Religião

04/10/2020 | domtotal.com

Fratelli tutti: nova encíclica do papa Francisco promove o encontro além dos conflitos

O fio condutor de toda a encíclica Fratelli tutti é a amizade social expressa no diálogo e numa cultura de encontro

Francisco provoca mais uma vez, especialmente os poderosos, ao reafirmar que a política não deve ser submetida à economia
Francisco provoca mais uma vez, especialmente os poderosos, ao reafirmar que a política não deve ser submetida à economia (Pietro Crocchioni/AFP)

José Antonio Rosas Amor*
Alline Luiza de Abreu Silva**

Nesse sábado, 03 de outubro, o papa Francisco assinou sua terceira encíclica: Fratelli tutti  ('Todos Irmãos') - na própria cidade de São Francisco de Assis, e daquela cidadezinha na Itália, sua mensagem nos desafia fortemente a nós latino-americanos sobre as situações que estamos vivendo.

O papa provoca mais uma vez, especialmente os poderosos, porque a partir da fidelidade do Evangelho e da tradição mais clássica do cristianismo ele reafirma os limites do direito de propriedade, a ideia de que a política não deve ser submetida à economia, ao mesmo tempo em que consagra os direitos dos pobres, os direitos dos migrantes e mesmo aqueles chamados pelos politólogos, os direitos de terceira geração: os direitos dos povos. Afirma claramente que "a desigualdade não afeta apenas indivíduos, mas países inteiros, e nos obriga a pensar em termos de uma ética das relações internacionais... o direito fundamental dos povos à subsistência e ao progresso deve ser protegido" (FT 126).

Ao tratar de que a política não deve submeter-se à economia, menciona a profética encíclica social Laudato Si  ( FT 177), afirmando que a economia não deve submeter-se aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia.

E ele nos surpreende novamente, citando em um documento oficial uma figura importante da música popular brasileira contemporânea, o poeta Marcus Vinícius de Moraes, em seu Samba da Bênção: "A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida" (FT 215).

Apesar da diversidade de temas que aborda em seus 287 números, o fio condutor de todo o documento é a amizade social expressa no diálogo e numa cultura de encontro; e apesar de se dirigir a todos os homens e mulheres de boa vontade - não apenas aos crentes -, um dos principais destinatários desta encíclica são os líderes políticos, a quem "mais uma vez pede a reabilitação da política" (FT 180).

É aos políticos que ela faz um apelo esmagador para "abrir as portas diante de um mundo que se fecha", para transformar uma "cultura de confronto em uma cultura de encontro"; para "recuperar a paixão compartilhada pela comunidade"; para mover-se "dos outros para nós"; para "buscar juntos a verdade em diálogo, em conversas tranquilas ou mesmo em discussões apaixonadas"; para "se preocupar com a fragilidade dos povos e dos indivíduos".

Apesar do fato de que a encíclica - como aponta o papa Francisco - começou a ser elaborada vários meses antes da pandemia, suas palavras têm um impressionante senso de atualidade: "Deve-se reconhecer que os fanatismos que levam à destruição de outros também são liderados por pessoas religiosas, sem excluir os cristãos, que podem fazer parte das redes de violência verbal através da Internet e dos vários fóruns ou espaços de intercâmbio digital. Mesmo nos círculos católicos, os limites podem ser perdidos, a difamação e a calúnia são frequentemente naturalizadas, e toda ética e respeito pela reputação dos outros parecem ser deixados de fora" (FT 46). Parece que Francisco descreve as infelizes campanhas presidenciais nos Estados Unidos ou o clima de polarização política e instrumentalização política da fé promovida por alguns presidentes latino-americanos.

Merece uma reflexão posterior, de todas as seções que ele dedica a aprofundar e reivindicar a ideia do povo e de lideranças e movimentos autenticamente populares. Ele os descreve como "poetas sociais" que superam a idéia de políticas para os pobres, para políticas com os pobres, dos pobres e desde os pobres, respeitando assim o protagonismo que eles deveriam ter na própria definição dos projetos da nação.

A própria elaboração deste documento é um exemplo da cultura de encontro e diálogo para a qual ele convida, já que começa explicitamente por assinalar que foi no encontro com o grande imã Al-Tayyeb, a máxima autoridade do mundo muçulmano, que o levou a escrever esta encíclica; ao mesmo tempo, conclui enfatizando que o testemunho de três líderes não católicos como Desmond Tutu, Luther King e Gandhi, junto com Charles de Foucauld e Francisco de Assis, foram suas fontes de motivação para publicá-lo.

É um texto que mostra, em sua própria elaboração, um caminho dialógico baseado na escuta das realidades locais, enriquecido pela contribuição das igrejas locais, já que cita em doze ocasiões conferências episcopais locais de todos os continentes: do Congo ou África do Sul à Colômbia ou Estados Unidos, passando pela Coréia, Índia, França, Portugal ou Croácia; ao mesmo tempo continua o pensamento de seus predecessores (é notável que os papas mais citados são Bento XVI em 22 ocasiões e João Paulo II, em 15 vezes).

Este texto dará muito que falar nos próximos dias, devido à relevância, necessidade e, ao mesmo tempo, natureza revolucionária de suas abordagens. Convidamos o leitor a ler este papa latino-americano, que conhece muito bem nossa cultura e por isso escreve pensando desde as periferias, desde o coração do povo, desde a realidade dos marginalizados e daqueles que muitas vezes foram descartados na cena política mundial. Convidamos você a se deixar desafiar e provocar pelas propostas deste líder latino-americano.


Texto gentilmente cedido pelos autores ao DomTotal

*Diretor da Academia Latino-Americana de Líderes Católicos ** Mestre em Concretização dos Direitos Difusos, Coletivos e Sociais, pela UNISAL-SP e Professora Universitária

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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