Cultura

18/10/2020 | domtotal.com

Pablo Heras-Casado, o maestro espanhol que explora e 'restaura' a obra de Beethoven

Ele comanda nesta segunda (19) um concerto de caridade contra a pobreza infantil na Espanha

O repertório de Pablo Heras-Casado vai do barroco à música de vanguarda, mas sua maior fraqueza se chama Ludwig van Beethoven, nascido há 250 anos
O repertório de Pablo Heras-Casado vai do barroco à música de vanguarda, mas sua maior fraqueza se chama Ludwig van Beethoven, nascido há 250 anos (Gabriel BouysAFP)

A música clássica está fadada a se repetir? Nem um pouco, e menos ainda no caso de Beethoven, diz Pablo Heras-Casado, o maestro espanhol com maior projeção do momento e um apaixonado explorador da obra do alemão, cujo 250º aniversário de nascimento é comemorado este ano.

Com quase 43 anos, Heras-Casado dirige há mais de duas décadas os palcos de maior prestígio da Europa e dos Estados Unidos. No dia 25 de outubro fará sua estreia no Scala de Milão com obras de Wagner, Prokofiev e Schönberg.

À espera deste novo desafio, que aguarda com "grande entusiasmo", reflete sobre a sua procura da originalidade numa entrevista no Teatro Real de Madri, onde é o principal maestro convidado. "Perpetuar uma tradição sobre a qual não se pensou nem se refletiu é a morte da arte e um sinal de preguiça intelectual", afirma.

Seu repertório vai do barroco à música de vanguarda, mas sua maior fraqueza se chama Ludwig van Beethoven, nascido há 250 anos: "ele me acompanhou ao longo da minha vida", sorri.

Apoiado em elaborado arcabouço teórico, Heras-Casado vem aplicando com o compositor de Bonn a chamada abordagem historicista: interpretar suas obras com instrumentos da época, e com uma leitura anexada à partitura original, que dispensa a "pátina" dos cânones herdados de alguns maestros importantes do século 20.

A diferença para o ouvinte, em comparação com uma orquestra sinfônica moderna, é perceptível.

Nos séculos 18 e 19, as cordas de violinos, violas e violoncelos não eram metálicas como são agora, mas baseadas em tripas de porco, que produzem um som menos potente e forçam uma execução um pouco mais rápida da partitura. O som dos metais também muda: menos incisivo e mais amplo.

"Em teoria, têm possibilidades mais limitadas" esses instrumentos, usados nas orquestras barrocas atuais, ressalta. Mas se deixarmos "a música falar (...) surge algo muito mais inovador" do que o "molde" com que muitas vezes se ouve e se repete o repertório clássico em auditórios e conservatórios de música.

"Quando se sabe algo mais sobre a verdade, sobre a essência da arte de um compositor, ninguém pensaria em cobri-la com uma dose de lugares comuns", defende Heras-Casado, convencido de que em cada interpretação se deve "tentar oferecer a possibilidade de voltar a ouvir uma obra".

Beethoven, clássico e atual

O maestro espanhol passou uma década trabalhando nesta forma de interpretar com a Orquestra Barroca de Friburgo, especializada neste prisma historicista que até há poucos anos padeceu de um certo esnobismo por parte do público e de alguns críticos.

Com esta formação, acaba de gravar para a gravadora Harmonia Mundi uma série de obras emblemáticas de Beethoven: os cinco concertos para piano e orquestra, a 9ª sinfonia e o triplo concerto para violino, violoncelo e piano.

Um autor, o alemão, de grande atualidade, pois afirma Heras-Casado que foi "o primeiro compositor moderno por sua atitude pessoal", e por "não querer pertencer a uma ordem estabelecida", como demonstrou ao riscar a dedicatória a Napoleão da 3ª Sinfonia, após proclamar-se imperador da França.

Originalmente, nada predispôs este andaluz de Granada a tal carreira. Ele cresceu em uma família estrangeira à música clássica e começou cantando no coro de sua escola.

Mais tarde, viriam os estudos de piano e depois regência, com professores como o pianista e maestro de origem argentina Daniel Barenboim – "uma grande mente" –, e o compositor e maestro francês Pierre Boulez (1925-2016), um "iconoclasta" que incutiu nele "fidelidade à partitura".

Até o momento, regeu orquestras de prestígio, como a Filarmônica de Munique, a Filarmônica de Viena, a Staatskapelle de Berlim e as sinfônicas de Boston, Chicago e São Francisco.

No Teatro Real de Madri em 2021 continuará com Siegfried a tetralogia wagneriana do Anel Nibelung, uma comissão operística de 16 horas de música no total que define como "um dos projetos mais emocionantes de [sua] carreira".

Seu compromisso mais imediato, também no Real e com 50% da capacidade, será nesta segunda-feira (19). Será um concerto de caridade contra a pobreza infantil na Espanha, patrocinado pela ONG "Ayuda en Acción", da qual é embaixador, e no qual espera ver um grande público, porque nestes tempos de ansiedade pandêmica "todos precisamos como sociedade".

Ele comandará, de Beethoven, a Sétima Sinfonia e a Abertura de Coriolano.


AFP



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