Cultura

09/10/2020 | domtotal.com

O pulso ainda pulsa

Músico e poeta garimpa tesouros sonoros em matéria bruta da Língua Portuguesa

Cena da live de Arnaldo no Sesc Pompéia, disponível no Youtube
Cena da live de Arnaldo no Sesc Pompéia, disponível no Youtube (Reprodução/YouTube/SescPompeia)

Eleonora Santa Rosa*

A live de Arnaldo Antunes na semana passada, no palco do Sesc Pompéia, em Sampa, funcionou como um bálsamo, um respiro, um interregno para fruição de poesia, música, canções e imagens em projeções concisas e precisas, ao som de um piano preparado. Delicado, refinado, sensível Arnaldo, acompanhado do pianista responsável pelos arranjos e direção musical do show, o surpreendente e competentíssimo Vitor Araújo, diálogo perfeito entre atonalidades e cruezas rítmicas. Falando por muitos, por todos aqueles comprometidos com a 'causa' da Arte, com a potência da Cultura, com a sobrevivência dos preceitos básicos da diversidade, da alteridade, do humanismo, da beleza da criação, dos valores essenciais de convivência e respeito mútuos, da consciência crítica, com a resistência nas trincheiras das áreas hoje devastadas por ações governamentais eivadas de preconceito, voltadas ao desmonte do aparato cultural, ambiental, educacional, ao cerceamento da liberdade de expressão, à perseguição de artistas, intelectuais, cientistas, pesquisadores, educadores, ambientalistas e tantos outros mais. Letras de um mestre das palavras, fabbro de versos singulares, de pontaria certeira, hábil manejador de jogos de linguagem, força motriz em momento sensível do país.

Arnaldo, maduro e seguro, percorre a rota do difícil, garimpando tesouros sonoros em matéria bruta da Língua Portuguesa, lapidando pedras lascadas, diamantes negros, minérios de topografia acidentada, exercício dedicado e árduo em lavra subterrânea e a céu aberto, em meio à paisagem degradada de um Brasil fraturado, extraindo e escavando a esperança por melhores dias. Difícil escolher entre tantos acertos de um repertório pulsante de onde recorto dois dos mais comoventes e pujantes poemas-canções, por suposto, ao meu gosto e sintonia.

eu tenho uma coleção de esquecimentos
e apenas duas mãos pra ver o mundo
meu dia passa inteiro num segundo
mas nada abafa a voz dos pensamentos

nem frontal e nem melatonina
eu tenho as saudades de um soldado
do que haveria de ser o meu passado
de tudo que escapou da minha sina 

desculpas, culpas, lapsos de sinapses
impregnam minha corrente sanguínea
e sigo apassivando a carne ígnea
e aplainando os vértices dos ápices

eu sou o super-homem submisso
às rotas da rotina e ao tempo escasso
enquanto esqueço do próximo passo
noto um outro novo compromisso

queria estar a sós comigo mesmo
e ter a eternidade toda em torno
desfalecer no fogo desse forno
até me desfazer como um torresmo

******

Autoritarismo não existe
Sectarismo não existe
Xenofobia não existe
Fanatismo não existe
Bruxa fantasma bicho papão
O real resiste
É só pesadelo, depois passa
Na fumaça de um rojão
É só ilusão, não, não
Deve ser ilusão, não, não
É só ilusão, não, não
Só pode ser ilusão
Miliciano não existe
Torturador não existe
Fundamentalista não existe
Terraplanista não existe
Monstro vampiro assombração
O real resiste
É só pesadelo, depois passa
Múmia zumbi medo depressão
Não, não, não, não
Não, não, não, não
Não, não, não, não
Trabalho escravo não existe
Desmatamento não existe
Homofobia não existe
Extermínio não existe
Mula sem cabeça demônio dragão
O real resiste
É só pesadelo, depois passa
Como o estrondo de um trovão
É só ilusão, não, não
Deve ser ilusão, não, não
É só ilusão, não, não
Só pode ser ilusão
Esquadrão da morte não existe
Ku Klux Klan não existe
Neonazismo não existe
O inferno não existe
Tirania eleita pela multidão
O real resiste
É só pesadelo, depois passa
Lobisomem horror opressão
Não, não, não, não
Não, não, não, não
Não, não, não, não


As canções Coleção de esquecimentos e O real resiste são de autoria de Arnaldo Antunes.


O título deste artigo é retirado da canção homônima de Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Tony Bellotto.

*Ex-secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais, ocupou diversas funções públicas de relevo e desenvolveu projetos de educação patrimonial e de patrimônio cultural de repercussão nacional. Ex-diretora executiva do Museu de Arte do Rio – MAR (de novembro de 2017 a novembro de 2019), é considerada uma das mais experientes e respeitadas profissionais no campo da viabilização, implantação e soerguimento de equipamentos culturais no país. Estrategista e gestora cultural, tem larga experiência editorial; foi responsável pela publicação de mais de meia centena de obras voltadas à história e à cultura de Minas Gerais, tendo sido coordenadora editorial das consagradas Coleções Mineiriana e Centenário da Fundação João Pinheiro. Diretora do Santa Rosa Bureau Cultural, é autora do livro Interstício.



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