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02/10/2020 | domtotal.com

Após se abrir para mediação, Armênia acusa Arzeibajão de ter bombardeado Karabakh

Turquia é acusada de enviar "'jihadistas' à Stepanakert em apoio ao Azerbaijão

Parede de casa cravejada de tiros em Martuni, no território de Nagorny Karabakh
Parede de casa cravejada de tiros em Martuni, no território de Nagorny Karabakh (AFP)

A Armênia acusou nesta sexta-feira (2) o Azerbaijão de ter bombardeado a principal cidade de Nagorno Karabakh, Stepanakert, no sexto dia de violentos combates nesta região separatista. As autoridades de Yerevan disseram estar dispostas a trabalhar para um cessar-fogo com os países mediadores, mas o Azerbaijão continua reiterando sua determinação.

Ao mesmo tempo, a Turquia está recebendo críticas internacionais da Rússia e França, segundo as quais enviou "jihadistas" em apoio ao Azerbaijão, o que pode significar uma virada perigosa neste conflito.

De acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH), pelo menos 28 combatentes pró-turcos, dos 850 enviados para ajudar as tropas do Azerbaijão, morreram desde o início das hostilidades.

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Em um comunicado, a diplomacia armênia iniciou uma abertura tímida, ao afirmar que está pronta para "discutir com os países que copresidem o grupo de Minsk da OSCE para restabelecer um cessar-fogo", em referência aos mediadores (EUA, França e Rússia) do conflito.

Após este primeiro gesto no sexto dia de hostilidades, Baku ressaltou que o conflito tem apenas um resultado: a retirada armênia de Nagorno Karabakh, uma região do Azerbaijão habitada principalmente por armênios e que se separou com a queda da URSS.

"Se a Armênia quer ver o fim dessa escalada (...) deve acabar com a ocupação", declarou à imprensa Hikmet Hajiyev, assessor da presidência do Azerbaijão.

Esses anúncios acontecem no dia seguinte a uma declaração conjunta dos presidentes Emmanuel Macron, Vladimir Putin e Donald Trump pedindo o fim das hostilidades.

Os confrontos, porém, continuam. A principal cidade separatista, Stepanakert, foi atingida por bombardeios do Azerbaijão, causando "muitos feridos entre a população civil" e danos materiais, de acordo com o Ministério da Defesa da Armênia.

Sirenes de ambulâncias soaram por volta das 10h GMT (7h no horário de Brasília) na cidade, onde várias explosões foram ouvidas nas últimas horas, segundo um correspondente da AFP.

Em ambos os lados da frente, os moradores estão determinados. "Não há medo, mas orgulho (...) Na guerra como na guerra. As negociações são uma besteira, é preciso uma capitulação", diz Arkadi, de 66 anos, residente de Stepanakert, enquanto uma explosão é ouvida.

No distrito de Fizouli, no lado do Azerbaijão, as crianças foram evacuadas de localidades próximas à frente, de acordo com um fotógrafo da reportagem. Muitos homens se ofereceram para lutar.

"Não temos medo, não temos muitos feridos", disse Anvar Aliev, 55 anos, um taxista azerbaijano, pedindo a "retomada de nossas terras".

O exército armênio acusou nesta sexta Baku de usar "munições cluster", que são proibidas, enquanto o Azerbaijão alegou que jornalistas foram alvos de fogo de artilharia armênia em um vilarejo azerbaijano.

"Linha vermelha"

Macron, que tem relações difíceis com Recep Tayyip Erdogan, acusou na quinta-feira (1) que 300 combatentes "jihadistas" deixaram a Síria para se juntar ao Azerbaijão via Turquia. Uma "linha vermelha" para o francês.

"Isso é desinformação", respondeu o assessor da presidência do Azerbaijão, Hajiyev.

A Rússia havia relatado informações semelhantes, sem acusar diretamente Ancara, com quem tem uma relação complicada, mas pragmática.

Nesta sexta-feira, a porta-voz da diplomacia armênia voltou a afirmar que "o exército turco está lutando ao lado do Azerbaijão". Alegações rejeitadas pelos interessados.

Uma intervenção direta da Turquia constituiria uma internacionalização deste conflito em uma região, o Sul do Cáucaso, onde várias potências estão em competição: Rússia, Turquia, Irã, países ocidentais.

Nagorny Karabakh, habitado principalmente por armênios, separou-se do Azerbaijão, levando a uma guerra no início da década de 1990 que deixou 30 mil mortos. A frente estava quase congelada desde então, apesar de alguns confrontos regulares, principalmente em 2016.

Ambos os campos ignoraram em grande parte os múltiplos apelos da comunidade internacional desde domingo para silenciar as armas.

De acordo com Moscou, Rússia e Turquia estão prontas para "uma coordenação estreita para estabilizar a situação" em Nagorno Karabakh. Ancara não se manifestou, entretanto.

A Rússia mantém relações cordiais com os beligerantes, duas ex-repúblicas soviéticas, mas é mais próxima da Armênia, que pertence a uma aliança militar liderada por Moscou. Nenhum lado parece ter conquistado vantagem sobre o outro.

Nesta sexta-feira, a Armênia garantiu que o exército azerbaijano "não conseguiu romper as defesas armênias", enquanto o Azerbaijão disse que havia tomado posições no norte e forçado os armênios a recuarem no sul.

De acordo com balanços parciais comunicados desde domingo, 190 pessoas morreram: 158 soldados separatistas, 13 civis armênios e 19 civis azerbaijanos. Baku não comunica suas perdas militares.

Mas o número de mortos pode ser muito maior: a Armênia afirma que 1.280 soldados azerbaijanos morreram, enquanto Baku afirma ter matado 2,3 mil soldados adversários. Dois jornalistas franceses feridos na quinta-feira em Karabakh estão sendo retirados da região, segundo a diplomacia francesa.

Armamento soviético

As potências regionais acompanham com ansiedade o confronto entre Armênia e Azerbaijão em Nagorno Karabakh, que ninguém quer ver degenerar em uma guerra que dificilmente teria um vencedor claro.

Captura de imagem de vídeo de combates postado no site do Ministério da Defesa do Azerbaijão em 30 de setembro de 2020 (Handout/AFP)Captura de imagem de vídeo de combates postado no site do Ministério da Defesa do Azerbaijão em 30 de setembro de 2020 (Handout/AFP)

Os beligerantes têm um ponto em comum, como enfatiza o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS): ambos herdaram seu arsenal, doutrina e conhecimentos da era soviética.

De acordo com os especialistas consultados pela reportagem, a Armênia é superior no âmbito aéreo, e o Azerbaijão leva vantagem no solo.

Segundo o diretor da Fundação Mediterrânea para Estudos Estratégicos (FMES), Pierre Razoux, a Armênia tem uma força de 50 mil homens e mulheres, com potencial de mobilização de 500 mil soldados, além de 20 mil soldados e 100 tanques em Nagorno Karabakh.

Somados a isso, estão 180 tanques e outros 200 veículos blindados, 35 caças e "mísseis balísticos que podem atingir as instalações de petróleo do Azerbaijão".E, sobretudo, a base militar russa em Gyumri (noroeste), com 3,3 mil soldados, 240 veículos blindados, além dos mísseis balísticos S300 e S400.

Do lado oposto, segundo o especialista, o Azerbaijão tem 90 mil homens, 20 mil paramilitares e 300 mil reservistas.

"O material terrestre é muito mais importante com cinco divisões, 600 tanques, 100 deles T90s modernizados, o melhor da panóplia militar russa", garante. Fora os mísseis terra-ar S300.

Ambos os países usam drones israelenses, ocidentais, ou turcos – no caso do Azerbaijão. Mas Nagorno Karabakh, localizado em uma área montanhosa dificilmente conquistável, está protegido por sua localização geográfica.

A importância da Rússia

No Cáucaso, o conflito entre essas duas ex-repúblicas soviéticas localizadas entre o Mar Cáspio e o Mar Negro dificilmente pode ser resolvido sem a intervenção de Moscou.

"A Rússia tentou durante anos mostrar neutralidade, entregando armas aos dois países e garantindo um equilíbrio de forças. Mas em breve terá que escolher", diz o especialista Alexander Golts, da revista russa "Ekhednevny".

"A situação é diplomática e estrategicamente incerta, com os Estados Unidos à margem, o que deixa um espaço livre a ser preenchido pela Rússia e pela Turquia", estima Matthew Bryza, ex-embaixador dos Estados Unidos no Azerbaijão.

De fato, a Turquia é, agora, a potência mais ativa. Especialistas dizem que o Azerbaijão não agiria sem a aprovação do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, que multiplica suas frentes estrangeiras, enquanto alimenta o eleitorado nacionalista.

Na Síria e na Líbia, ele enfrenta o presidente russo, Vladimir Putin, e, no Mediterrâneo oriental, desafia a União Europeia. Agora, uma nova frente se abre no Cáucaso.

A Turquia é até mesmo suspeita de enviar combatentes sírios para a região, o que gerou duras críticas do presidente francês, Emmanuel Macron.

O Irã, outro gigante da região, tem uma diáspora armênia significativa e mantém uma relação comercial próxima com Yerevan.

"Mas o Irã tem outros problemas, no atual contexto de sanções e embargo à venda de armas", esclarece Emmanuel Dreyfus, do Instituto de Pesquisas Estratégicas da Escola Militar Francesa (Irsem), o que exclui que a República Islâmica se torne um "ator decisivo" no conflito.

Improvável guerra aberta

Analistas conjecturam que o pior cenário possível  – guerra aberta, intervenção de potências regionais – pode ser evitado.

"O terreno montanhoso, o armamento letal e a proximidade das cidades tornam difícil para ambos os lados alcançar uma vitória militar clara", afirma Tom de Waal, especialista em Cáucaso do Carnegie Endowment Institute. "Isso causaria um banho de sangue", acrescenta.

Além disso, a chegada do inverno rigoroso não convida a aventuras militares caras.


AFP/Dom Total



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