Religião

09/10/2020 | domtotal.com

Um encontro de naturezas

O conceito de comunidade, um dos elementos fundantes da nossa sociedade, se dá em um espaço, em um ambiente que não pode ser desassociado da Natureza

A natureza divina, da qual é imagem e semelhança, está presente no ser humano e em toda a criação
A natureza divina, da qual é imagem e semelhança, está presente no ser humano e em toda a criação Foto (The New York Public Library / Unsplash)

Daniel Couto*

"Fomos, durante muito tempo, embalados com a história de que somos a humanidade. Enquanto isso [...], fomos alienados desse organismo de que somos parte, a Terra, e passamos a pensar que ela é uma coisa e nós, outra: a Terra e a humanidade". (KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo, p. 16)

Um dos problemas mais discutidos de toda a história da filosofia, perpassando sua interlocução com a teologia, a religiosidade, a antropologia e outras áreas de conhecimento, é a "questão da natureza". Desde os primeiros pensadores da antiguidade, aqueles que convencionalmente chamamos de "pré-socráticos", essa reflexão sobre a physis (natureza) tem um lugar de destaque. Segundo eles, todo o cosmo é organizado por princípios, presentes nas coisas e componente fundamental do universo.

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Apesar de variarem quanto ao elemento universal (arché), a maioria deles sugeria que, a partir desse eixo, tudo mais era organizado. A junção do princípio com as forças de atração e repulsa (que também variavam de acordo com o projeto filosófico de cada pensador), indicava a multiplicidade de coisas e a sua "natureza". Aqui, o movimento da "natureza" entendida como "todo" e a "natureza" particular de cada ente, começa a se delinear, na medida em que são naturezas diferentes, pois os seres particulares são múltiplos, mas uma única natureza, uma vez que há um princípio universal.

Essa herança filosófica, naturalista e preocupada com a reflexão acerca da organização do universo, encontra um terreno fecundo no período Clássico, nas discussões de Platão e Aristóteles, que, ao seu modo, mantêm a questão e a desloca para a própria constituição dos seres humanos. 

Se, grosso modo, podemos encontrar na filosofia platônica a natureza dicotômica (aparências e ideias) de um cosmos regido pelas ideias perfeitas, das quais o ser humano recebe a sua própria natureza, mas que também possui o princípio do bem, da beleza e da justiça, por exemplo, com Aristóteles há uma investigação da physis como princípio universal (identificado como o movimento), mas também da bios (vida) e do antropos (ser humano). 

Ainda pertencentes ao mesmo princípio, a natureza pensada como um "todo" e a natureza dos "seres humanos" começa a se distanciar naquilo que chamamos de "antropocentrismo". Com o ser humano no centro das questões e com isso, a política, a ética, a vida pública e seus encadeamentos, os outros entes naturais passam a ser entendidos "em relação ao ser humano".

Uma vertente investigativa, que tomou como referência uma parte da filosofia aristotélica, desenvolveu uma ciência natural que passou a se tornar cada vez mais independente das questões antropológicas, se distanciando da organicidade pensada por Aristóteles e, em alguma medida, contrapondo o ser humano e a Natureza. O que, a princípio (e pelo princípio) estava unido sob o mesmo aspecto, passou a ser tratado de maneira separada, chegando ao final de Antiguidade, e adentrando a Idade Média, com uma concepção de uma Natureza exterior e ambiental, e uma "natureza" humana. Se tal aproximação se perdeu, agora o conceito de natureza buscava justificar uma "constituição originária".

Dessa maneira, com o encontro das tradições ocidentais (greco-romana) e orientais (em específico da visão judaico-cristã), a Idade Média europeia inseriu a "natureza divina" dentro do problema, enxergando no tríplice pertencimento do cosmo (Natureza, divindade, humanidade) uma dimensão hierárquica, como se Deus, criador, tivesse disposto a Natureza, criação, aos cuidados do ser humano, um "cuidador universal". 

Movidos pela narrativa bíblica e com uma nova perspectiva de exploração, o ser humano começou a entender a "irmã terra" como uma fonte de recursos, deixando de lado toda uma tradição espiritual encontrada em diversos povos espalhados pelo globo, de harmonia e convivência. O planeta, que também é criação divina, estava à disposição dos seres humanos: ápice da criação e centro do universo. 

É importante ressaltar, porém, que isso não é consequência direta da religiosidade, mas da leitura cultural que se fez, nesse período, da relação entre o ser humano e a Natureza. Esse jogo multifacetado da natureza tornou-se vertical, com Deus, criador e provedor, no topo. O limite da ação dos seres humanos tornou-se apenas moral, esquecendo-se que a mesma Natureza que era extraída e exaurida era a Natureza onde eles habitavam. O grande jardim agora estava à disposição para aqueles que possuíssem a força de exploração.

A Modernidade, e, logo depois, a Revolução Industrial, reforçou o distanciamento entre o ser humano e a Natureza, indicando que o atributo da razão, o diferencial dos seres humanos, nos elevava à uma categoria superior entre os seres vivos. Mesmo com a nova perspectiva da revolução científica, que passa a investigar a Natureza com o auxílio do "método científico" e das ferramentas, o que poderia ser uma reaproximação entre o ser humano e o planeta acaba se tornando mais um aparato tecnológico para a eficiência exploratória. 

Se, por um lado, passamos a conhecer melhor a Natureza, por outro a degradação e a extração de "recursos naturais" passou a crescer exponencialmente. Quanto mais conhecemos, mais exploramos. Ao descontruir a ideia da visão orgânica do cosmo e entender-se como "não participante" da Natureza, o ser humano se torna indiferente ao que acontece por todo o globo. A industrialização e a urbanização chancelam essa disjunção.

Todo esse caminho, porém, foi criticado por diversos pensadores e místicos. Se no campo da discussão racional, encontramos a tese de que o ser humano é membro da constituição do cosmo, porque é agente e paciente dessa mesma Natureza que ele explora, afinal implica e é implicado por ela, na espiritualidade reforça-se a organicidade da criação, onde é responsabilidade de todos a manutenção da beleza e da saúde do planeta, uma vez que todos são habitantes da "casa comum".

O conceito de comunidade, um dos elementos fundantes da nossa sociedade, se dá em um espaço, em um ambiente que não pode ser desassociado da Natureza. Só há vida humana em um ambiente. A saúde da Natureza é, sob todos os aspectos, a saúde da humanidade. Harmonia e convivência frutuosa é o mote de muitas das religiões, ancestrais e contemporâneas, mas que o capitalismo selvagem não pode consentir, pois isso acarreta na moderação, na preservação e na mudança radical do nosso modo de viver.

Dentre esses místicos, que nos apontam o caminho da "comunhão universal", encontramos Francisco de Assis cantando uma ode à criação "Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras" (Cantico delle creature: Fonti Francescane, 263). 

Na perspectiva franciscana, a terra e os seres humanos compartilham da mesma natureza, são parte da mesma natureza, são filhos do criador e, deste modo, estão irmanados por toda a existência. A natureza humana é Natureza. A originalidade da nossa existência é uma coexistência do cosmo, organizado pelo princípio (arché). Alguns vão nomear esse princípio de amor, outros de luz, outros de palavra, outros de energia. Mas a definição do princípio não é necessária para a compreensão da fraternidade. 

Somos todos irmãos, exorta outro Francisco, o bispo de Roma, pois "na realidade, toda a cultura saudável é, por natureza, aberta e acolhedora, pelo que uma cultura sem valores universais não é uma verdadeira cultura" (FT, 146). Precisamos ser acolhedores, no sentido de entender a diversidade humana e natural, biológica e cultural, identitária e religiosa, pois somos "todos irmãos".

Com a multiplicação de "desastres" naturais, tendemos a nos isentar da responsabilidade, como se a Natureza fosse independente e nós estivéssemos fora da sua organicidade. Porém, é necessário o entendimento da ecologia integral, onde Natureza e ser humano, todo o cosmos, procura uma sintonia para reconciliar suas naturezas. 

Krenak (2019), propondo uma reflexão sobre esse distanciamento entre ser humano e Natureza, nos diz que "a ideia de nós, os humanos, nos descolarmos da terra vivendo numa abstração civilizatória, é absurda. Ela suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos" (p. 23). Entender-se como uma parte desse grande organismo natural nos leva a refletir sobre a nossa própria identidade, nossa existência, nossa "natureza".

O cristianismo, principalmente a partir da ótica franciscana, nos reaproxima da criação. É o ser humano que, redimido da sua soberba, volta ao jardim para cultivar a criação da qual faz parte. A natureza divina, da qual é imagem e semelhança, está presente no ser humano e em toda a criação. 

Entender-se como "particular" não é se excluir do todo, mas perceber-se como um organismo vivo da criação. O ser humano foi alienado da sua natureza, em direção a um "individualismo" repleto de egoísmo, para que tenhamos a sensação de uma pseudo particularidade, fragilizados nessa atomização social e exploratória. 

Cristo, ser humano como nós, verbo divino abreviado, pleno em sua natureza, nos mostra que não há "ninguém acima de todos". Somos irmãos. Todos irmãos. É preciso construir a fraternidade entre os seres humanos e toda a criação. Isso só é possível quando reencontrarmos nossa natureza. Uma natureza que está em harmonia com o cosmo, em harmonia com a criação.

Daniel Couto é doutorando em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)/CAPE



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