Brasil

15/10/2020 | domtotal.com

Triste fim de um futebol-arte

Ninguém podia imaginar que o Cruzeiro, praticante de um futebol quase sempre classe A, pudesse descer ao nível B de hoje, e o pior, a caminho da letra C

De repente, lá se foi a arte que a Itália, a terra das artes, emprestara ao futebol
De repente, lá se foi a arte que a Itália, a terra das artes, emprestara ao futebol (Douglas Magno/AFP)

Afonso Barroso*

Sabemos todos que a Itália é o berço das artes. Não é preciso citar os gênios da pintura, da escultura, da música e, enfim, de todas as formas de arte que a Itália legou ao mundo no correr dos tempos. Pois foi assim também com o futebol de um clube nascido não na Itália, mas pelas mãos de homens que de lá vieram ou lá tinham raízes. Seu primeiro nome era Palestra, denominação, na Itália, de locais destinados à prática esportiva.

Pois foi o Cruzeiro Esporte Clube, sucessor do Palestra, que encantou a torcida com o que se convencionou chamar futebol-arte.

Meninos, eu vi. Vi o nascimento daquele futebol classe AAA do Cruzeiro na divisão A do campeonato brasileiro. Foi quando comecei a torcer, motivado por aqueles jovens atletas que exibiam um futebol alegre, bonito, verdadeiramente artístico. Foi mesmo naquele tempo que entrou para o vocabulário esportivo a expressão futebol-arte, definição mais que perfeita para o que se via naquele time quando entrava em campo.

Sim, era pura arte a variedade de dribles do baixinho, veloz e desconcertante Dirceu Lopes, que só era parado no abraço de urso ou no puxão de camisa pelo adversário atônico e impotente. Dirceu passava de passagem pelo marcador, que não tinha outro recurso senão agarrá-lo. Como naquela época não havia cartão amarelo, ficava por isso mesmo, como se fosse uma faltazinha qualquer. Eram incontáveis as vezes em que o Dirceu era parado dessa forma durante uma partida.

Também era pura arte cada passe preciso do Tostão, que enxergava o campo todo com uma visão periscópica aparentemente impossível para os olhos humanos. Tostão nunca dava um toque infrutífero na bola, tudo era previamente elaborado na sua mente, que parecia formada desde tenra idade para lidar com a bola de futebol.

Sim, amigos, havia arte pura na elegância do volante Zé Carlos, que jogava sempre de cabeça erguida, sem precisar olhar para a bola. Ela era nos seus pés um dócil animalzinho de estimação a seguir-lhe fielmente os passos por onde fosse.

Também não dá pra esquecer a arte de fazer gols do centroavante Evaldo, sempre bem colocado na área, aonde chegava inesperadamente para receber os cruzamentos do Hilton Oliveira, outro craque de incrível velocidade e raríssima eficiência na ponta-esquerda. Na outra ponta brilhava o craque Natal, igualmente veloz nas arrancadas para o gol.

Não era senão arte a agilidade do goleiro Raul, que agarrava bolas impossíveis no chão e no ar. Dava a impressão de que a camisa amarela hipnotizava a bola de tal forma que ela não conseguia livrar-se da tentação de agasalhar-se nos braços daquele moço alto e alourado.

Outro que jogava com arte, brincando com a bola e com o adversário, era o atacante Joãozinho, exímio driblador e ambidestro. Um Garrincha de pernas certas a serviço do timaço do Cruzeiro.

É preciso dizer também que era artística a maneira leal e eficiente com que o volante Wilson Piazza desarmava os adversários. Tomava-lhes a bola com uma facilidade que parecia ensaiada horas a fio e entregava-a redondinha aos companheiros do meio-campo, onde nasciam as jogadas mortais de ataque. E que dizer da arte de bater na bola pelo lateral Nelinho?

Estou lembrando esses jogadores e esse tempo longínquo pra dizer que ninguém, nem eu nem você, meu caro amigo e minha amantíssima amiga, ninguém podia imaginar que o Cruzeiro, praticante de um futebol quase sempre classe A, pudesse descer ao nível B de hoje, e o pior, a caminho da letra C.

De repente, lá se foi a arte que a Itália, a terra das artes, emprestara ao futebol. Hoje, foi-se a arte do clube, levada à morte por um grupo de meliantes mercenários que em vez de amar os Beatles, os Rolling Stones e especialmente Leonardo da Vinci, Verdi e Botticelli, eram devotos do dinheiro e graduados na arte da corrupção.

Essa triste realidade me faz lembrar o jornalista atleticano Jadir Barroso, meu saudoso e queridíssimo irmão. Era tão atleticano o Jadir que se recusava a dizer o nome Cruzeiro. Para ele, era "o finado Palestra". Se ainda vivesse hoje, ele poderia dizer, sem ironia, "o finado Cruzeiro".

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor



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