Engenharia Ensaios em Engenharia, Ciência e Sustentabilidade

06/10/2020 | domtotal.com

Sobre reparações coletivas

O único caminho sustentável é o da educação

Foto retrata ocupação da região alemã do Ruhr em 1923
Foto retrata ocupação da região alemã do Ruhr em 1923 (Arquivo Federal Alemão)

José Antonio de Sousa Neto*

Ao final da Primeira Grande Guerra(1914-1918) foi assinado o Tratado de Versalhes com pesadas exigências de reparações aos países vencidos, a Alemanha foi o principal. Independentemente das inúmeras razões que os aliados tivessem, não se pode excluir do contexto, também e infelizmente, sentimentos destrutivos de rancor, ódio, vingança, orgulho e tantos outros de mesma natureza. Não poderia mesmo ter dado certo. A natureza tem leis muito mais amplas, abrangentes e poderosas do que as efêmeras construções humanas. E se na natureza isso é muito palpável, para muitos também o é pela perspectiva do espírito. A chamada "Lei do Retorno", em diversas versões, é transversal às mais diversas religiões.

Como já comentei aqui em textos anteriores, os americanos não cometeram o mesmo erro de Versalhes. Os que haviam lançado o mundo na Segunda Grande Guerra (1939-1945), mesmo vencidos, receberam um enorme apoio econômico e institucional e não um tratado de políticas reparatórias. Até porque uma análise mais profunda da história mostra que o entrelaçamento de ações e reações entre as partes envolvidas é marcada por uma grande quantidade de equívocos recíprocos acumulados ao longo de longa caminhada histórica. 

Talvez também porque a resposta, que não é nova, está claramente explicitada em quase todas as religiões, inclusive as maiores e de caráter monoteísta. Quem lê, mas principalmente entende, os ensinamentos de Jesus, pode ver de forma cristalina que o único caminho de ruptura ao ciclo interminável de ódio e injustiça é o perdão. 

O leitor poderia questionar uma interessante passagem do Alcorão, cujo conteúdo se refere ao Velho Testamento e onde o Anjo Gabriel volta ao princípio do "olho por olho, dente por dente" ao ditar a Maomé a Palavra de Deus. É o qisas, termo árabe que significa "retribuição justa" na lei islâmica (shariah). Mas nesta mesma passagem, muitos se esquecem, Deus também recomenda que, mesmo nestas circunstâncias, se formos capazes de perdoar, melhor para nós. Jesus já havia ensinado/explicado isso seis séculos antes.

Outro ponto importante está na Sura 53:38-39  "nenhum pecador arcará com culpa alheia […] o homem não obtém senão o fruto do seu proceder". Em outras palavras, só o autor é criminalmente responsável e a "tribo" não pode pagar o preço por seu crime imputando-o a alguém ou outros que não sejam os assassinos.

As tragédias humanas geradas por preconceitos e discriminações nos fazem refletir. Preconceitos são formas explícitas de ignorância profunda que mantem cego o espírito. E a falta da luz inexoravelmente abre espaço para o mal, e o mal é sempre autofágico ao consumir, além do seu entorno, também a si mesmo. Mas até o ódio, a vingança e demandas infindáveis por reparações coletivas cansam, mesmo que o aprendizado demore séculos ou milênios.

Aqui vale lembrar do legado extraordinário de Nelson Mandela. Ao ser liberto ele se dedicou de corpo e alma à reconciliação e não à reparação. Ele entendia que a reconciliação era o melhor, talvez o único caminho duradouro e sustentável para a reparação. Ele escolheu evitar o mal, o ódio e o poder destrutivo da retribuição mal cobrada e mal compreendida por aqueles que foram vítimas das perversidades que caminham de mãos dadas com o mal. Ele entendeu que não retribuir não significa de forma nenhuma esquecer. Ele entendeu que era preciso educar para que todos pudessem sempre lembrar. Ele entendeu que é difícil as pessoas amarem o que não compreendem e que para que compreendam a educação é a chave. Uma chave que deve abrir as portas do coração a partir do primeiro momento que ele começa a bater. 

A verdadeira educação esclarece e ilumina a verdade da alma e liberta oprimidos e principalmente os opressores que são, no espírito, os verdadeiros prisioneiros de eternidades.  As soluções de leis, atitudes e políticas afirmativas, por mais importantes e adequadas que sejam em situações específicas, se não acompanhadas de sabedoria, podem perpetuar e agravar tragédias.

Também a tragédia do Holocausto nos reafirma onde buscar sabedoria. Os esforços incansáveis e incessantes são para que ele não seja jamais esquecido. E o mal quer esquecê-lo. E não esquecer não tem nada a ver com a perpetuação do rancor, mas sim com a epifania do aprender profundo que liberta a alma.

Pessoalmente acredito que políticas afirmativas podem ser muito importantes. Algumas coisas não podem esperar. Delimitá-las é, no entanto, extremamente difícil. Reparações coletivas podem retroagir a passados e entrelaçamentos que parecem não ter fim e cujos começos vão além das relações de causa efeito. Não existe o dilema do ovo e da galinha. Eles evoluíram concomitantemente ao longo de eras. É preciso humildade. 

É preciso distinguir ações afirmativas de ações "impositivas". Estas últimas são frequentemente ideologizadas e, portanto, caracterizadas pela arrogância e vaidade da ignorância. Ou até mesmo pautadas pela hipocrisia. 

Somente com mais anos de vida consegui entender algo que, para mim, não fazia nenhum sentido: a expressão popular de que de "gente de boa vontade" o inferno está cheio. Talvez porque me faltava colocar as aspas.

Nas últimas semanas, no contexto da responsabilidade social corporativa (programa de estágio restrito há apenas uma etnia), polêmicas surgiram relacionadas a reparações coletivas. Para os que me perguntaram sobre meu posicionamento sobre a complexa e difícil situação respondi com uma pergunta: há realmente sabedoria no que foi feito? Não é fácil responder. 

No curto prazo temos o benefício de colocar em foco um tema de grande relevância humana e social. No longo prazo a convicção de que a educação é o caminho a ser perseguido com determinação e a esperança de que no fim, ações como estas acabem deixando um legado, mesmo que simbólico, de inclusão e não de fraturas ainda maiores.

*Professor da EMGE (Escola de Engenharia e Computação)



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!