Religião

15/10/2020 | domtotal.com

Papa Francisco manifesta preocupação com os incêndios do planeta

A Igreja Católica divulgou várias declarações pedindo que as zonas úmidas sejam protegidas desde o início dos focos de calor

Fuzileiros navais do 7º Batalhão de Engenharia conduzem operação de extinção perto de Whiskey Falls
Fuzileiros navais do 7º Batalhão de Engenharia conduzem operação de extinção perto de Whiskey Falls (Pacific Southwest Forest Service, USDA)

Inés San Martín*
Crux Now

Conhecido por sua defesa do cuidado com o planeta, o papa Francisco voltou a se manifestar no passado domingo (11), expressando sua proximidade com os Estados Unidos e América do Sul, que estão sofrendo com a devastação de flora e fauna silvestre pelos incêndios causados pelo homem.

Suas palavras ecoam os apelos feitos pelas igrejas locais nos últimos dias. "Muitos incêndios são causados por secas persistentes, mas também há aqueles causados pelo homem", aponta Francisco. "Que o Senhor sustente aqueles que estão sofrendo as consequências dessas catástrofes e nos faça cuidadosos para preservar a criação".

O pontífice mencionou três regiões específicas que atualmente sofrem com incêndios devastadores: "Estou pensando na costa oeste dos Estados Unidos, particularmente na Califórnia, e estou pensando também nas regiões centrais da América do Sul, até a zona do pantanal do Paraguai, às margens do Rio Paraná, na Argentina".

Reforçando sua preocupação, mensagens semelhantes foram compartilhadas por meio de suas contas do Twitter em vários idiomas, ligeiramente abreviadas para caber na máxima de 280 caracteres que a plataforma oferece, mas ainda nomeando essas três regiões.

O ano extraordinário de incêndios florestais da Califórnia gerou outro novo marco na semana passada, quando o complexo incêndio de agosto na região norte do estado se expandiu para além de um milhão de acres, elevando a categoria de megafire para gigafire, nunca usado antes em um ambiente contemporâneo.

O incêndio abrange uma região maior que o estado de Rhode Island e afetou sete condados, de acordo com Cal Fire. Vários pequenos incêndios começaram quando um raio atingiu a floresta seca na Califórnia em agosto, e cresceu para o que hoje é um fogo meio contido que está queimando há mais de 50 dias.

Este gigafire, no entanto, é apenas o maior de vários que devastaram quatro milhões de acres na Califórnia este ano. "As pessoas estão simplesmente chocadas com a pandemia e a desaceleração da economia, também com as questões raciais e, além disso, agora tem os incêndios florestais", disse o bispo Oscar Cantú, chefe da Diocese de San José, em entrevista semanas após os incêndios começarem. "Isso faz você se perguntar, o que mais? Tudo o que precisamos é de um terremoto".

Ao comentar sobre o convite feito pelo arcebispo Jose Gomez de Los Angeles para rezar o rosário pelos Estados Unidos em 7 de outubro, o bispo William M. Joensen de Des Moines, do Estado de Iowa, concordou que a iniciativa de oração é necessária em um momento de tantas diferenças e "fontes de tensão", inclusive políticas.

Joensen apreciou a iniciativa de representar diferentes partes do país. "Acho que cada região tem sua cruz particular, que estão carregando agora e estamos procurando por sinais de esperança", disse o bispo, citando os recentes incêndios na Costa Oeste e as condições de seca em algumas partes do Meio-Oeste como exemplos. "Este pode ser um momento para refletirmos sobre a luz e a presença permanente de Deus entre nós".

Os incêndios no Paraguai estão longe de se tornar um gigafire, mas a devastação causada pelos incêndios ainda é alarmante. Existem cerca de 7 mil pequenos incêndios em todo o país, o que torna o trabalho dos bombeiros virtualmente impossível - há mais fontes de calor do que pessoas treinadas para combatê-las. Milhares de hectares foram devastadas pelas chamas. A maioria dos incêndios começou com a queima de lixo, apesar da forte seca e dos ventos de 60 quilômetros por hora.

"Os bombeiros voluntários e colaboradores de nosso país estão fazendo o possível para mitigar as fontes de incêndios, mas estão em desvantagem pelo número de queimadas e pela falta de recursos, portanto, insistem que os cidadãos colaborem com cada espaço, acompanhando com iniciativas de solidariedade comprometida", disseram os bispos em um comunicado divulgado na semana passada.

"Somos chamados a ser verdadeiros guardiães da criação, do plano de Deus inscrito na natureza, guardiães do outro e do meio ambiente", escreveram os bispos do Paraguai.

Os prelados exortaram o povo paraguaio a realizar ações pequenas, mas decisivas, para impedir a propagação dos incêndios: evitar queimar lixo e matas e tomar consciência das graves consequências dos incêndios.

Em sua declaração, os bispos argumentaram que o desastre natural que atualmente atinge o país não deve ser minimizado, porque não só devasta o meio ambiente, mas também os cidadãos paraguaios, especialmente aqueles que sofrem de doenças respiratórias.

Existem vários incêndios na terra natal do papa Francisco, a Argentina, mas o pontífice se concentrou em um incêndio violento que foi descrito como "completamente fora de controle" e está ameaçando um dos principais ecossistemas de pântanos da América do Sul, o delta do Paraná.

Embora os incêndios na planície de inundação conhecida como "la isla" sejam uma ocorrência anual, a escala da calamidade desta vez é sem precedentes: onde os pontos quentes detectados por satélite têm uma média de 1,8 mil por ano, houve mais de 8 mil até agora em 2020, começando em fevereiro e continuando até hoje. Uma das margens da planície de inundação fica em Entre Rios, enquanto do outro lado do rio fica Rosário, uma das cidades centrais da Argentina e lar do principal centro de exportação de grãos do país.

Durante semanas, as ruas de Rosário e outros lugares do Paraná ficaram cobertas com uma camada de cinzas de plantas e animais queimados, e o ar nas margens do rio da cidade está irrespirável.

O terreno afetado pelos incêndios, apesar do nome popular, não é uma ilha, mas um vasto delta que cobre cerca de 14 mil km quadrados através do qual o rio Paraná, o segundo maior da América do Sul depois do Amazonas, deságua no Oceano Atlântico, cerca de 240 km depois da cidade.

Embora criadores de gado, caçadores furtivos, turistas e incorporadores imobiliários tenham invadido seu rico habitat, o delta do Paraná ainda está repleto de fauna diversificada, todos enfrentando um terrível desafio para sua sobrevivência devido aos incêndios causados pelo homem. 

Alguns são intencionais: os fazendeiros queimam anualmente a grama de inverno para que cresça melhor durante a primavera, mas a forte seca tornou os incêndios mais difíceis de controlar. Outros pontos quentes são artificiais, mas acidentais: um cigarro que não foi devidamente apagado ou uma garrafa de vidro deixada sob o sol escaldante.

A Igreja Católica divulgou várias declarações pedindo que as zonas úmidas sejam protegidas desde o início dos incêndios. Provavelmente, o mais forte deles veio no final de agosto, quando vários ministérios sociais das regiões afetadas pelos incêndios se reuniram para produzir um vídeo de quatro minutos para aumentar a conscientização sobre a necessidade de proteger esta área.

"Chega de fogo nos pântanos!", apela a uma voz feminina sobre fotografias e pequenas capturas de vídeo da diversificada fauna e flora da região. "Como cristãos, reconhecemos e apreciamos que a terra é uma criatura de Deus que, como São Francisco de Assis, podemos chamar de irmã a mãe terra. Estamos no meio de uma crise socioambiental cuja raiz está no coração do homem".

Citando a encíclica do papa Francisco de 2015 sobre o meio ambiente, a Laudato Si, as dioceses de Santa Fé, Rosário, Reconquista e Entre Rios destacaram que a degradação ambiental e a degradação humana e ética estão intimamente ligadas.
"Não permitamos que os sinais de destruição e morte acompanhem o caminho deste nosso mundo", acrescentaram.

"Acompanhamos os gritos das populações e organizações que exigem o fim dos incêndios e a aprovação de leis que protejam as áreas das ilhas e zonas húmidas, já que são o pulmão do planeta, repleto de biodiversidade", concluíram.

*Siga Inés San Martín no Twitter: @inesanma

Publicado originalmente em Crux Now


Traduzido por Ramon Lara



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