Cultura

12/10/2020 | domtotal.com

Um ato de coragem

Visivelmente surpreso, dr. Pedro olhou para mim com um ar de admiração paterna

'Um dos atos de destemor eu conto com certo orgulho'
'Um dos atos de destemor eu conto com certo orgulho' (David Klein/Unsplash)

Afonso Barroso*

Tenho páginas de medo e coragem na minha história de vida. O medo prevaleceu com a chegada da chamada certa idade, e prefiro mesmo lembrar os atos de coragem, muitas vezes praticado em função da impetuosidade eventual dos tempos de jovem adulto.

Um dos atos de destemor eu conto com certo orgulho. Foi no dia em que o dr. Pedro Aguinaldo Fulgêncio, uma das figuras mais representativas dos Diários Associados, homem extremamente culto e cortês, notável editorialista, então diretor geral da organização em Minas, mandou me convocar à sala dele, sem eu saber porquê. Eu não tinha mais do que dois anos de jornal e já era editor do caderno DT Homem&Mulher, nomeado pelo grande Fábio Doyle, editor geral do Diário da Tarde, um descobridor de talentos e doador de oportunidades.

Entrei meio cabreiro na imensa sala da diretoria. Só duas pessoas estavam ali, o dr. Pedro e o Hélio Adami de Carvalho, um dos diretores, parece que administrativo. O circunspecto dr. Pedro indicou a cadeira para eu sentar, à frente dele, e foi logo dizendo: "Afonso, eu quero que você demita imediatamente o Márcio Rubens Prado". Ao ver minha cara assustada, ele continuou: "Afonso, o que esse rapaz escreveu hoje é incompatível com os princípios do nosso jornal. Como você sabe, o Estado de Minas é um veículo de tradição, um jornal da família mineira, que prima pela seriedade, pelo respeito, um jornal de linha editorial amena, que não pode permitir certas licenciosidades. O que ele escreveu é inaceitável. Demita-o".

Márcio Prado, um dos colunistas que eu havia contratado com aprovação do Fábio Doyle, escrevera para a edição daquela segunda-feira uma crônica sobre infidelidade feminina. Para "enriquecer" o texto, usava termos como cornudo e outros ao falar do marido que levava costumeiros chifres da distinta esposa.

Eu não tive dúvidas em responder ao diretor-geral. Sem medo, com uma firmeza que surpreendeu a mim mesmo, eu disse: "Doutor Pedro, se eu demitir o Márcio, terei também que me demitir. Afinal de contas, eu li a coluna, e a responsabilidade pela publicação é minha. Sinceramente, não imaginava que fosse tão grave o que ele escreveu. Nós estamos num período de maior liberdade, especialmente no Diário da Tarde, que não é mais tão conservador como o Estado de Minas. Foi pensando assim que eu deixei passar a coluna. Sou mais culpado do que o Márcio. Peço desculpas se errei. O senhor pode me demitir".

Seguiu-se um silêncio tumular na sala. O dr. Hélio caminhava de um lado para outro, pensativo. O dr. Pedro, visivelmente surpreso com minha atitude, pensou um pouco, olhou para mim com um ar de admiração paterna e em seguida falou: "Tudo bem, Afonso. Vamos botar uma pedra em cima disso, mas quero que você assuma o compromisso de policiar o Márcio Prado e não permitir que ele escreva coisas que não combinam com os princípios da nossa organização".

Respirei aliviado e agradeci. Prometi fazer o que ele pedia. Saí da sala vitorioso, confiante de que tinha feito a coisa certa. Contei depois o episódio ao Márcio Prado. Ele me elogiou pela atitude e garantiu que não mais empregaria, em suas crônicas, termos ou expressões impróprias para menores ou para a tradição e sisudez dos Diários Associados.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!