Religião

04/10/2020 | domtotal.com

Nova encíclica procura responder às questões de um mundo em crise

Pensamento contido no documento traduz o caminho feito por Francisco até aqui e nos ajuda a compreender que linha ele pretende continuar seguindo

Francisco, no momento da assinatura da Fratelli Tutti em Assis, na Itália, no dia 3 de outubro
Francisco, no momento da assinatura da Fratelli Tutti em Assis, na Itália, no dia 3 de outubro (Vatican Media)

Carlos César Barbosa*

Há quem diga que não se pode julgar um livro ou uma publicação pela capa. Muitos dizem que é preciso ver o sumário, ler os primeiros capítulos para depois saber ou mesmo intuir se a leitura será cativante ou não. Os documentos pontifícios costumam ter capas simples e pouco atrativas. Porém, os seus títulos e o seus sumários podem revelar a sua grandeza e a sua intenção. Esse é o caso da nova encíclica do papa Francisco, que tem como título Fratelli Tutti, (todos irmãos), lançada neste domingo (4) sob os auspícios de são Francisco de Assis. Trata-se de uma carta aberta à toda a humanidade sobre a fraternidade e a amizade social. Embora escrita a partir das convicções cristãs e da autoridade do magistério do papa, a encíclica está escrita de tal modo que é capaz de provocar a reflexão e de suscitar o diálogo com "todas as pessoas de boa vontade".

Leia também:

Seguindo a tônica desse pontificado, esse texto de Francisco traz em sua essência o diálogo com o mundo em todas as suas frentes: religiosa, política, cultural, social e econômica. Os títulos de cada capítulo merecem, pois, ser mencionados para quem sabe, despertar em todos o interesse em ler, refletir e rezar essa encíclica.  Ela está dividida em oitos capítulos: 1) As sombras de um mundo fechado, 2) Um estranho no caminho, 3) Pensar e gestar um mundo aberto, 4) Um coração aberto ao mundo inteiro, 5) A melhor política, 6) Diálogo e amizade social, 7) Caminhos de reencontro e 8) As religiões ao serviço da fraternidade no mundo.  Mais uma vez, o papa se vê inspirado pelo legado de São Francisco de Assis ao escrever uma encíclica, tal como ocorreu na anterior, a Laudato si.

Esse novo documento chega num mundo em crise, marcado pela pandemia de Covid-19. As nossas diversas relações estão suspensas ou fragilizadas. As nossas seguranças também estão. Neste sentido, essa nova encíclica tem muito a nos dizer. O desejo do papa com este novo documento lançado hoje é acordar a Igreja e a humanidade para uma vivência da fraternidade, do diálogo e da solidariedade. Como consta logo ao início da encíclica, o papa, "não pretende resumir a doutrina sobre o amor fraterno, mas se deter em sua dimensão universal e em sua abertura a todos". Ademais, ele faz questão de salientar que  "entrega esta encíclica social como um humilde aporte à reflexão para que, diante das diversas e atuais formas de eliminar ou de ignorar os outros, sejamos capazes de reagir com um novo sonho de fraternidade e de amizade social que não fique restringida às palavras". (Fratelli Tuti, 6)

Dada a sua complexidade, a transversalidade dos temas tratados e o contexto em que ela nos é apresentada, essa encíclica marcará profundamente o pontificado de Francisco.  Assim como a Laudato si, que fora inspirada por um encontro ecumênico entre o papa e o patriarca ortodoxo Bartolomeu, a Fratelli Tutti surge à luz do encontro de Francisco com outro líder religioso, o grande imã Ahmad Al-Tayyib. No encontro ocorrido em Abu Dabi, no ano passado, o papa e o líder mulçumano firmaram um documento cujo tema era a fraternidade humana e o comprometimento em trabalhar juntos na construção de um mundo mais justo para todos.

É interessante considerar na leitura desse documento o papel que o papa Francisco exerce enquanto líder religioso e político. Não seria exagero considera-lo como a maior voz política da atualidade que goza de autoridade moral, capaz de dialogar e se relacionar com as mais diversas áreas. O pensamento contido nessa encíclica traduz bastante o caminho feito por Francisco até aqui e nos ajuda a compreender que linha ele pretende continuar seguindo em seu modo de governar a Igreja e de se relacionar com os líderes do mundo.

Essa é uma encíclica teológica, pastoral, mas, sobretudo política e Francisco não foge da política. Pelo contrário, ele reivindica o valor verdadeiro dela como um instrumento capaz de mudar o mundo e o bem comum. Não obstante a iniquidade presente na política, o papa ousa afirmar que "também na política há lugar para amar com ternura" (194).

Um outro aspecto importante a se considerar ao ler esta encíclica é que o papa enuncia a sua mensagem teológica, eclesial, espiritual, social e política a partir de uma perspectiva global.  Na medida em que a lemos notamos isso.   Mas essa sua visão global não é a partir de uma perspectiva centrista ou eurocêntrica. É a partir da Igreja em saída, das periferias físicas, humanas e existenciais. A concepção de mundo global para Francisco e o lugar da Igreja e do cristão neste mundo, se dá na perspectiva de um modelo de diálogo e de reconhecimento do outro como irmão, na mística do bom samaritano (cf. Lc 10,25-37).

Essa encíclica é um verdadeiro repositório de sabedoria e de temas pertinentes que muitas vezes esquecemos com facilidade. Ela vem num momento delicado de nossa história como sociedade e, por isso mesmo pode ser capaz de lançar luzes nestas sendas sombrias que temos caminhado como Igreja, como país, como humanidade.

Fica, portanto, a provocação para uma leitura atenta desta nova encíclica. Ler, conhecer, refletir e se perguntar o que essas palavras do papa nos comunicam em que nos provocam a mudar nossa mentalidade e nossa vida.

*Carlos César é jesuíta, graduado em Relações Internacionais pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). Estudou na Universidad de La República (Montevideo). Atualmente estuda na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. (FAJE); E-mail: carloscesarsj@outlook.com



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!