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13/10/2020 | domtotal.com

Star Trek e os Borgs

Resistir não é inútil

No contexto das batalhas e ?assimilações? de povos, culturas e civilizações por parte dos Borgs o mantra destes seres era o de que ?resistir é inútil?
No contexto das batalhas e ?assimilações? de povos, culturas e civilizações por parte dos Borgs o mantra destes seres era o de que ?resistir é inútil? (Divulgação)

José Antonio de Sousa Neto*

Gene Roddenberry é uma espécie de lenda no mundo da ficção científica. Ele foi o idealizador da série televisiva Star Trek (Jornada às Estrelas) há quase sessenta anos. Claro que no contexto de uma série televisiva, mesmo após sua extensão por diferentes “gerações” e histórias e roteiros paralelos, muitas vezes os episódios nos parecem singelos e até ingênuos, com aspectos televisivos predominando sobre conteúdos mais robustos e profundos. Mas isto é uma visão simplória do que idealizou Roddenberry. O percurso desta “jornada” não só é provavelmente visionário em termos do potencial do desenvolvimento tecnológico e científico, como explora complexas questões ética e morais transitando muitas vezes por metáforas que merecem nossa atenção.

No campo tecnológico e científico, embora muitas coisas ainda estejam, a princípio, muito distantes do nosso nível atual de desenvolvimento, muitas delas já não podem mais ser consideradas “impossíveis”. O avanço da ciência e os conhecimentos que já possuímos do universo, tanto no contexto macro quanto no contexto quântico, mesmo que limitados, vêm permitindo, baseados em evidências e teorias da física, a fazer conjecturas sobre viagens temporais, multidimensionalidade e multiversos, dentre tantas outras coisas.

No nosso contexto atual há, no entanto, uma metáfora que se destaca por uma potencialmente assustadora possibilidade de evolução de eventos, mesmo que de forma parcial. Uma perspectiva sombria e que certamente não pode ser subestimada, de uma combinação de Big Data, certos riscos, opções e caminhos relacionados à IA (Inteligência Artificial), e o totalitarismo.  George Orwell em seu muito conhecido livro 1984 já abordava este potencial encaminhamento da história humana. Arthur Clarke em suas diversas obras já explorava princípios e precauções para evitar futuros sombrios. Se isso já não é novidade aos atentos, a diferença está na materialização de significativos saltos tecnológicos que se combinam com uma natureza humana cujo desenvolvimento ético e espiritual nos deixa uma clara impressão de não os acompanhar. Mais recentemente, e também já escrevemos sobre isso aqui neste espaço (https://domtotal.com/noticia/1248002/2018/04/sapiens-x-big-data/), Yuval Harari nos alerta para os grandes riscos de implementação e consolidação de ditaduras digitais, ou até de uma única grande ditadura digital. E isso já está ao alcance de nossos olhos e braços seja em nações que já impuserem e impõe o mais absoluto controle social ou através da sensação de que experimentos de controle social em larga escala parecem estar em andamento em diversas partes do mundo.

E se os leitores entenderem que esta visão é demasiadamente pessimista, para não dizer fantasiosa, hoje é fácil recorrer ao YouTube e ver, por exemplo, políticos brasileiros de determinadas ideologias defendendo abertamente e enfaticamente o controle social como uma diretriz basilar para o futuro da nação. Parece que estão brincando com fogo, se é que não são eles mesmos o próprio fogo.

Na ficção os Borgs são um grupo alienígena que aparece como antagonista recorrente na franquia da Star Trek. Os Borgs são organismos “bio-cibernéticos” ligados numa mente colmeia chamada "o Coletivo". Descritos até no Wikipedia por terem se tornado parte da “cultura popular” os Borgs “cooptam a tecnologia e o conhecimento de outras espécies alienígenas ao Coletivo através do processo de "assimilação"; transformando à força seres individuais em "zangões" injetando nano sondas nos seus corpos e aumentando-os cirurgicamente com componentes cibernéticos. O objetivo final dos Borg é "alcançar a perfeição".

Em “Star Trek: a Próxima Geração” os Borgs foram muito provavelmente introduzidos como uma metáfora a regimes totalitários como o comunismo / socialismo. E apesar dos enormes desafios que Gene Goldemberg imaginava que inevitavelmente a humanidade continuaria enfrentando em seu futuro, ele sempre pareceu ter uma visão inequivocamente positiva deste futuro. No contexto das batalhas e “assimilações” de povos, culturas e civilizações por parte dos Borgs o mantra destes seres era o de que “resistir é inútil”. Como se o “controle social absoluto” fosse uma inevitabilidade da evolução e da busca pela perfeição social (aqui faço eu mesmo uma metáfora). Mas em Star Trek os Borgs foram sempre vencidos pela resiliência dos que, pela liberdade e o “livre arbítrio”, compreendiam que “resistir não é inútil”. Na verdade, resistir é necessário e ainda há tempo para isso. A revolução tecnológica em curso pode elevar a humanidade a patamares de desenvolvimento social e econômico absolutamente extraordinários, mas é preciso muito cuidado ao longo do caminho. Também, no pesado jogo geopolítico global, não há nenhum espaço para ingenuidades.

Muitos países ocidentais estão atentos e têm buscado através de suas democracias implementar e aprimorar as leis e o ambiente jurídico institucional para evitar / coibir abusos e desvios de naturezas diversas. É preciso, no entanto, estarmos em permanente vigilância.

*Professor da EMGE (Escola de Engenharia e Computação)



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