Coronavírus

15/10/2020 | domtotal.com

Preocupados com segunda onda de casos de Covid-19, países europeus impõem restrições mais duras

Nos Estados Unidos, 39 dos 50 estados já registram alta nos casos de Covid-19

Funcionários de bar em Belfast, na Irlanda do Norte, usam equipamento de proteção contra a Covid-19 enquanto servem clientes
Funcionários de bar em Belfast, na Irlanda do Norte, usam equipamento de proteção contra a Covid-19 enquanto servem clientes (Paul Faith/AFP)

O governo autônomo da Irlanda do Norte anunciou nesta quarta-feira (14) as restrições mais duras impostas atualmente em todo o Reino Unido contra o coronavírus, no momento em que aumenta a pressão sobre o primeiro-ministro, Boris Johnson, para que aplique um novo confinamento, que, segundo ele, seria um "desastre".

"É preciso uma intervenção urgente para interromper a propagação do vírus e evitar que a situação se agrave", afirmou a chefe de governo, Arlene Foster, ao anunciar no Parlamento regional as novas medidas que entrarão em vigor na sexta-feira (16) durante quatro semanas.

Com 1,9 milhão de habitantes, a Irlanda do Norte registrou mais de 800 novos casos diários na última semana.

Junto à atual proibição de reunir-se em ambientes internos com familiares e amigos com quem não se conviva, todos os bares e restaurantes fecharão ao público, mas poderão vender refeições para levar até 23h.

Além dos bares e restaurantes, barbearias, salões de beleza e massagem também terão que fechar, exceto para "intervenções terapêuticas essenciais". E "viagens desnecessárias" não são recomendadas.

Os comércios permanecerão abertos, mas tomarão medidas para "garantir que o setor faça todo o possível para suprimir o vírus" e não poderão vender álcool após 20h, destacou Foster.

Todos deverão voltar ao teletrabalho, a menos que seja impossível, e as universidades foram solicitadas a darem suas aulas online. Na educação primária e secundária, as férias de outubro serão estendidas de uma a duas semanas, até 1o de novembro.

Enquanto isso na Inglaterra, apenas a cidade de Liverpool e seus arredores – com 600 casos de Covid-19 por 100 mil habitantes – entraram nesta quarta-feira em um nível "muito alto" de alerta, com o fechamento de pubs e bares.

"Tem que começar por algum lugar", disse à reportagem um morador de Liverpool, Tony King, considerando que "todas as cidades acabarão fazendo o mesmo". "É uma reação muito exagerada", criticou por sua vez Lynn Curtis, uma aposentada que denunciou essas "medidas drásticas".

Em todo o Reino Unido, o número de mortos por Covid-19 já supera os 43 mil, mais do que qualquer outro país da Europa, e os casos disparam: na terça-feira, foram registrados mais de 17 mil.

Neste contexto, Johnson, que tenta a qualquer custo evitar um novo confinamento nacional de catastróficas consequências econômicas, recebeu críticas do líder da oposição, o trabalhista Kier Starmer, chamando-o a aplicar restrições mais rígidas por ao menos duas semanas em outubro para "quebrar o circuito" dos contágios.

Mas o primeiro-ministro garantiu na Câmara dos Comuns que isso seria um "desastre". "Não queremos fazer isso, queremos uma abordagem local", afirmou, embora tenha dito que "não descartaremos nada, é claro, na luta contra o vírus".

Londres

Os nove milhões de habitantes de Londres não poderão se reunir com parentes e amigos em espaços fechados, anunciou nesta quinta-feira (15) o prefeito da cidade, Sadiq Khan, que espera que o governo britânico aumente o nível de alerta na capital contra o coronavírus.

"É minha expectativa que o governo anuncie hoje que Londres em breve entrará no nível dois ou nível de alerta alto de restrições", afirmou o trabalhista Sadiq Khan na Assembleia Municipal. O ministro da Saúde, Matt Hancock, deve discursar nesta quinta-feira no Parlamento.

"Isto significa que pessoas que moram em diferentes casas de Londres não poderão se reunir em locais fechados", explicou o prefeito.

O número de contágios no Reino Unido aumentou rapidamente nos últimos dias, com quase 20 mil contágios a cada 24 horas.

O primeiro-ministro britânico, o conservador Boris Johnson, anunciou na segunda-feira (12) um novo sistema de alerta em três níveis – médio, alto e muito alto – que estabelece o tipo de restrições mínimas a aplicar. Londres estava até agora no nível médio, com a proibição de reuniões com mais de seis pessoas e o fechamento de bares e restaurantes às 22h.

Mas o prefeito considerou esta semana que a situação na capital da Inglaterra exigia medidas mais drásticas. "Em breve vamos alcançar a média de 100 casos para cada 100 mil londrinos, com um número significativo de distritos que já superaram esta barreira", afirmou Sadiq Khan.

"As internações nos hospitais aumentaram, mais pacientes vão para as para Unidades de Terapia Intensiva e, infelizmente, o número de londrinos que morrem a cada dia está aumentando novamente", acrescentou para justificar a decisão.

Toque de recolher na França

O presidente da França, Emmanuel Macron, decretou nesta quarta-feira (14) um toque de recolher noturno em nove cidades do país, incluindo Paris, por pelo menos um mês, para conter um novo aumento do número de casos de coronavírus. A medida, que vale a partir desta quinta (15), deverá afetar quase um terço dos 67 milhões de franceses.

"A situação é preocupante, mas não está fora de controle. Estamos vivendo uma segunda onda que está afetando toda a Europa", disse Macron, em entrevista na TV, algumas horas depois de o governo decretar estado de emergência sanitária em todo o país. "O toque de recolher durará quatro semanas e iremos ao Parlamento para prorrogá-lo até 1º de dezembro. Seis semanas é o tempo que acreditamos ser necessário." 

O toque de recolher será aplicado entre as 21 horas e as 6 horas e entrará em vigor a partir de quinta de acordo com Macron. As pessoas que não cumprirem a medida receberão multa de 135 euros (cerca de R$ 887). "Devemos agir, pois a situação é preocupante" disse o presidente francês. 

Além de Paris, a medida se aplicará a Lille, Grenoble, Lyon, Marselha, Montpellier, Rouen, Toulouse e Saint-Etienne. Segundo Macron, as pessoas sob o toque de recolher devem esquecer visitas noturnas a restaurantes ou casas de amigos. 

Durante o dia, segundo ele, a vida dos franceses não mudará. "Continuaremos trabalhando, nossa economia precisa disso, nós precisamos, nossos filhos continuarão a ir para a escola", explicou Macron. Também não haverá restrições de movimento dentro da França.

O Ministério da Saúde da França anunciou ontem 22.950 novos casos de coronavírus nas últimas 24 horas – quase o dobro do que foi registrado na terça-feira (13). De acordo com o governo, 32% dos leitos de terapia intensiva do país estão ocupados por pacientes com Covid. 

Ontem, Macron disse que o objetivo das medidas é reduzir o número de novas infecções para entre 3 mil e 5 mil por dia, e alertou que o país terá de conviver com o vírus até o próximo verão (junho de 2021). "Nós temos de agir", afirmou o presidente. "Precisamos frear a propagação do vírus. Temos de reduzir o número de contatos sociais e eventos festivos que estão acontecendo. Isso exigirá um grande esforço de todos, mas é necessário." 

Um lockdown total em todo o país seria "desproporcional", segundo Macron, que tenta evitar o colapso da economia. A ajuda do governo, de acordo com ele, estaria novamente disponível para empresários e trabalhadores dos setores mais afetados, como turismo e entretenimento.

Em outra medida anunciada pelo presidente, as reuniões familiares não deverão ter mais do que seis pessoas ao redor da mesa, a não ser que sejam integrantes imediatos da família. Na ata da reunião do Conselho de Ministros consta que "o aumento do número de casos justifica que o estado de emergência sanitária seja declarado, para que possam ser tomadas medidas estritamente proporcionais aos riscos para a saúde incorridos e adequadas às circunstâncias de tempo e local". 

O estado de emergência fornece um marco jurídico para que as autoridades francesas adotem certas restrições de combate à pandemia, como o confinamento nacional, decretado do início do ano, e as medidas anunciadas ontem por Mácron. 

A França é um dos países europeus mais atingidos pelo coronavírus, com cerca de 33 mil mortes. O número de infecções aumentou de forma constante nas últimas semanas, especialmente desde o retorno das férias de verão. 

Portugal decreta calamidade

O governo de Portugal decretou ontem estado de calamidade em razão do aumento dos casos de Covid-19. A medida passará a valer a partir da meia-noite desta quinta (15) (20 horas, no horário de Brasília). As autoridades anunciaram também que enviarão uma projeto de lei ao Parlamento que obriga o uso de máscara em vias públicas e a utilização de um aplicativo para rastrear contatos de pessoas contaminadas. 

O total de diagnósticos diários tem aumentado todos os dias e ontem atingiu seu recorde desde o início da pandemia, com 2.072 novas infecções – na semana passada, esse número não passou de 1,4 mil. No total, o país, que tem 10 milhões de habitantes, já registrou 91.193 casos confirmados e 2.117 mortes. 

Pelas novas regras, celebrações como casamentos e batismos poderão ter a participação de, no máximo, 50 pessoas, que deverão respeitar as diretrizes de distanciamento social. Em entrevista, na semana passada, a diretora-geral de saúde, Graça Freitas, disse que esse tipo de evento é o responsável por quase 70% dos casos reportados nos últimos dias. 

Ainda conforme o governo, não serão permitidas reuniões de outros tipos com mais de cinco pessoas – o limite anterior era dez. Festas universitárias – como calouradas, chopadas e trotes – estão vetadas. "Podemos qualificar a evolução da pandemia no nosso país como grave", disse o primeiro-ministro português, António Costa. "Portugal não é exceção", afirmou, ao falar do agravamento da pandemia em toda Europa.

Costa disse também que a polícia e as autoridades sanitárias intensificarão fiscalizações em espaços públicos, empresas e restaurantes. Quem descumprir as novas regras poderá receber multas de até 10 mil euros (cerca de R$ 65 mil). 

Segundo o premiê, as propostas para uso obrigatório de máscara e do aplicativo para rastreamento de contatos devem ser enviadas ao Parlamento em regime de urgência. Ele disse ainda que o aplicativo que será desenvolvido pelo governo deve ser usado, em princípio, por empresas, estudantes, membros das forças de segurança e pelas Forças Armadas.

Estados Unidos

Trinta e nove dos 50 estados americanos (78%) registram alta nos casos de Covid-19, nos níveis mais altos desde agosto. Os novos contágios têm aumentado com a chegada do frio, principalmente no nordeste e Meio-Oeste. Ao mesmo tempo, para aliviar a pressão sobre Donald Trump, a Casa Branca discute a liberação das atividades para que o país consiga imunidade de rebanho, método considerado arriscado e de eficácia questionável pela comunidade científica. 

De acordo com dados do Covid Tracking Project, um banco de dados colaborativo, o total de novos casos saltaram 21% em 14 dias e, na terça-feira (13), chegaram a 54.512 em 24 horas. As internações pela doença também não param de subir nos EUA. Segundo a plataforma, 36.051 pessoas deram entrada em hospitais americanos com Covid-19 na noite de terça-feira, o maior número desde 29 de agosto. 

Mesmo com os testes sendo insuficientes em grande parte do país, pelo menos 16 estados contabilizaram recorde de novos casos na última semana. Em Wisconsin, onde estão 10 das 20 áreas metropolitanas com as taxas mais altas de casos recentes, as equipes estão preparando um hospital de campanha em um parque de exposições nos arredores de Milwaukee. 

"Embora estejamos esperançosos de poder achatar a curva o suficiente para nunca ter de usar as instalações, os moradores de Wisconsin estão com medo", escreveu o governador democrata Tony Evers, aos líderes do Congresso estadual. 

Os números em alta colocam a campanha à reeleição do presidente contra a parede. Em comícios pelo país a fora, Trump vem dizendo que os EUA estão prestes a derrotar o vírus. Por isso, o governo busca uma nova estratégia em tempo de vencer a eleição de novembro.

Na segunda-feira (12), a Casa Branca recebeu cientistas que defendem que o vírus deve se espalhar a "taxas naturais". Os especialistas tiveram uma audiência com o secretário de Saúde, Alex Azar, e com o neurorradiologista Scott Atlas, que tem se tornado um importante conselheiro de Trump. 

O presidente tem mostrado irritação com os prejuízos econômicos das paralisações e pressiona os Estados a voltar à normalidade - ele até ameaçou bloquear verbas federais para quem não reabrissem as escolas. Por isso, a imunidade de rebanho parece a estratégia mais fácil. Para assessores do presidente, a ideia apenas corrobora o que o presidente vem defendendo desde o início da pandemia. 

"Não estamos endossando estratégia nenhuma. A estratégia é que está endossando a política adotada pelo presidente há meses. A ideia é proteger os vulneráveis, evitar a superlotação dos hospitais e abrir escolas e empresas. E ele (Trump) foi muito claro sobre isso", disse um assessor da Casa Branca citado pelo Washington Post.

Ao abraçar a tese da imunidade de rebanho, Trump tem se afastado dos conselhos dos principais médicos de seu próprio governo, como a coordenadora da força-tarefa do coronavírus, Deborah Birx e Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas. 

Atlas, o médico favorito de Trump, nega que o governo americano esteja buscando a imunidade de rebanho. No entanto, na época em que era comentarista da Fox News, ele defendeu a reabertura da economia para combater os efeitos negativos da quarentena, como o aumento de casos de depressão e suicídios. 

Segundo modelos estatísticos da Organização Mundial de Saúde e do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), para que os EUA atinjam a imunidade de rebanho teriam de registrar 213 milhões de infectados, o que significaria cerca de 1,3 milhão de mortos. 

Além disso, segundo a médica Leana Wen, da Universidade George Washington, a estratégia de imunidade de rebanho só funcionaria se as pessoas não puderem ser infectadas de novo, o que não é certo. "Não sabemos se podemos alcançar uma imunidade duradoura. Provavelmente, não", disse. "E mesmo que pudéssemos, seriam necessárias centenas de milhões de infecções e milhões de mortes evitáveis. Esse não pode ser o preço."


AFP/Agência Estado/Dom Total



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