Cultura

01/10/2020 | domtotal.com

A guerra contra o Brasil

No Brasil, o cultivo do ódio político antecedeu a consagração de um neofascismo caboclo aliado ao fundamentalismo religioso e ao racismo à brasileira

A guerra contra o Brasil é de autoria de Jessé Souza
A guerra contra o Brasil é de autoria de Jessé Souza (Divulgação)

Reinaldo Lobo*

O nosso "complexo de vira-latas" nunca foi tão bem analisado quanto nesse livro do sociólogo Jessé Souza: A guerra contra o Brasil (Editora Estação Brasil, 2020). O significado e a função da baixa autoestima brasileira são examinados minuciosa e profundamente, no interior de uma brilhante análise psicossocial da nossa submissão aos Estados Unidos, que chegou agora ao seu ponto de maior humilhação sob o governo Bolsonaro.

A cena do presidente brasileiro eleito batendo continência para a bandeira norte-americana, divulgada por toda a mídia internacional, não é apenas uma atitude ridícula de um dirigente ignorante e ridículo. É também o resultado icônico de um longo processo em que os dirigentes norte-americanos buscaram por vários anos "colocar o Brasil em seu devido lugar" e cortar suas pretensões de desenvolvimento, mesmo que relativo, na economia, na política e na sua sociedade.

Para os interesses norte-americanos convém que o Brasil continue a ser uma republiqueta fornecedora de matérias primas, agrário-exportadora, dependente e humilhada. Precisavam ser castradas as nossas pretensões de potência emergente, com autonomia e capacidade de negociação, reveladas, sobretudo, no período Lula e Dilma, gerando novidades como os Brics.

Fazia parte dessa estratégia - que não é nenhuma teoria conspiratória, como alegam os críticos de Jessé Souza - o apoio das elites do atraso dentro do Brasil, inclusive de sua classe média branca, racista e americanófila, deslumbrada com Miami e os manufaturados para o consumo de massas.  

Esse processo de submissão brasileira, que atinge seu auge com o regime inaugurado com o golpe jurídico-parlamentar de 2016 e a eleição do presidente de extrema direita em 2018, não foi apenas uma operação maquiavélica de juízes reacionários, políticos vendidos e militares saudosos da Ditadura. Foi, sobretudo, o resultado de um longo desenrolar histórico e de uma complexa trama ideológica.

Jessé Souza, cujo pensamento foi formado em parte no Brasil, em parte na Alemanha e nos EUA, onde fez seus doutorado e pós-doutorado, mostra como essa teia ideológica foi tecida num ambiente de elites ultraconservadoras e corruptas. Diz ele que nenhuma relação econômica de dominação se constitui sem a elaboração de uma trama simbólica de ideias e valores que a legitimam e justificam.

Acrescento que a dominação não se dá sem a identificação de uma parte da sociedade com o dominador e sem a emergência de sentimentos propícios à opressão contra os dominados. No Brasil, o cultivo do ódio político antecedeu a consagração de um neofascismo caboclo aliado ao fundamentalismo religioso e ao racismo à brasileira.

Uma das chaves para compreender a submissão brasileira ao "imperialismo informal" norte-americano, no dizer de Souza, é o racismo. As elites de bilionários brasileiros são profundamente racistas, assim como as norte-americanas, ainda que haja diferenças de estilo. Uma das interpretações mais interessantes do livro é elaborar a ideia de "um racismo primordial" no interior das sociedades, parte do esforço de formação de uma identidade.

Neste ponto, uma digressão que faço: o filósofo e psicanalista Cornelius Castoriadis, nos seus ensaios sobre o racismo já havia apontado um "racismo essencial" na formação da identidade de um povo, para diferenciá-lo dos "bárbaros", dando-lhe "legitimidade" para escravizar os outros. O racismo, segundo Castoriadis, seria uma "segunda pele" de todos nós, da qual é difícil se livrar, exigindo um movimento de autoconsciência e reflexão.  Souza pensa do mesmo modo.

Nós, brasileiros, defendemo-nos do reconhecimento desse "racismo primordial" com hipocrisia, justamente por nosso passado escravocrata de muita duração. Não nos esqueçamos que nossas empregadas domésticas, geralmente negras, nem direitos trabalhistas possuíam até há pouco tempo atrás, quando os governos Lula e Dilma deram-lhes a dignidade oficial de ter salário legítimo.

Aliás, como mostra Souza, um ódio racista acendeu no governo Lula, quando negros puderam entrar nas universidades pelos programas de inclusão social. Esse seria o maior ódio da classe média branca, pois, no seu imaginário, as cotas raciais tirariam a oportunidade de seus filhos brancos de ascensão, único caminho para a classe média usufruir mais das migalhas de privilégios junto às elites, colocando-se ao seu serviço.

A guerra contra o Brasil a que o livro se refere foi gerada e testada (contra os pobres) dentro dos EUA e constitui um guerra híbrida que não tem tiros, tanques, bombas, helicópteros nem marines. Foi feita com a conivência da elite brasileira interna colonizada, seus instrumentos foram juízes corruptos, políticos idem e "ideias envenenadas", no dizer de Souza. Faz parte dessa guerra diminuir a autoestima das classes populares e da população em geral de um país com pretensões à autonomia.

Muitos acreditam que a tragédia de destruição que se abateu sobre o Brasil - das queimadas da Amazônia e do Pantanal até a dilapidação do pré-sal, cujos royalties seriam designados pelo Estado para a Educação - foi apenas uma fatalidade, acaso ou uma má sorte de um povo corrompido e incapaz. Não foi nada disso.

A ascensão do corrupto e violento bolsonarismo, com o concurso decisivo da "Lava Jato" - desmascarada pela "Vaja Jato" do jornalista Green Greenwald -, não foi fruto do destino nem do acaso, mas foi uma estratégia coordenada nos EUA e dentro do Brasil.

Houve um conluio da mídia, do fundamentalismo religioso, dos órgãos de inteligência norte-americanos e das classes dominantes que transformaram o racismo em moralismo para impor uma ordem submissa e subalterna. O objetivo era destruir o sonho brasileiro de soberania.

Como diz Souza, este mundo "tem donos que efetivamente conspiram, todos os dias, para reproduzir seus poderes e privilégios e explorar os que foram feitos de tolos. Geralmente, os tolos são os acreditam no acaso e na coincidência".



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outros Artigos