Religião

25/09/2020 | domtotal.com

Número 3 do Vaticano renuncia ao cardinalato

Angelo Becciu deixa Congregação para a Causa dos Santos e renuncia ao posto de cardeal da Igreja

Cardeal Angelo Becciu estaria envolvido em casos de corrupção
Cardeal Angelo Becciu estaria envolvido em casos de corrupção (Vatican Media)

O papa aceitou nesta quinta-feira (24) a renúncia do cardeal italiano dom Angelo Becciu, de 72 anos, ao cargo de prefeito da Congregação da Causas dos Santos, que ocupava desde maio de 2018.

Num breve comunicado, a Santa Sé informa ainda que o antigo responsável renuncia ainda aos "direitos ligados ao cardinalato". A nota, de duas linhas, não adianta os motivos da decisão.

Antes de ser nomeado para Congregação para a Causa dos Santos foi figura de destaque na diplomacia da Santa Sé, como substituto dos Assuntos Gerais do Secretário de Estado do Vaticano, cargo para o qual foi escolhido pelo papa emérito Bento XVI. O diplomata tinha sido ainda núncio apostólico em Angola e em Cuba; foi criado cardeal pelo papa Francisco em 2018.

Corrupção

Tudo indica que a renúncia está relacionadas com escândalos financeiros: nomeadamente, a compra de um antigo armazém da Harrod’s, no bairro londrino de Chelsea, destinado a ser transformado em apartamentos de luxo, por cerca de 200 milhões de euros, através de um fundo liderado pelo empresário italiano Raffaele Mincione. 

O negócio em causa ocorreu em 2014, enquanto Becciu era sostituto (em português, “substituto”) na Secretaria de Estado, ou seja, o número dois daquele organismo, a seguir ao próprio Secretário de Estado, um cargo que ocupou entre 2011 e 2018.

De acordo com a Catholic News Agency (CNA), Angelo Becciu terá tentado esconder na documentação financeira do Vaticano que os investimentos feitos em 2014 para a compra do prédio tiveram origem em créditos do banco suíço BSI, conhecido por protagonizar operações fraudulentas e de lavagem de dinheiro.

A manobra foi detetada pelo cardeal George Pell, então responsável pelas Finanças da Santa Sé, que teria exigido à Secretaria de Estado detalhes sobre os empréstimos, em particular os que envolviam o BSI. Nessa altura, Becciu teria chamado Pell à Secretaria de Estado para lhe dar uma "reprimenda", afirma a CNA.

Dois anos mais tarde, a Secretaria para a Economia, liderada por Pell, pediu uma auditoria externa às contas de todos os departamentos do Vaticano, a qual terá sido cancelada por Becciu, sem autorização do Papa.

Em 2017, foi ainda Becciu o responsável pelo afastamento do primeiro auditor-geral do Vaticano, Libero Milone, depois de o ter acusado de "espiar" as finanças dos altos cargos da Igreja, incluindo as suas. O então arcebispo ameaçou processar MiIlone caso ele não abandonasse discretamente o lugar.

Também em 2017, Becciu esteve envolvido numa complexa sucessão de eventos associados à Ordem Soberana e Militar de Malta, que terminou com o afastamento do então Grão-Mestre da Ordem e a nomeação de Becciu como enviado papal especial encarregado de administrar aquela organização católica.

No centro da controvérsia estavam alegações de que o Vaticano teria desviado mais de 30 milhões de euros de um fundo de 120 milhões mantido numa conta bancária na Suíça, a fim de aliviar problemas de liquidez.

Foi no ano seguinte que o papa Francisco nomeou Becciu cardeal e o escolheu para prefeito da Congregação para as Causas dos Santos. Nessa altura, foi comentada no Vaticano, a demora de "vários meses" nas obras do apartamento atribuído ao novo cardeal. Segundo o jornal italiano La Repubblica, a decisão de o afastar teria agora sido comunicada pelo próprio papa a Angelo Becciu, pouco tempo antes da divulgação do comunicado, numa altura em que os investimentos imobiliários da Santa Sé em Londres estão sob investigação da Justiça do Vaticano.

Em 2019, dom Angelo Becciu tinha rejeitado acusações de envolvimento nos investimentos imobiliários da Santa Sé em Londres, alegadamente irregulares e atualmente sob investigação da Justiça do Vaticano.

Becciu, 72 anos, iria presidir, já no próximo dia 10 de outubro, à beatificação do jovem italiano Carlo Acutis, na cidade de Assis, o que leva a crer que a decisão de Francisco não foi tomada com antecedência.

Casos de renuncia

Os casos de renúncia às prerrogativas do cardinalato são raros: em 2015, o escocês dom Michael Patrick O’Brien abdicou dos direitos e prerrogativas do cardinalato (como a participação no Conclave para eleição de um novo papa), após admitir ter cometido abusos sexuais; viria a falecer em 2018.

Já em 2018, o papa Francisco suspendeu do exercício público do ministério o antigo arcebispo de Washington (EUA), dom Theodore McCarrick, acusado de abusos sexuais, aceitando a sua renúncia como membro do Colégio Cardinalício; em 2019, o Vaticano condenou-o à pena de "demissão do estado clerical".


Sete Margens/Ecclesia/Dom Total



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