Cultura

25/09/2020 | domtotal.com

Até quando, Catão, abusarás de nossa paciência!

Pacifista, a pena de Kraus não poupava belicistas

Karl Kraus (1874?
Karl Kraus (1874?"1936), um dos mais importantes escritores austríacos do início do século 20 (Charlotte Joel-Heinzelmann/Wikimedia)

Eleonora Santa Rosa*

Eles julgam para não serem julgados.

A boca transborda daquilo que o coração está vazio.

Ele deu rédeas soltas, que tomou emprestadas, a uma megalomania que não era sua.

Muitos têm a megalomania de ser loucos e são apenas cabeças-tontas.

Seu riso é um regulador da insanidade do mundo.

Ora vejam, o conselheiro administrativo da Cretinos S.A. e o diretor da Banalidades Associadas!

As verdadeiras verdades são aquelas que se pode inventar.

Eles metem a mão em nosso bolso como se fosse a nossa carteira.

O nacionalismo é um turbilhão em que qualquer outro pensamento desaparece.

Talvez as coisas andassem melhor se os homens recebessem focinheiras e os cães, leis; se os homens fossem conduzidos pela coleira e os cães pela religião. A hidrofobia poderia diminuir na mesma proporção da política.

Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Pois cada um é o próximo de si mesmo.

É de bom tom não falar sobre uma má ação. Se um patife te confia a intenção de trair teu amigo, a discrição é uma questão de honra.

A sujeira ainda lhe conferia solidez. O que restou dele quando se lavou? Uma esponja.

Preto no branco: é assim que se mente agora.

O que há de surpreendente na situação atual é que a mentira, com suas pernas curtas, seja forçada a correr pelo mundo – e que o consiga.

Não, a alma não fica com cicatrizes. A bala entrará por um ouvido da humanidade e sairá pelo outro.

O mundo externo é um sintoma secundário inoportuno de um estado de indisposição.


Os aforismos acima são de autoria do escritor satírico Karl Kraus. Poeta, ensaísta, jornalista, dramaturgo, produziu muito e diversamente. Implacável, brilhante, inteligentíssimo e cortante, era um pacifista cuja pena não poupava políticos, personalidades culturais vienenses, autoridades e militantes belicistas. "Kraus foi a voz dissonante que alertou para o perigo de confundir patriotismo com interesses comerciais".  Reconhecido como o maior autor satírico em língua alemã do século 20, nasceu na Boêmia em 1874 e faleceu em Viena em 1936. Os aforismos aqui reunidos foram por mim selecionados em ordem distinta da edição da Arquipélago Editorial, em 2010, intitulada Aforismos – Karl Kraus – seleção, tradução, glossário e apresentação de Renato Zwick.


O título "Até quando, Catão, abusarás de nossa paciência!" foi extraído de uma das notas do glossário alfabético de nomes, lugares e expressões estrangeiras constante da edição brasileira de aforismos selecionados de Karl Kraus, como se segue: Quousque tandem, Cato, abutere patientia nostra! "Paródia de Cícero, que, nos discursos que ficaram conhecidos como Catilinárias, empregava essa exclamação referindo-se ao conspirador Catilina. Catão (Marcos Pórcio Cato, 239-149 a.C.): político e censor romano que se tornou célebre por seu rigor, severidade e austeridade".

*Ex-secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais, ocupou diversas funções públicas de relevo e desenvolveu projetos de educação patrimonial e de patrimônio cultural de repercussão nacional. Ex-diretora executiva do Museu de Arte do Rio – MAR (de novembro de 2017 a novembro de 2019), é considerada uma das mais experientes e respeitadas profissionais no campo da viabilização, implantação e soerguimento de equipamentos culturais no país. Estrategista e gestora cultural, tem larga experiência editorial; foi responsável pela publicação de mais de meia centena de obras voltadas à história e à cultura de Minas Gerais, tendo sido coordenadora editorial das consagradas Coleções Mineiriana e Centenário da Fundação João Pinheiro. Diretora do Santa Rosa Bureau Cultural, é autora do livro Interstício.



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