Religião

02/10/2020 | domtotal.com

O Senhor dentro de mim, eu toda mergulhada nele

Tereza sente na carne a experiência mística que faz e é nela que a santa experimenta a vinda do Senhor

O 'Êxtase de Santa Teresa' ou a 'Transverberação de Santa Teresa' é uma escultura de Giancarlo Bernini
O 'Êxtase de Santa Teresa' ou a 'Transverberação de Santa Teresa' é uma escultura de Giancarlo Bernini (Wikimedia/Alvesgaspar)

Gustavo Ribeiro*

"Não era uma espécie de visão: creio ser o que chamam de teologia mística. A alma fica suspensa de tal sorte que parece estar fora de si. A vontade ama, a memória, a meu ver, está quase perdida, o intelecto não raciocina, contudo, não se perde; entretanto, torno a dizer, não age. Está como que admirado do muito que alcança". (Vida, 10, 1b)

Já se tornou um clichê dizer que Teresa de Jesus ou de Ávila, como preferirem, é uma das grandes mulheres da Igreja. E digo isto sem nenhum desprezo ou demérito, mas para reforçar que Teresa é uma força, mas muitas outras mulheres o foram também naquele período, porém não apareceram como a reformadora do Carmelo por conta da cultura patriarcal que molda a cristandade daquele tempo.

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Entre as mulheres que se destacaram pela mística está Teresa, e de sua figura e legado destaca-se a reforma do Carmelo. E por reforma se entende não somente a dimensão burocrática da organização e fundação de novos claustros, mas a abertura para a experiência de uma vida espiritual transformada, capaz de conduzir suas monjas pelas sendas de um castelo, a explorar suas moradas interiores, num trabalho espiritual incessante pessoal, não solitário.

Existe ao redor de Teresa uma desconfiança acentuada pela cultura patriarcal, que a vê como desajustada, num processo de patologização de sua experiência espiritual concreta e até, usando de um anacronismo, progressista.

Tereza é uma dessas figuras que escapou pelas fissuras que existem na cultura patriarcal... o que demonstra a sua força, sua coragem, sua vontade de transformar aquele cenário, mas é também algo que precisa estar sempre em consideração ao falarmos dessas mulheres que em determinadas épocas se sobressaíram, porque elas representam a reação contracultural a essa estrutura patriarcal que cerceia a participação feminina e que impede a construção de uma mística feminina própria, porque não permite que as mulheres se expressem e narrem suas vivências espirituais.        

O que talvez espante em Teresa é que a sua mística é bastante encarnada e o corpo é o grande protagonista dessa experiência. Tereza sente na carne a experiência mística que faz e é nela que a santa experimenta a vinda do Senhor. Teresa apresenta inclusive a experiência mística como algo muito íntimo: "quando interiormente me figurava estar junto de Cristo, ou até mesmo lendo, ocorria-me de repente tal sentimento da presença de Deus, que de algum podia duvidar que o Senhor estivesse dentro de mim, e eu, toda mergulhada nele" (Vida, 10,1).

O modo como a doutora narra suas experiências surpreende, porque naquele período histórico uma mulher não podia expressar-se livremente, muito menos atribuir termos com conotações quase sexuais. Teresa rompe muitas barreiras ao mesmo tempo, porque a mística e a expressão dela passa pelo corpo, porque ele é o lugar por excelência da experiência mística, e não existe experiência desencarnada.

Segundo Julia Kristeva, "os êxtases de Teresa são, desde o início e sem distinção, palavras, imagens e sensações físicas, espírito e carne, ou melhor, carne e espírito: 'o corpo não fica sem participar do jogo, e até muito'".

E é assim que Bernini retrata Teresa em sua obra Transverberação de Santa Teresa, uma mulher flechada por uma seta de fogo em posição de aparente gozo físico. Porque em Teresa a experiência de encontro com Deus é romântica, no sentido de entrega total ao Amado em suas delícias.

O Deus distante, "totalmente outro", na espiritualidade teresiana é alteridade experimentável, se deixa encontrar e experimentar, inclusive de maneira física, ou melhor, carnal, orgástica. Fruto das experiências ética, estética e extática que Teresa faz de Deus.

Algo que impressiona na reformadora do Carmelo é que suas experiências pessoais são profundamente comunitárias e, talvez, universais. Porque ela não faz caso delas, em aprisioná-las em uma narrativa autorreferente, ensimesmada, mas as transforma em relatos pedagógicos de experiências alcançáveis ao seu ver. Ela relata às suas irmãs, vocativo que ela repete com frequência em suas obras o vivido, o fruto da experiência, porque quer que elas também trilhem os mesmos caminhos e experimentem, que alcancem favorável graça do Amado, a ponto de experimentá-lo em suas entranhas, como ela o faz.  

A experiência mística de Teresa surge da oração. E é sobre a oração que a reformadora do Carmelo refere-se em suas obras, mesmo em Fundações, ao tratar da fundação dos mosteiros, é sobre a oração que a doutora da Igreja busca fundamentar sua necessidade de tais empreendimentos. E a oração para Teresa é Deus mostrando a alma sua amizade, sua total filantropia.

Teresa viveu uma espiritualidade totalmente atrelada à humanidade de Jesus, porque caminhar por esta senda permitia a ela a compreensão de estar no mundo de forma concreta e a não buscar fugir dele nem a ele se assimilar. E ela só pode olhar para um único modelo, Cristo: "não somos anjos, temos corpo. Queremos passar por anjos enquanto estamos na terra, e tão engolfados nela como eu estava, é desatino. Em geral, nossos pensamentos carecem de apoio. Às vezes, a alma sai de si; outras anda tão cheia de Deus a ponto de dispensar alguma coisa criada para se recolher. Isto, porém, não é comum. Quando não se pode ter tranquilidade, no meio dos negócios, perseguições, sofrimentos e em tempo de securas, Cristo é o melhor amigo. Olhando-o feito homem, vemos suas fraquezas e tormentos, e permanecemos em sua companhia. Adquirindo o hábito, é muito fácil encontrá-lo junto a nós" (Vida, 22,10).

Não podemos afirmar que Teresa possuía uma devoção nominal ao Coração de Jesus, mesmo que esta devoção tenha surgido no século 13 no Mosteiro Cisterciense de Helfta, com Santa Gertrudes, porém só ganhou notoriedade litúrgica com São João Eudes, que escreveu a primeira liturgia ao Sagrado Coração de Jesus, no século 17. O fato é que mesmo não nomeando suas experiências a partir dessa devoção, a reformadora do Carmelo viveu em sua espiritualidade. As idas e vindas de Teresa nos mosteiros e os longos anos de deserto espiritual, são aplacadas pela experiência do aconchego no Senhor, atendendo ao que o Mestre anunciava: "venham a mim todos vocês que estão cansados e carregados de fardos... e encontrem descanso" (cf. Mt 11,28-30).

A misericórdia de Deus se manifesta na vida de Teresa de forma a ajudá-la a enfrentar os inúmeros desafios que surgiram em sua busca incessante em trazer a vida monástica à verdadeira experiência do Amado.

Teresa hoje, mais que nunca, deve brilhar para nós como testemunho da gratuita misericórdia de Deus e da busca espiritual que devemos realizar ao deixando-nos acolher pelo Coração de Jesus e nele encontrar morada.

No mundo da dispersão, a figura de uma monja talvez nos ajude a encontrar e experimentar o essencial da vivência da fé, o amor de Deus.

*Gustavo Ribeiro é natural de São Vicente de Minas/MG. Atualmente residindo em São José/SC, onde trabalha como Analista de Pastoral Sênior em um colégio católico. Graduado em Teologia. Graduando em Pedagogia. E pós-graduando em Gestão Escolar. Poeta nas horas vagas, que são poucas.



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