Religião

02/10/2020 | domtotal.com

O caminho do amor é o da noite escura

João da Cruz propõe o caminho espiritual da entrega absoluta à Deus até a deificação

João da Cruz pintado por Francisco de Zurbarán
João da Cruz pintado por Francisco de Zurbarán Foto (Wikimedia/Muzeum Archidiecezjalne w Katowicach)

Augusto O.*

Diz-se dos santos como figuras exemplares no seguimento de Cristo. Embora a santidade seja atributo divino, Deus, conforme texto do Levítico (20,7), chama o ser humano a ser santo como ele o é. Portanto, é um projeto humanamente possível, ao qual diversas escolas espirituais vão se propor a delinear o caminho.

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Nesse sentido, é emblemática a mística ?" isto é, caminho de união espiritual ?" proposta por João da Cruz.  Esse frei espanhol que viveu no século 16 a trata desde a perspectiva do enamoramento e do que chama "matrimônio espiritual". De fato, só compreendemos o significado amplo da sexualidade séculos depois, a partir de Freud, mas esse santo já compreendia, desde a (i)lógica da espiritualidade, que a união com Deus se dá desde essa potência humana. A santidade, figurada pelas núpcias, consiste numa interpenetração divino-humana.

Aqui se fala de lógica e ilógica porque a espiritualidade tem e traz sentido, mas este não é acessível por uma razão instrumental, como o quiseram operar diversos intelectuais. Deus é melhor compreendido pelos místicos e pelos poetas. João da Cruz foi os dois. Assim, não se compreende seus escritos se não pela experiência da oração, porque se trata mais de um saborear do que de uma compreensão intelectual que não implica a vida e os afetos.

Em um de seus escritos, Ditos de luz e amor, João é categórico em algo que pode expressar bem o ponto de partida de toda sua espiritualidade. Ele diz: " O que Deus pretende é fazer-nos deuses por participação, sendo-o Ele por natureza, como o fogo que tudo converte em fogo". O santo entende que o chamado divino é o da participação humana na natureza divina, um processo de deificação, embora este, como criatura, jamais será como aquele. Deus é. O humano é em Deus. Por hora, enquanto não se dá a união total e definitiva, cada um vai sendo, está em devir, como se diz filosoficamente.

O desafio desse caminho é deixar-se inflamar por Deus, consumir-se nas divinas chamas do seu amor. Aliás, Jesus nos evangelhos relê o Levítico ao dizer "sede perfeitos como o Pai do céu é perfeito" (Mateus 5,48) e "sede misericordiosos como o Pai do céu é misericordioso" (Lucas 6,36). Perfeito vem de perfacere, já feito, pronto, concluído. O humano, imagem e semelhança de Deus, ainda está em processo. Vivemos ainda no sexto dia da criação, Deus ainda não descansou. Só no sétimo alcançaremos o ser (em Deus).

Entretanto, a perfeição não consiste num cumprimento de regras, ela se realiza no amor, que é a natureza divina. A vivência da misericórdia, do amor, consiste na perfeição evangélica, onde quem se deixa consumir por Deus também inflama o mundo. Desse modo, a mística de João da Cruz será exigente, não porque proponha a vivência das virtudes teologais depois de uma renúncia ao mal, como possa parecer a quem o lê, mas porque ela entende que o amor de Deus deve ser o absoluto da pessoa.

Compreendendo a limitação do criado, a espiritualidade do santo carmelitano coloca em Deus a iniciativa de unir-se ao humano, que o atrai. Ele purificará o amor da pessoa através de um caminho, simbolizado na subida de um monte, como no livro Subida ao monte Carmelo. Contudo, esse trajeto é paradoxal. Para subir, é preciso descer ao próprio íntimo; para encontrar a luz, há de se passar pela escuridão. A noite escura de João da Cruz é a pedagogia de Deus que purifica os sentidos humanos para um amor gratuito, onde a pessoa vai o encontrando sem sentir, transcendendo até mesmo o saber. Como escreve o santo, "Entrei-me a onde não soube e quedei-me não sabendo, toda ciência transcendendo".

A pessoa em noite escura, cuja descrição parece com a de uma depressão ou angústia profunda, não sente gosto por nada, nem pelas coisas de Deus. Isso porque elas são meios, e Deus mesmo é o fim; um fim que está no começo e no meio. Ou seja, na escuridão, quem o busca só sente sua ausência, apesar de estar permeado por ele.

Essa busca só termina quando o divino não é buscado, quando cessa toda atividade e a pessoa se deixa encontrar por ele. A mística de João da Cruz é o caminho de entrega, de deixar as próprias resistências e abandonar-se no amor. Por isso o santo usa as imagens da amada (alma) e do amado (Deus), porque a figura do masculino belicista dos ideais de cavalaria do seu tempo não lhe servem.

As imagens do feminino com sua paradoxal fragilidade e fortaleza são a melhor descrição duma espiritualidade que não parte de um ascetismo voluntário ou do zelo religioso que persegue hereges. Antes, consiste na implicação de contrários de quem perdido se encontra; na fraqueza, fortalece-se.  "Esquecida, quedei-me, o rosto reclinado sobre o Amado; tudo cessou. Deixei-me, largando meu cuidado, por entre as açucenas olvidado" ?" termina a noite escura.

*Augusto O. é um homem de letras e números



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