Religião

25/09/2020 | domtotal.com

O papado em diálogo com os comunistas

Das condenações à instauração da Ostpolitik Vaticana

O líder soviético Gorbachev visita o papa João Paulo II no Vaticano, em 1989
O líder soviético Gorbachev visita o papa João Paulo II no Vaticano, em 1989 (D. Donskoy/AFP)

Mirticeli Medeiros*

Igreja Católica e comunismo. Encíclicas, decretos e excomunhões marcam essa relação conturbada e, por assim dizer, incompatível. De 1846 até a metade do século 20, os pontífices condenaram, abertamente, essa ideologia política. A Igreja Católica enfrentou, nessa fase, um dos maiores desafios da sua história.

Para além do massacre causado pelo regime, que se instaurou na Europa a partir da Revolução Russa de 1917, era o materialismo ateu, imposto pelo sistema, o que mais assustava os membros do alto escalão do Vaticano. Não por acaso, encontramos nas prateleiras dos arquivos pontifícios mais condenações ao comunismo que aos fascismos, por exemplo.

Em vista dos próprios interesses, o ditador fascista Benito Mussolini, um ateu declarado, reconheceu, após a sua ascensão, a importância do catolicismo. Querendo ou não, o caráter transnacional da religião alimentava o mito imperial fascista. Por conta disso, passou a se considerar uma espécie de novo Constantino, em referência ao imperador romano que elevou o cristianismo ao status de religião lícita no século 4 e, através disso, criou as bases para a implantação de sua política de expansão territorial.

E para corresponder ainda mais à comparação, Mussolini fez várias concessões à Igreja Católica enquanto esteve no poder. Grata pelos favores, a instituição se omitiu diante de várias atrocidades perpetradas pelo governo do Duce. Uma encíclica publicada por Pio XI em 1931 (Non abbiamo bisogno) chegou a repudiar algumas ações do partido. No entanto, o documento não emitia nenhuma condenação sistêmica ao regime.

Excomunhão? Só para os vermelhos

Vale salientar que, curiosamente, os fascistas jamais foram excomungados. Já os comunistas, sim. Em 1949, Pio XII publicou um decreto no qual aplicava esse tipo de pena aos católicos italianos que aderissem ao partido. Esse tipo de filiação era considerada uma apostasia pelo então pontífice.

Ora, quer dizer então que existia, para a Igreja, naquele contexto específico, uma "ideologia menos pior"? Analisando as ações do magistério pontifício, que se moldavam às circunstâncias, podemos dizer que sim.

Mais à frente, as orientações eclesiais oficiais, incorporadas à cartilha da doutrina social da Igreja, rejeitarão esse tipo de classificação. Para o catolicismo, as ideologias que violam a dignidade humana, independente do espectro político ao qual se associem, são nocivas. Em outras palavras, tanto os princípios da extrema-direita quanto da extrema-esquerda são incompatíveis com os valores do catolicismo.

E chegou a hora de dialogar com os comunistas...

Foi João XXIII, sucessor de Pio XII, quem deu o primeiro passo em direção à reaproximação. Lançou um apelo de paz e de conciliação através da encíclica Pacem in Terris (1963), na qual afirma que todos partidos políticos, incluindo os de matriz marxista, devem trabalhar, juntos, pelo bem comum. Apesar de ter condenado abertamente o comunismo no documento, garantiu aos católicos, em outras palavras, o direito à liberdade partidária.

E é nessa fase que acontece a implementação da chamada Ostpolitik Vaticana. Essa política diplomática da Santa Sé, em diálogo com os governos comunistas do Leste Europeu, visava promover a liberdade religiosa nos países do bloco soviético. Nas palavras do atual secretário de estado da Santa Sé, cardeal Pietro Parolin, foi um "verdadeiro martírio da paciência, que levou a Igreja a aproveitar cada brecha de abertura".

E Paulo VI, sem renunciar à empreitada audaciosa iniciada por seu antecessor, deu continuidade às negociações. João Paulo II, que voltou a condenar o comunismo publicamente, ainda que de maneira discreta, foi o primeiro sumo pontífice a se encontrar com um líder soviético, no caso, Mikhail Gorbachev.

Grupos conservadores criticam o processo, pois, segundo eles, tal medida teria provocado a "infiltração de agentes comunistas" nos departamentos da cúria romana. Porém, convenhamos: com acordo ou sem acordo, nenhum Estado estava imune a esse tipo de invasão em plena Guerra Fria, não é mesmo? Além disso, os poucos espiões identificados – na maioria, padres que trabalhavam como funcionários da instituição – foram expulsos pelos papas após terem sido descobertos.

O idealizador desse projeto de degelo diplomático foi o cardeal italiano Agostino Casarolli, que, mais à frente, se tornaria secretário de estado de João Paulo II. Graças aos acordos arquitetados por ele, a delegação do patriarcado ortodoxo russo foi autorizada a participar do Concílio Vaticano II, na década de 1960. O preço que o Vaticano teve que pagar foi aceitar a determinação imposta pela URSS de não se pronunciar sobre o comunismo durante toda a assembleia. Por outro lado, a presença dos religiosos, provenientes de Moscou, permitiu que a Santa Sé ficasse a par dos ataques aos cristãos do território.

Sem contar que, com sua habilidade, Casarolli conseguiu transpor as barreiras, até então intransponíveis, entre a Santa Sé e alguns países da Cortina de Ferro. Sob sua supervisão, a Santa Sé iniciou as negociações com a Tchecoslováquia, Hungria e Iugoslávia, por exemplo. E, por fim, para coroar os esforços de décadas, enviou representantes para a Conferência de Helsinque, capital da Finlândia, onde foi firmado um pacto de conduta sobre direitos e liberdades dos cidadãos em 1975.

O atual acordo firmado entre Santa Sé e China, selado em 2018, cujo conteúdo explicamos na semana passada, segue os parâmetros da Ostpolitik. Os objetivos são claros: garantir a plena liberdade de culto e pôr um fim à perseguição aos cristãos no local. Pena que alguns católicos, ignorando o alto índice de complexidade do jogo, cuidadosamente posto sobre o tabuleiro da diplomacia, exigem que os efeitos sejam imediatos. Esquecem que o papa é, além de autoridade religiosa, um chefe de Estado. E deve, por assim dizer, "pisar em ovos", como qualquer líder político, quando se encontra diante de uma situação delicada.

Francisco foi questionado, recentemente, por não ter se pronunciado sobre os atos pró-democracia que acontecem em Hong Kong. Ele chegou a excluir um trecho de um discurso, previamente preparado pelos seus colaboradores, no qual ele dizia estar preocupado com o que ocorre na região. Isso aconteceu durante a oração mariana do Ângelus, realizada em 5 de julho deste ano. Claramente, o papa quer evitar, ao menos nessa fase, novos desencontros com Pequim.

Mais uma vez, fica claro que, com os comunistas – e em especial, com os chineses, é necessário ir devagar. Matteo Ricci que o diga...

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras



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