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24/09/2020 | domtotal.com

Declarações de Trump sugerem contestação da eleição em caso de derrota

Atrás nas pesquisas, presidente dos EUA insiste em questionar voto pelo correio

O presidente Donald Trump pretende indicar o nome na Suprema Corte rapidamente
O presidente Donald Trump pretende indicar o nome na Suprema Corte rapidamente (B. Simialowski/AFP)

Atualizada ás 17h10

Já há algum tempo, o presidente dos Estados Unidos Donald Trump tem questionado o sistema de votação pelo correio, prática consolidada no país e utilizado pelo próprio republicano, candidato à reeleição. Atrás nas pesquisas de intenção de voto, o presidente reclama com frequência das condições de organização das eleições e afirma que o voto por correio é uma fonte potencial de fraude. A denúncia não foi comprovada, mas se espera que a votação por correio seja muito mais utilizada que habitualmente este ano devido à pandemia de Covid-19.

Em declarações esta semana, porém, Trump elevou o tom das críticas. "Livrem-se destas cédulas e será muito pacífico, não haverá transferência de poder, realmente, será uma continuação", disse. E sugeriu que, em caso de derrota nas eleições de 3 de novembro, deverá resistir para transferir o posto na Casa Branca, algo inédito na democracia americana. Em outra declaração polêmica, indicou que o caso poderá chegar à Suprema Corte, que, com a morte da juíza progressista Ruth Bader Ginsburg, terá um nome indicado por Trump, o que deve ocorrer neste sábado (26).  

Nesta quarta-feira, Trump se negou a assumir o compromisso de uma transferência pacífica de poder, o que provocou reações indignadas de seu rival democrata e inclusive entre os republicanos. "Teremos que ver o que acontece em novembro", respondeu Trump em uma entrevista coletiva na Casa Branca ao ser questionado se estava comprometido a garantir uma transferência não violenta de poder, independente do resultado das eleições entre ele e o democrata Joe Biden.

Biden reagiu de maneira imediata aos comentários do republicano, que menciona regularmente a ideia de não reconhecer os resultados das eleições. "Em que país vivemos? É uma piada. Quero dizer, em que país estamos? Ele fala as coisas mais irracionais. Eu não sei o que dizer", declarou o candidato democrata.

O senador republicano Mitt Romney, um crítico excepcional de Trump na ala conservadora, também criticou a declaração do presidente. "A transferência pacífica do poder é fundamental para nossa democracia; sem ela há Belarus. Qualquer sugestão de um presidente que pode evitar esta garantia constitucional é impensável e inaceitável", escreveu no Twitter.

Nove juízes

Indicando que poderá contestar uma eventual derrota nas urnas, Trump disse achar que a eleição de 2020 terminará na Suprema Corte e que por isso é importante ter o quadro completo de nove magistrados, de modo que não haja risco de um empate caso o máximo tribunal do país tenha que decidir o destino da votação. "Acho que isso vai acabar na Suprema Corte e acho que é muito importante termos nove juízes", disse quando questionado se um quadro completo de juízes era necessário para lidar com uma eventual contestação do resultado da eleição.

A morte da juíza da Suprema Corte Ruth Bader Ginsburg oferece ao presidente a oportunidade de nomear um novo magistrado em uma instituição que decide questões sociais cruciais, como direito ao aborto ou ao porte de armas. O alto tribunal, que também arbitra nas disputas durante as eleições presidenciais, pode ser dominado de maneira duradoura pelo campo conservador.

Em um evento na Casa Branca, Trump voltou a lançar dúvidas sobre a integridade do processo eleitoral, dizendo - sem apresentar provas - que a ampliação do voto pelo correio levaria à fraude. "Esse golpe que os democratas estão dando será levado ao Supremo Tribunal dos Estados Unidos, e acho que ter uma situação de quatro a quatro não é uma boa", afirmou. E, mais tarde nesta quinta, disse que é preciso "ter muito cuidado" com a votação por correio. "Não tenho certeza se a eleição pode ser honesta", declarou Trump 

Escolha conservadora

A hipótese de que a Suprema Corte defina o resultado da eleição pode se concretizar se o resultado da votação em algum dos estados do país não for reconhecido por um dos partidos. Foi o que ocorreu na eleição presidencial de 2000, quando a Suprema Corte encerrou a disputa na última hora, em 14 de dezembro, ao determinar a suspensão da recontagem na Flórida, dando a vitória ao republicano George W. Bush sobre o democrata Al Gore. Com os votos da Flórida, Bush garantiu sua vitória no Colégio Eleitoral.

Trump está trabalhando para indicar rapidamente o substituto da juíza Ruth Bader Ginsburg, que morreu na semana passada, e os republicanos no Senado disseram que podem votar para confirmar o indicado do presidente antes da eleição. Isso selaria uma maioria conservadora de 6 a 3 na corte. Na quarta-feira, o presidente americano disse que o senador Lindsey Graham, que preside a Comissão de Justiça do Senado, nem mesmo teria que realizar uma audiência para sabatinar o candidato e que o processo será rápido.

Vaias

Nesta quinta-feira, Trump compareceu ao velório da magistrada na Suprema Corte, gesto pouco comum, já que ele não costuma participar de eventos que não sejam de seu espectro político. Ao chegar, foi recebido com vaias por um grupo de manifestantes. O grupo, bastante numeroso, gritou: "Votem para tirá-lo", em referência à eleição, e "honrem seu desejo", em alusão à última vontade de Ginsburg, que pediu que o governo vencedor das eleições nomeie seu sucessor. Trump chegou ao local, acompanhado da primeira-dama Melania, fizeram um minuto de silêncio e saíram rapidamente.

Na terça-feira, um dia depois de se encontrar com Amy Coney Barrett, juíza do Sétimo Tribunal Distrital de Apelações dos EUA em Chicago, Trump informou pelo Twitter que anunciará a indicação para a Suprema Corte no sábado. Católica conservadora, Barrett é considerada a favorita dele e movimento antiaborto para ocupar a vaga. Ela faz parte de uma comunidade religiosa chamada People of Praise, que já foi comparada ao romance de Margaret Atwood O conto da aia (The handmaid's tale), no qual as mulheres são completamente obedientes aos homens.

YouTube se previne

Em uma ação que contesta as alegações do presidente, o YouTube começou a agregar aos vídeos painéis informativos sobre o voto por correio nos EUA para reduzir a propagação de fake news antes da eleição. O voto por correio foi incluído em uma pequena lista de temas considerados, pelo YouTube, propensos a serem usados para publicações com mensagens falsas. A pandemia da Covid-19 e a chegada do Homem à Lua estão nessa lista.

"Isso significa que, nos vídeos que falam do voto por correio, você verá um painel informativo que levará você para a informação autorizada do Centro de Política Bipartidária", um grupo de especialistas de ambas as siglas, republicana e democrata, afirmou a vice-presidente do YouTube, Leslie Miller, em um blog.

O painel vai aparecer debaixo dos vídeos, sem importar quem esteja falando, ou quem postou o material na plataforma - mesmo que seja o presidente dos Estados Unidos, disse o YouTube. O YouTube já bloqueia as mensagens com informação falsa sobre a eleição, ou que "estimulem a interferência no processo democrático", afirmou Miller.


Agência Estado/AFP/Dom Total



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