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17/10/2020 | domtotal.com

Com seu modelo econômico em crise, Bolívia vai as urnas escolher novo governo

Desemprego urbano no país disparou de 6,6% para 10,5% entre janeiro e agosto

Um grupo de partidários do ex-presidente Evo Morales em El Alto, em Bolívia
Um grupo de partidários do ex-presidente Evo Morales em El Alto, em Bolívia (Luis Gandarillas/AFP)

A Bolívia elegerá um novo presidente no domingo (18) em meio à sua mais profunda crise econômica em quase 40 anos. O país tem uma previsão de contração do PIB de 6,2% em 2020, a pior queda desde os anos 1980, quando experimentou hiperinflação.

A pandemia do novo coronavírus, que deixa 137 mil infectados e 8,1 mil mortos no país de 11 milhões de habitantes, acentuou os problemas da economia boliviana, que caiu 7,93% até julho em comparação ao mesmo período de 2019. A taxa de desemprego urbano disparou de 6,6% para 10,5% entre janeiro e agosto, segundo dados oficiais.

"Estamos muito próximos de uma grave crise econômica", resumiu o economista Roberto Laserna, presidente do centro de estudos da Fundação Milênio, em conversa com a reportagem.

Isso é consequência "de uma má política aplicada nos últimos 14 anos, que não se preocupou com a capacidade produtiva e se limitou a inflar e engordar o Estado com investimentos que não foram produtivos", acrescentou, referindo-se ao governo de Evo Morales (2006-2019).

A crise da saúde expôs as fragilidades estruturais da economia boliviana, após seis anos de desaceleração com redução gradual do crescimento e aumento do déficit fiscal, cinco de desequilíbrio comercial, perda constante de reservas internacionais e endividamento crescente.

Essa deterioração, juntamente com a incerteza política persistente, recentemente levou a Moody's a rebaixar o rating de crédito da Bolívia de 'B1' para 'B2'.

Nesse contexto, os bolivianos elegerão seu novo presidente em uma disputa que será definida entre o esquerdista Luis Arce e o centrista Carlos Mesa, segundo as pesquisas.

Crise do modelo

Durante a gestão de Morales (2006-2019), a Bolívia promoveu um modelo econômico que priorizou a exploração dos recursos naturais do país, sem diversificar seu aparato produtivo e aumentando sua dependência do setor primário, destacaram os especialistas.

"Foi promovido um modelo voltado para a promoção do consumo. Um modelo compatível com um 'superciclo' de matérias-primas, onde o governo recebe mais receita, aumenta o gasto fiscal, as pessoas consomem e a economia cresce", disse Javier Aliaga, pesquisador do Centro de Estudos Econômicos Inesad.

Isso gerou um sentimento de prosperidade entre os bolivianos, que se expressou, por exemplo, na transferências de dinheiro entregues a diferentes segmentos da sociedade, na compra de um satélite e na instalação de um serviço de teleférico em La Paz, que deu à cidade um perfil de modernidade.

O crescimento do PIB atingiu o pico em 2013, com 6,8%. A bonança reduziu a pobreza de 60% para 37,2% e a pobreza extrema de 38,2% para 12,9%, segundo dados oficiais.

Quando o "superciclo" desacelerou, para manter o modelo, o governo Morales continuou injetando recursos na economia usando reservas internacionais e aumentando o endividamento.

Também congelou a taxa de câmbio para ancorar as expectativas de inflação. E os bolivianos começaram a vender, comprar e economizar na moeda local. 

"O congelamento do dólar manteve o câmbio valorizado, o que reduz a possibilidade de os exportadores competirem, afetando a balança comercial e com custo nas reservas internacionais" para manter a paridade, explica Aliaga. Assim, a Bolívia chega às eleições no domingo com um crescimento em queda gradual desde 2014.

Em 2019, a expansão do PIB foi de 2,2%. Antes da pandemia, o Banco Central projetava para este ano um crescimento de 3,5%, prognóstico recém revisto para uma queda de 6,2%, coincidindo com o do FMI.

Desafios

O próximo executivo, que tomará posse em 1º de janeiro, terá que enfrentar os desafios imediatos da pandemia, além de fortalecer a capacidade produtiva e melhorar as oportunidades de investimento privado, afirma Laserna.

"As tarefas do próximo governo são titânicas", avalia Aliaga, que aponta melhora das contas públicas e da qualidade do endividamento, injeção de liquidez para impulsionar a cadeia de pagamentos, melhoria do marco legal para investimentos, reformas trabalhistas e o retorno a uma taxa de câmbio flutuante.


AFP



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