Brasil

13/10/2020 | domtotal.com

Em nome do voto

Nomes e apelidos, um tiro pela culatra na corrida eleitoral

Pepeco, Tchu Tchu e Xuxa são algumas das alcunhas favoritas entre candidatos por todo o país
Pepeco, Tchu Tchu e Xuxa são algumas das alcunhas favoritas entre candidatos por todo o país

Alexis Parrot*

Começou na última sexta-feira a propaganda eleitoral gratuita no rádio e televisão em que candidatos a prefeito e vereador dos 5.570 municípios brasileiros apresentam-se ao eleitor anunciando suas pretensões e propostas (ou a falta delas). A disputa majoritária traz sempre a promessa de alguma emoção, enquanto a corrida pela Câmara é célebre por engrossar fartamente os anedotários regionais.     

A julgar pelo histórico dos programas, seremos novamente testemunhas de uma coleção de gracejos e palhaçadas sem sentido entre um e outro postulante que de fato mereça atenção. A nós, eleitores, caberá a difícil tarefa de separar o joio do trigo e pinçar um candidato sério como quem caça agulha em palheiro.   

Até a primeira quinzena de novembro, desfilarão diante de nossos olhos duas vezes por dia uma farândula de tipos, cada um deles tentando se destacar no meio da multidão que sonha conquistar uma cadeira de edil para o próximo quadriênio. E aí vale tudo.

O nome de guerra a ser usado eleitoralmente é a primeira grande decisão que todo candidato deve tomar. Para dar uma impressão de intimidade (mesmo que falsa), os apelidos são amplamente usados na tarefa da construção dessa persona, por menos apropriados que possam parecer. Pepeco, Tchu Tchu e Xuxa são algumas das alcunhas favoritas entre candidatos por todo o país.  

Em Ponto Chique, por exemplo, cidade na beirola do São Francisco e distante 100 km de Pirapora, o prefeito Zé Boy Preá terá que vencer mais uma vez o verde Zi Palitão para garantir sua permanência no Paço Municipal. Dos 39 concorrentes às nove vagas da Câmara encontramos ainda candidatos que respondem por Carlim, Mazim, Marquim, Maurim, Vaguim, Cleidim e Gezinha. Nadando contra a corrente dos diminutivos carinhosos, estão lá também o Vezão e o capitão de folia de reis Valdirão.   

Dizer a origem ou onde mora é outro artifício bastante usado pelos postulantes para se fazerem reconhecidos, acrescentando ao nome ou apelido sua localização geográfica na cartografia da cidade. Ruas, avenidas, bairros, praças, comunidades, praias e distritos transformam-se em sobrenome na esperança de, automaticamente, conquistar a simpatia da vizinhança. Mas cometem-se exageros, como um certo Sidnei Quadros, de Curitiba, registrado no TRE como Sidnei Vizinho da Frutaria. Só faltou dar o CEP.

Em Água Boa, antigo distrito de Minas Novas (MG), este hábito já foi motivo de polêmica. Candidato a vereador na eleição de 2016, o pedetista Silvanio Elias da Silva fez história na cidade. Trabalhador rural no entorno do córrego do Bouquete, fez a alegria de muitos gaiatos ao se autoproclamar Silvanio do Boquete. A gozação deve ter sido tamanha que, dessa vez, novamente em campanha, preferiu registrar-se apenas com o nome de batismo.

Outros, aproveitam-se de parentesco e filiação para se apresentar ao eleitorado. Em Ouro Preto concorrem a Zilda Sobrinha do Padre Zé e a Elaine Filha de Fusquinha. Também em Minas, na cidade de Piranga, a tucana Kelly Nora de Zé dos Óculos busca a consagração nas urnas. De todos, o mais intrigante é mesmo o matogrossense candidato à Câmara de Campo Grande que se apresenta como Filho do Padre. 

Como o trabalho dignifica o homem, muita gente usa a profissão para pelo menos aparentar alguma dignidade. Brasil afora, são incontáveis os serralheiro, djs, engenheiros, trocadores, motoristas, caminhoneiros, taxistas, borracheiros, jornalistas, locutores, garçons, barbeiros, cabeleireiros e palhaços. Atestando que até a criatividade pode ser um defeito, um cabeleireiro de Contagem (MG) escolheu para encarar as urnas o singelo codinome de Thiago Mãos de Tesoura.   

Ainda no campo dos ofícios, tem muito fulano que acrescenta ao nome sufixos que funcionam praticamente como uma carteira de trabalho. Os favoritos parecem ser: do Gás, do Salão, da Ambulância, do Bar, da Van, do Escolar e do Sacolão. Sempre há muitos doutores e professores e, por causa da pandemia, temos um número recorde de enfermeiros e enfermeiras na disputa deste ano.

Para provar que o Estado é tudo menos laico, concorrem também em todos as unidades da Federação alguns pais e mães de santo, além de padres que se contam nos dedos. Em contraponto, uma profusão incontável de candidatos que se dizem apóstolos, irmãos, missionários, pastores, bispos e bispas mostram que os neopentecostais dedicam-se mesmo a um projeto mais político do que religioso.

Como uma metonímia levada ao pé da letra, partes do corpo também surgem como epíteto em números grandiosos. E dá-lhe Cabeça, Cabeção, Zói e Zoím, Boquinha, Perninha, Bracinho, Pescoço, Quexin, Barriga e Bochecha. Até a falta pode se tornar palpável, como parece entender a candidata Adalgiza de Aracaju, que se apresenta inacreditavelmente como a Mulher sem Coração.  

A caserna está representada por milhares de soldados, cabos e sargentos, acompanhados por um sem número de delegados; todos tentando surfar na onda do bolsonarismo e com uma agenda calcada no corporativismo e na segurança pública. Apresentam-se como sumidades no assunto, mas erram crassamente ao atacar apenas o criminoso - e não a criminalidade e suas raízes.

Pelos nomes com que se registram, dá para saber de cara que há candidatos a vereador para todos os gostos. Para quem tem pendores literários, por que não votar na Norminha Moby Dick (Magé/RJ)? Para os anacrônicos, a escolha pode recair no Negão do Monza (Betim/ MG); para aqueles que curtem um palíndromo, não tem melhor que o Abias Você Sabia? (Contagem/MG).

Para os amantes das artes marciais a opção fica entre os piauienses Fumanchu (Parnaíba) e Shaolin (Piripiri). Agora, se você sonha em se aproximar de um artista de cinema, o melhor é cravar o voto no Louro Dicaprio (Manaus/AM). O Bilac de "Ora, direis, ouvir estrelas" ficou para trás; o negócio agora é ir para o infinito e além com o Andrezinho Galático (Aparecida de Goiânia/GO) ou rezar muito, apegado no Cosmo Damião (Manicoré/AM).

Pequena loja de horrores

No estilo consagrado pelo personagem de Billy Porter na série Pose, proponho um pequeno passeio, desbravando por categorias o que há de mais absurdo entre os nomes registrados como opção de voto para as Câmaras Municipais de norte a sul do Brasil.

A categoria é... foragidos do zoológico!

Adilson Piquinês (AVANTE - BH/MG)

Bodão da Serra do Ouro (PSDB - Alexânia/GO)

Marcus Paulo Porkin (REDE - BH/MG)

Max Pé de Cachorro Coca Cola (PL - BH/MG)

Patinho da Compensa (PMN - Manaus/AM)

Raposão da Mega (DC - Curitiba)

A categoria é... candidatos de se lamber os beiços!

Daniel Picolé Cremoso (SD - BH/MG)

Israel do Sacolé (PSL - Mangaratiba/RJ)

Luis Chupetas (PSB - Carmo do Cajuru/ MG)

Macalé do Chup Chup (PROS - BH/MG)

Pirulito Cowboy (PROS - Curitiba/PR)

Tiazinha do Churros (DC - Cacoal/RO)

A categoria é... não entendi nada!

Jota, o Chicote do Povo (PTB - Manaus/AM)

Laíde Brigado Denada (PL - BH/MG)

Marta Late e Mia (REDE - Caratinga/MG)

Linguiça do Circo (PATRIOTA - Curitiba/PR)

Loucuras do Cabral (PATRIOTA - Pelotas/RS)

Piru Papai Noel (MDB - Sertãozinho/SP)

Preguinho Meu Rei (PTB - BH/MG)

A categoria é... super-heróis colonizados!

 

Dinho Homem de Ferro (PP - Curitiba/PR)

Hulk de Urubu (PP - Itacaré/BA)

Jaul Homem Aranha (PP - Olinda/PE)

Normandy Pantera Negra (PT - São Paulo)

Ricardo Capitão América (PP - Araucária/PR)

Thor Ferraz (PSB - Curitiba/PR)

Depois dos heróis, uma anti-heroína bem brasileira. Candidata no Rio de Janeiro pelo AVANTE, Regina Sequeira alcança o extremo do equívoco ao congregar de uma tacada só os militares que rodeiam Bolsonaro e a ineficácia da panaceia anti-Covid defendida pelo presidente. A advogada escolheu como nome de guerra para encarar as urnas o infeliz apelido de Capitã Cloroquina.   

Para que o eleitor não se desanimasse tanto, fui buscar um nome que pudesse encerrar o artigo com uma nota mais otimista. Comprovando que o romantismo não está morto, despeço-me mineiramente com a ajuda do candidato de Contagem: Beijim!

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.



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