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10/10/2020 | domtotal.com

O painel poético de Alexandra Vieira de Almeida

Obra da poeta cria múltiplas imagens sem medo de correr riscos

A poeta Alexandra Vieira de Almeida tem sua obra lançada pela Penalux
A poeta Alexandra Vieira de Almeida tem sua obra lançada pela Penalux (Tiberius Drumond/Divulgação)

Jovino Machado*

A linguagem é o personagem principal do livro Painel, da poeta carioca Alexandra Vieira de Almeida. O conjunto de poemas já está na segunda edição e foi editado pela Editora Penalux. Mais do que simples versos, o painel poético visual brinda o leitor com um mosaico de imagens que se infiltram em nosso pensamento e em nossa alma como um filme de longa-metragem que insiste em querer não sair de cartaz. Rosas solares, tecidos finos, fogos inebriados, árvores perdidas e tigres ociosos brotam das páginas e se transformam em fotografias de um álbum que nunca termina.

Como um figurino bem costurado os poemas batem asas no meio de um redemoinho musical de realidades e invenções. O prazer da leitura vai bem além dos dias que passei ao lado dessa obra. O que a poesia desse livro nos ensina é muito mais do que a alegria de ler textos tão bem construídos numa atmosfera, às vezes, misteriosa, e, em muitos momentos, iluminada por um arco-íris de intensas e lindas sensações.

As emoções pós-leitura ainda ecoam no fundo de algum lugar inexplicável e o barulho de notas musicais vão brotando como flores que desafiam o final da primavera. O ruído de teclas de uma máquina de escrever que não se usa mais serve de trilha musical para os restos existenciais que são construídos pelo talento da poeta. Os poemas-partituras são musicais e acompanham a minha dança solitária no vazio do meu quarto.

"Cante a memória da casa primeira que te deu abrigo./ A cor da letra de teu nome despista a sombra". A beleza dos versos de abertura no poema Conto, de início, já deixam claro para o leitor que são múltiplos os mapas da alma da autora. Seguir por um caminho seguro lendo o Painel, de cabo a rabo sem pular nenhuma página, pode ser uma das opções, mas recomendo uma segunda leitura que pode ser feita abrindo a obra sem se preocupar com a sequência "oficial", pulando aqui e ali como recomenda as indicações de leitura feitas por Julio Cortázar, no seu romance-experimental O jogo da amarelinha.

Entrar no jogo poético de Painel é um dos caminhos que se pode percorrer ao longo das 95 tortuosas páginas. Pegar um atalho ou vários, pode dar um novo clima ao prazer de degustar cada sílaba de um percurso que se insinua em curvas perigosas de uma estrada que pode ser clara ou escura e essa claridade ou escuridão depende da estação do interior de quem lê.

Cantar a pessoa amada - dizendo que "os seus olhos são carícias" ou louvar o "divino fruto na árvore perdida do dia" - são pérolas que vou recolhendo como lágrimas de um amor ou gotas de um suor agridoce que é o principal tempero desse livro de poemas. Especiarias múltiplas se apresentam a cada página em versos com cheiros, cores e sabores. Os "sonhos esculpidos na mão de um rei", versos primeiros do poema Lampada mágica nos levam automaticamente ao mundo da magia e das leituras das histórias das Mil e uma noites. E é com delicadeza de imagens transformadas que a autora vai reconstruindo um espelho quebrado por "desesperos enlaçados por serpentes".

A cor da selva

Abismos
Riscos
De selvas delirantes
Acordo
No colo da noite
O açoite
De finíssimas correntes
Verdejantes
Solo manchado
De lágrimas vermelhas, opulentas
Forma-se
A cor da morte

Na selva da poesia é quase impossível resenhar um livro sem mostrar para o leitor pelo menos um poema inteiro, para que a reflexão do resenhista possa ser ilustrada pela criação do autor. Na minha bêbada e imodesta opinião, o poema A cor da selva, na sua aparente simplicidade, é o poema-síntese de obra de uma poeta que não tem medo de correr riscos. Os abismos de cada verso salvam o leitor de uma leitura que poderia ser enfadonha, não fosse os atalhos e os achados-armadilhas. Essas ciladas são bastantes instigantes porque a cada momento é imprescindível meter a mão na cumbuca, sendo cúmplice de uma narrativa que se constrói com sustos e espantos.

Em Painel não encontramos nenhum verso solto voando pelo livro. Sim, eles voam como pássaros em fim de tarde, mas é sempre um voo em bando. Esse voo nunca é solitário. Não tem a tristeza jururu da galinha, mas tem a grandeza de uma águia que não tem medo de penhascos. A poesia só ganha o mar quando se afasta do cais, e é isso que percebo ao longo da leitura dos poemas de Alexandra.

O livro tem alguma coisa da poeta mineira Adélia Prado, com pitadas da paulista Hilda Hilst. Os melhores poetas do Brasil hoje são as poetas. Não só no chamado eixo Rio-São Paulo, mas em Minas, Paraná, Bahia, Pernambuco, enfim, em todo o país, cada vez mais encontramos poetas do sexo feminino que, a cada dia, vêm rompendo barreiras que antes eram impossíveis de serem ultrapassadas porque se esbarravam sempre no patriarcado.

Se Alexandra Vieira de Almeida, em plena pandemia, nos brinda com um livro forte e coeso, belo e plural, esse acontecimento se deve ao fato de que muitas poetas como Cecília Meirelles, Florbela Espanca e Sylvia Plath - só para citar algumas - abriram um caminho antes percorrido apenas pelos homens. Muitas escritoras no passado só tiveram a sua produção publicada anos depois de suas mortes e outras publicaram com pseudônimos, como Mary Shelley, com o seu fantasmagórico Frankenstein.

Sorte a nossa de sermos contemporâneos de tantas mulheres que estão conquistando o seu espaço na literatura brasileira e mundial, ganhando prêmios, publicando obras que iluminam a nossa existência. Alexandra Vieira de Almeida chega desfilando nessa passarela de autoras relevantes que fazem da literatura uma grande arte. Se todos os artistas querem a coroa de louros, é justo dizer que nossas autoras merecem estar no Olimpo. Merecem estar num lugar onde prevalece o talento e a sensibilidade. Sou um leitor de poesia e, ao longo de 40 anos, descobri grandes obras de homens e mulheres. Atualmente, não só voto em mulheres para ocupar cargos políticos, mas cada vez mais leio as escritoras. Vivo fazendo listas com as minhas preferências por livros, filmes e canções. Muitas são as minhas poetas preferidas. Alexandra Vieira de Almeida, certamente, agora é uma delas.

PAINEL
De Alexandra Vieira de Almeida
Penalux
95 páginas
R$ 38


Dom Total

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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