Brasil

13/10/2020 | domtotal.com

Frescor do refrigerante extinto

Tenho tido dias que já não sei se são reais, se são vigílias, se são cacos de construções antigas ou um embolado pesadelo

Queria uma Ginger Ale ou uma Cerejinha gelada para aplacar minha sede de tempos melhores
Queria uma Ginger Ale ou uma Cerejinha gelada para aplacar minha sede de tempos melhores (Pinterest)

Ricardo Soares*

Foi-se o tempo. Não, não vou começar mais uma crônica saudosista com gosto de refrigerante extinto. Nem vou me lembrar das cartas distribuídas entre meu tio e meu avô num remoto jogo de buraco e nem as muitas vezes que vi o mesmo avô jogar paciência com a cabeça entre as mãos toda vez que duvidava do destino que se revelava entre os seus dedos.

Sim, são dias de alegrias escassas. E então as traças de memórias antigas invadem a linha de nosso pouco tempo que nos levavam a paisagens mais alvissareiras, a recordações mais faceiras, nos conduziam a um impreciso momento onde a gente acreditava que o país não fosse virar um grande incêndio ambiental, um incêndio que se expande para o bom senso, o bom gosto, o bom caminho.

Tenho tido dias que já não sei se são reais, se são vigílias, se são cacos de construções antigas ou um embolado pesadelo. Nesse sonho ruim misturam-se grandalhões valentões que ouvem péssima música sertaneja, fazem coleções de chapelões que escondem seus orelhões e tratam suas mulheres como novilhas. Também cabem nesse horror gente ostensivamente sem máscara que nos proteja da peste, gente racista, preconceituosa, homofóbica, classista. Gente que sem dúvida estaria melhor entre as antigas pragas do Egito.

Diante de porteiras de fazendas mato-grossenses que ostentam bandeiras brasileiras em homenagem ao dejeto que nos desgoverna faço força para acreditar que o real é apenas o meu imaginário com defeito, castigado por ter lido tanta distopia ficcional e ter assistido tantos filmes de apocalipse.

Eu não queria, mas agora a parte do refrigerante extinto dessa crônica caía muito bem ao redor do calor e horror que me aflige. Queria uma Ginger Ale ou uma Cerejinha gelada para aplacar minha sede de tempos melhores. Que não faço ideia de quando virão.

*Ricardo Soares é escritor, roteirista e jornalista. Publicou 9 livros. O mais recente “Devo a eles um romance” disponível em https://www.editorapenalux.com.br/loja/devo-a-eles-um-romance



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