio que questiona a fundo a maneira como estamos educando na fé e como estamos alimentando a experiência cristã; desafio que devemos encarar com decisão, coragem e criatividade, visto que em muitas partes a iniciação cristã tem sido pobre e fragmentada. Ou educamos na fé, colocando as pessoas realmente em contato com Jesus Cristo e convidando-as para segui-lo, ou não cumpriremos nossa missão evangelizadora" (DAp. n. 287).

Jesus também indica como se deve fazer para que os povos se tornem seus discípulos: batizando-os em nome da Trindade e ensinando-os a observar tudo que ele nos ordenou (cf. Mt 28,19-20). Batizar significa mergulhar, imergir a pessoa na vida trinitária para que ela conheça Deus não por ouvir dizer, mas por experiência própria. Este mergulho se dá de diversas formas: pela vida fraterna na comunidade de fé, pelas orações comunitárias e pessoais, pelos sacramentos, etc.

Para Jesus, porém, não basta batizar. É preciso fazer discípulos, ensinando as palavras do Mestre contidas na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja. Por isso, a comunidade cristã primitiva era perseverante no ensinamento dos apóstolos (cf. At 2, 42), ou seja, lendo todas as Escrituras a partir da vida e das palavras de Jesus (cf. Lc 24,27), o (a) discípulo (a) aprende a viver uma vida configurada a Cristo, a viver de acordo com a sua vida e os seus ensinamentos. Por isso, "o Catequista não é um professor que leciona. A catequese não é uma lição, mas a expressão da própria experiência e testemunho de fé em Cristo. Não se deve impor a verdade da fé, mas comunicá-la com carinho, paciência e amizade. Só assim a catequese se torna promoção da vida cristã, apoio na formação global dos fiéis e incentivo para ser discípulos missionários" (Papa Francisco).

O tema do discipulado cristão tem sido bastante estudado e refletido entre nós, principalmente após a V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe realizada em Aparecida-SP (2007), quando o Documento final, retomando um pensamento do então papa Bento XVI, afirma: "na?o se comec?a a ser crista?o por uma decisa?o e?tica ou uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que da? um novo horizonte a? vida e, com isso, uma orientac?a?o decisiva" (DAp. n.12). Isso porque uma fé cato?lica reduzida a conhecimento, a um elenco de normas e de proibic?o?es, a pra?ticas de devoc?a?o fragmentadas, a adeso?es seletivas e parciais das verdades da fé, a uma participac?a?o ocasional em alguns sacramentos, a? repetic?a?o de princi?pios doutrinais, a moralismos brandos ou crispados que na?o convertem a vida dos batizados, que não os leva a fazer a experiência pessoal com Jesus Cristo, ou seja, a tornar-se discípulo (a) do Mestre, na?o resistiria aos embates do tempo (cf. DAp. n.12).

Assim como Jesus dedicou uma atenção toda especial na formação dos seus discípulos, Ele falava às multidões, realizava os sinais em favor delas, porém, a sós com os Doze, Jesus explicava e aprofundava a sua catequese do Reino (cf. Mt 13, 10-17); a Igreja também precisa priorizar a evangelização, a formação de discípulos missionários, assumindo uma pedagogia catequética "que exprima o amor salvífico de Deus como prévio à obrigação moral e religiosa, que não imponha a verdade, mas faça apelo à liberdade; ao diálogo, que seja pautado pela alegria, o estímulo, a vitalidade e uma integridade harmoniosa que não reduza a pregação a poucas doutrinas, por vezes mais filosóficas que evangélicas. Isso exige do evangelizador certas atitudes que ajudam a acolher melhor o anúncio: proximidade, abertura ao diálogo, paciência, acolhimento cordial que não condena" (Papa Francisco, EG, 165).  Pois, nas palavras de São Mateus, "todo escriba que se torna discípulo do Reino dos Céus é como um pai de família, que tira do seu tesouro coisas novas e velhas" (Mt 13, 52). 

*Pe. Rodrigo Ferreira da Costa, SDN é licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, com especialização em formação para Seminários e Casa de Formação. Atualmente é pároco da Paróquia de Santa Luzia ?" Arquidiocese de Teresina-Piauí



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