Religião

01/10/2020 | domtotal.com

Papa Francisco e as saídas para uma humanidade violada

Crises profundas exigem mudanças radicais. Se o mundo ouvir impostores como Bolsonaro, Trump ou Putin é certo que sairá pior. Há esperança?

Élio Gasda
Élio Gasda (United Nations Web TV/ Vatican Media)

Élio Gasda*

O septuagésimo quinto aniversário da ONU foi uma amostragem de como e para onde caminha a humanidade. Diante de uma crise mundial intensificada pelo Covid-19, assistimos ao desfile de discursos mentirosos, acusatórios e autoritários recheados de cinismo para com a vida humana e o planeta. A maioria das autoridades perdeu credibilidade. Poucos líderes se preocuparam em propor mudanças ou questionar nosso modo de vida. Papa Francisco foi um deles.

Francisco tratou de temas fundamentais. A pandemia expôs a "nossa fragilidade como criaturas" e nos colocou em uma encruzilhada: "separar o que é necessário do que não é". Um caminho leva ao projeto de Deus baseado na paz e na justiça, o outro a "automutilação". Escolher o primeiro é oportunidade "de conversão, transformação, de repensar nosso modo de vida e nossos sistemas econômicos e sociais, que estão aumentando o fosso entre ricos e pobres, devido a uma distribuição injusta de recursos". Milhões torturados pela fome.  

Enquanto as empresas farmacêuticas disputam o mercado e a descoberta de uma vacina para a Covid-19, Francisco defendeu que os setores públicos e privado privilegiem "o mais pobre e vulnerável, aqueles discriminados por não ter poder ou recursos econômicos" e garantam a eles o direito à saúde. Ao falar em tecnologias o papa pediu urgência em discutir a Inteligência Artificial (IA) que vem alterando o mundo do trabalho. Já são milhares os desempregados jogados na miséria.

Francisco não é contra a IA. "O progresso tecnológico é necessário desde que sirva para tornar o trabalho humano mais digno e seguro, menos pesado e penoso". Não se pode consolidar a "cultura do descarte", pois se trata de "um grande desrespeito pela dignidade humana, uma promoção ideológica com visões reducionistas da pessoa, uma negação da universalidade de seus direitos fundamentais e um desejo de poder e controle absolutos para dominar a sociedade". A cultura do descarte gera "uma humanidade violada, ferida, privada de dignidade, liberdade e possibilidade de desenvolvimento".

Francisco criticou os conflitos que têm "impacto humanitário dramático de longo prazo" que resultam na violação de direitos humanos básicos, migrações e descolamentos. Obrigados a deixar suas casas, muitos são "vítimas de tráfico, escravidão sexual ou trabalho forçado, explorados em trabalhos degradantes, sem um salário justo. Intolerável, mas "muitos ignoram intencionalmente!".

Crítico do armamentismo, o papa ressalta que a pobreza, epidemias e terrorismo não podem ser enfrentados enquanto as nações continuarem "desperdiçando recursos preciosos" em armas. O dinheiro deveria ser aplicado no "desenvolvimento integral das cidades e da proteção do meio ambiente".

Para o pontífice a crise atual é uma oportunidade "para gerar uma sociedade mais fraterna e solidária". Francisco defendeu o perdão ou redução das dívidas dos países pobres e o combate à corrupção: 

"Uma nova ética significa ter consciência da necessidade de todos se comprometerem a trabalhar juntos para fechar esconderijos fiscais, prevenir a evasão fiscal e a lavagem de dinheiro que roubam da sociedade, além de informar às nações a importância da defesa a justiça e o bem comum sobre os interesses das mais poderosas empresas e multinacionais".

Ao falar da falta de capacidade que as nações têm em cumprir acordos sociais e ambientais, Francisco demostrou sua real preocupação: 

"Estou pensando na situação perigosa da Amazônia e de suas populações indígenas. Isto nos lembra que a crise ambiental está ligada a uma crise social e que cuidar do meio ambiente requer uma abordagem abrangente para combater a pobreza e a exclusão" (Laudato si, 139). 

"Devemos nos perguntar seriamente se existe ?" entre nós ?" vontade política [...] para mitigar os efeitos negativos das mudanças climáticas, bem como para ajudar as populações mais pobres e vulneráveis que são as mais afetadas".

A violência, o abuso, a exploração contra as crianças, o aumento do trabalho infantil, e desnutrição, acelerados pela pandemia, estão entre as preocupações do papa. Sua outra inquietação são as mulheres. Destacou o papel delas, imprescindível, na construção da justiça. Muitas, porém, "são deixadas para trás: vítimas de escravidão, tráfico, violência, exploração e tratamento degradante". Feminicídio! O silêncio nos torna cumplice de tal perversidade.

Ao final do discurso, Francisco lembrou à ONU seu verdadeiro papel: "unir as nações, para aproximar, ser ponte entre os povos" uma oficina para a paz, "com unidade e determinação". O recado às lideranças foi direto: "Nosso dever é repensar o futuro de nossa casa comum e projeto comum... tarefa complexa, que exige honestidade e coerência no diálogo". A crise assinalou nossas fragilidades, "nos mostrou que não podemos viver uns sem os outros, ou pior, uns contra os outros... Você não sai de uma crise da mesma maneira: ou saímos melhor ou saímos pior".

Crises profundas exigem mudanças radicais. Se o mundo ouvir impostores como Bolsonaro, Trump ou Putin é certo que sairá pior. Há esperança?

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de: 'Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja' (Paulinas, 2001); 'Cristianismo e economia' (Paulinas, 2016)



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