Religião

04/10/2020 | domtotal.com

'Fratelli Tutti': um tapa na cara do 'cristianismo de mercado'

Tudo o que está na encíclica é plausível e louvável. O que incomoda é o que não está nela

Francisco, no momento da assinatura da Fratelli Tutti em Assis, na Itália, no dia 3 de outubro
Francisco, no momento da assinatura da Fratelli Tutti em Assis, na Itália, no dia 3 de outubro (Vatican Media)

Julio Eduardo dos Santos Ribeiro Reis Simões*

O título desta encíclica me trouxe, quando o li, bem como sua introdução, a ideia de que leria eu palavras melífluas e mansas, com o coração pacífico e cheio de amor. Ledo engano, e graças a Deus: não existe nada mais chato que o otimismo tacanho de quem acredita que Deus nos ajudará a resolvermos os problemas que nós mesmos insistimos em criar, recriar e viver. Fratelli Tutti é uma delícia porque é subversiva, é incisiva, é corajosa, na medida que as encíclicas sociais conseguem ser. Foi assim com a Rerum Novarum, que embora tímida, introduziu o tema do valor atrelado e intrínseco ao e do trabalho, algo corajoso na saída do século 19 e no fervilhar que culminou na revolução russa. Foi assim com a Quadragesimo Anno, que embora criticadíssima por considerar a propriedade como inerente à liberdade humana, estabeleceu a noção de função social da propriedade como modulador da possibilidade de propriedade, o que questiona a valência dos conceitos de propriedade e posse. E assim por diante. Cada encíclica social que a Igreja de Roma produziu ao longo dos últimos quase 130 anos de tal expertise foi relativamente tímida e corajosa ao mesmo tempo. Esta não é diferente. É tímida em termos de pautas palpáveis, mas extremamente corajosa na grande pauta que traz, que exporei no próximo parágrafo. Por hora, quero destacar a própria intenção de Francisco sobre a encíclica produzida. Para ele, sua encíclica serviria "como humilde contribuição para a reflexão, a fim de que, perante as várias formas atuais de eliminar ou ignorar os outros, sejamos capazes de reagir com um novo sonho de fraternidade e amizade social que não se limite a palavras."  (FT 6).

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Ao longo do capítulo 1 da encíclica, que Francisco nomeia como encíclica social também em 6, o bispo de Roma comenta sobre todos os aspectos possíveis para se comentar sem causar grave desconforto mesmo nos setores mais retrógrados da Igreja Católica Apostólica Romana. De tráfico sexual de mulheres e crianças às condições de subemprego, passando pelo ressurgimento de ultra nacionalismos, o capítulo 1 é uma descrição de feridas da sociedade cristã. Mas não de todas elas. Voltarei a este incômodo mais tarde.

O capítulo 2 é uma hábil catequese pragmática sobre a conhecida parábola do Bom Samaritano, onde Francisco insiste e demonstra que da mesma maneira que a sociedade palestinense do século 1º,  a nossa está constituída para ignorar as dores, não olhar as feridas e passar ao largo.

Os capítulos 3 a 7, eu diria, são cândidos, quase inocentes. Talvez acreditando que no tipo de sociedade constituída segundo o que ele mesmo expôs em 1 e 2 alguém ainda tome a palavra de um papa como realmente importante e até mesmo bem acertada (quem sabe infalível!), Francisco propõe uma série de atitudes, principalmente macroatitudes, do tipo que só podem ser levadas a cabo por governantes, grandes corporações, chefes militares, chefes de escritórios internacionais etc., que evidentemente não estão e não estarão nem aí pra encíclica. Nem esta, nem as que vieram antes, nem as que vierem depois. Mas são ideias interessantes, como o uso social da propriedade, a discussão do valor inerente ao trabalho, o fazer ou não guerra, a possibilidade de pena de morte e coisas assim, bem macro. É claro que Francisco tem uma linguagem pastoral e sempre coloca exemplos palpáveis de promoção de valores dentro do universo palpável dos reais leitores, isto é, promove o bem estar familiar, promove o bem estar social da classe trabalhadora, aponta pregações cheias de esperança. Estes são os pontos cândidos! Mas é perceptível que as atitudes pessoais que realmente causariam a mudança do estado de coisas descrito em 1 teriam de ser tomadas pelas pessoas que provavelmente, se lerem, não darão a mínima pras palavras de Francisco, que eu chamaria de poderosos. Há que se pensar se esta construção argumentativa contribui mais para, na verdade, a manutenção do estado de coisas, pois fica claro que estamos nas mãos de outrem ou se esta percepção não é somente exagero meu. Dou meu voto de confiança e fé sobre estes capítulos e sobre o autor, que afinal é um camarada super gente boa, e sentencio: para mim a palavra que cabe é "candura".

De volta ao terreno que lhe é mais próprio, o capítulo 7 é dedicado ao delineamento do papel das religiões na construção dos ideais do capítulo 2, em vista da superação do estado de coisas descrito no capítulo 1, e como motivação religiosa das ações a serem empreendidas pelos que delas são capazes, descritas nos capítulos 3 a 7. O capítulo 8 é sobre "As religiões ao serviço da fraternidade no mundo", e este é seu título.  Embora o titulo traga o plural "religiões", a leitura do capítulo deixa óbvio que se tratam de religiões teístas, de cunho monoteísta, e especialmente as abraâmicas. Outras religiões não são contempladas no texto, inclusive manifestações religiosas que o antigo cardeal de Buenos Aires deve conhecer bem, como religiões indígenas, negras, etc.  Este é, de novo, meu ponto de incômodo.

Vou dedicar estes parágrafos que aqui se abrem para que o leitor e a leitora compreendam bem o que me incomoda: O que me incomoda não é o que está na encíclica. Tudo o que está na encíclica me parece plausível, louvável, fundado na tradição católica de doutrina social, com bom embasamento bíblico e teológico, com uma catequese espetacular sobre o Novo Testamento e o conteúdo do Reino de Deus. É um conteúdo, em uma palavra, excelente! Fosse este um trabalho acadêmico sobre a Doutrina Social da Igreja Romana em uma perspectiva dialógica, era nota 10! E talvez seja apenas isto...

É notável que esta encíclica siga demarcando o território do papado como um território conservador e não progressista. Os invisíveis da sociedade atual ?" negros, imigrantes, gays, lésbicas, travestis, transexuais, trisais, o trabalhador de grandes empresas, mães solteiras, indígenas, animistas, enfim, os pequenos... não aparecem na encíclica como AGENTES DE MUDANÇA, mas como INJUSTIÇADOS. Isto  quando aparecem. Pois alguns destes grupos, que estão sempre na pauta das ações de promoção de igualdade de direitos fora da noção romana de sociedade ideal, bem expressa pelos capítulos cândidos, isto é, no mundo real, simplesmente não são sequer citados nenhuma vez.

O mundo para o qual a Fratelli Tutti foi escrita parece-me não existir ou não ser o meu. Eu não acredito no sistema, lógico. Concordo com Francisco em que as mudanças neste sistema infelizmente só são possíveis de cima pra baixo. As bases têm pouquíssimo poder, enquanto subjugadas peças deste sistema, de o questionar. Mas o que Francisco não ousa propor, no que diz respeito aos grupos de "injustiçados", é que seja possível sair do sistema, construindo por exemplos redes locais de economia solidária, de permacultura urbana, de ensino gratuito, de produção de conteúdo de multimídia, de produção cultural e literária. Isto é notável quando penso no ambiente cultural de Buenos Aires, local de origem de Bergoglio, com tantas editoras cartoneras por exemplo. Estas são o tipo de editora que só publicam autores desconhecidos em material artesanal reciclado, recolocando o produtor de conteúdo cultural (o escritor), o artesão (encadernador manual) e o fornecedor de material (catador de papelão e papéis), além do técnico em informática com o computador obsoleto, em outro lugar que é, de certa forma, parte da lógica do sistema, mas que funciona como ruído no mesmo, pouco a pouco o questionando e ruindo por dentro-e-fora de si mesmo. Ou será que a Buenos Aires de Bergoglio era apenas aquela, famosa, "que tem mais livrarias (que só vendem produtos [livros] industrializados por grandes proprietários, lógico) que o Brasil inteiro..."?

O discurso de Bergoglio, o pai dos pobres feito Francisco, é direcionado a que camada da sociedade? Esta pergunta é importante porque ele se chama de Francisco e lança sua encíclica na data da festa litúrgica do seráfico Francisco de Assis, além de ser a mais proeminente liderança do cristianismo ocidental. Quem eram os ouvintes principais de Jesus e Francisco? Os muito ricos da Judéia ou de Assis? Ou os leprosos entre Assis e o Subiaco; além dos mendigos das aldeias da Galiléia?

Meu incômodo é que este texto, este discurso, não empodera as massas, mas as põem à espera e mercê de soluções vindas de cima. Cândidos (?) Capítulos 3 a 7...

Além disto, também me incomoda demais a invisibilidade de outras religiões que não as monoteístas, a exclusão (ou preferência pela invisibilização) das revoltas raciais gritantes e acesas durante o período de redação da mesma (será que o papa assiste notícia ou só assiste Canção Nova...?), o não tocar em questões de gênero, chaga social aberta e inflamada, a invisibilidade completa dos que, por assim dizer, estão mesmo sempre "de fora."

Isto me incomoda porque é lógico que a mesma transposição entre grandes e pequenos da sociedade de agora e as de Assis e Palestina que propus há pouco não é possível... mas será que estes excluídos, mal falados, mal queridos, ignorados, como eram as prostitutas, os cobradores de impostos, as crianças... não seriam estes os que seriam postos em evidência?

Faço aqui uma cândida mea culpa. É óbvio que Francisco não está, a princípio, interessado em manter o sistema, embora uma leitura mais crítica, como a que proponho, possa apontar nesta direção. Ele declara, já ao apresentar sua carta como encíclica social, no parágrafo 6, que deseja que as ideias se transbordem em algo mais que discurso. Ele quer ações. Mas como todo o material produzido pela Santa Sé, precisa ser meio tépido mesmo, senão acabam derrubando o bispo de Roma.

A tepidez, aparente cinismo, é inerente ao cargo. É dizer sem de fato mudar nada, e ao fazer isto provocar a ponta de cá, teólogos subalternos, esquecidos, desimportantes, a dizer "mas porque isso e isso e aquilo não aparece? E se fizermos assim e assado? Vossa Santidade poderia fazer o favor de dar voz aos subalternos? Os subalternos poderiam falar, por favor?". É parte da dialética. Nos desperta, em nós teólogos, nossa paixão pelo Reino, pelo discurso amplamente inclusivo e desafiador de Jesus... sou forçado, prazenteiramente, a concordar com este que é meu parágrafo preferido:

"36. Se não conseguirmos recuperar a paixão compartilhada por uma comunidade de pertença e solidariedade, à qual saibamos destinar tempo, esforço e bens, desabará ruinosamente a ilusão global que nos engana e deixará muitos à mercê da náusea e do vazio. Além disso, não se deveria ignorar, ingenuamente, que 'a obsessão por um estilo de vida consumista, sobretudo quando poucos têm possibilidades de o manter, só poderá provocar violência e destruição recíproca.' (Laudato si, 204) O princípio salve-se quem puder traduzir- se-á rapidamente no lema todos contra todos, e isso será pior que uma pandemia".

Obrigado, Companheiro Santidade. Recuperemos nossa paixão por poder divergir. Dê-me aqui sua mão, vamos juntos. Mas não se esqueça: sou anglicano e não vou lhe obedecer.

*Julio é candidato às sagradas ordens na Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, pai do Antonio, marido da Gisele, doutor em Ciência da Religião, bacharel e mestre em Teologia. É fã dos Beatles e odeia Você-Sabe-Quem.



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