Religião

15/10/2020 | domtotal.com

Educar: ato político

O professor luta contra todas as formas de alienação e desumanização: pobreza, violência, analfabetismo, discriminações, machismo, misoginia, alienação

O professor é um agente estratégico para a sociedade
O professor é um agente estratégico para a sociedade (Pixabay)

Élio Gasda*

Transmissor de conhecimentos, engenheiro do pensamento, agente de formação da consciência, indutor de mudanças sociais, professor: um profissional não reconhecido!

Qual a importância do professor? Como seria o mundo sem ele? Poucas pessoas produzem tanto impacto na sociedade quanto o professor. A escola não é um depósito de textos inertes ou somente lugar de aprendizado de conteúdo. É uma comunidade de interação e de vivências coletivas. A escola é uma instituição cultural.

Professor é sinônimo de cultura. A palavra “cultura” remete aos modos de pensar, de ser e se comportar de uma comunidade, sua maneira de ver o mundo. Não se reduz a soma de conhecimentos, mas a um conjunto de saberes que constituem a formação da consciência. A escola fornece visões novas da vida. Cabe aos professores a tarefa de ajudar aos mais jovens, a interpretar, criticar e contextualizar as visões de mundo e os modelos de sociedade.

Estamos mergulhados na cultura do cotidiano: programas escolares, organização da escola, os funcionários, alunos e professores, cada pessoa de uma região, com culturas e experiências diferentes. Nestes tempos de pandemia as tecnologias digitais possibilitaram a conexão entre professores, alunos e o mundo do aprendizado. Os mestres aceitaram o desafio, se mobilizaram e se reinventaram. Entretanto, a tecnologia, ainda que poderosa ferramenta no processo pedagógico, não substitui o papel do professor.

A cultura é uma construção humana sempre inacabada, com os outros e com o mundo. Ensinar exige estratégia, planejamento, habilidade, imaginação, astúcia, talento, ousadia, erudição, destreza e outras tantas qualidades humanas. A atividade docente é altamente complexa. Não existem fórmulas mágicas no processo pedagógico.

O professor recebeu do estado e da sociedade o mandato e o direto de assumir, para com as gerações mais jovens, o trabalho de difusão da cultura. A importância deste mandato pode representar grande ameaça aos interesses econômicos, políticos e ideológicos dos poderes dominantes. Nenhum grupo estende, pelo menos pacificamente, sua visão de mundo a toda a sociedade sem o trabalho dos professores.

O professor é um agente estratégico para a sociedade. Sua tarefa é ético-social. Suas características – analisar, criticar, verificar – o tornam mais autônomo e menos sujeito à manipulação do sistema ou do governo. O professor luta contra todas as formas de alienação e desumanização: pobreza, violência, analfabetismo, discriminações, machismo, misoginia, alienação.

Traduzir, interpretar e transmitir é um ato político. Ensinar e aprender é um ato político.

O professor não é apenas transmissor de cultura herdada da família e da comunidade. Em virtude de sua formação, e o acesso ao patrimônio cultural de outras civilizações, da humanidade, permite-lhe examinar sua cultura com visão crítica. Seu papel é tornar o jovem um cidadão consciente de sua herança cultural e de respeito em relação às outras.

Assim, esse intelectual forma os jovens situando seu universo cultural na longa evolução da humanidade. A herança não pode tornar-se um peso morto, mas sim desenvolvimento da consciência crítica. A crítica é o exercício de uma consciência engajada no mundo, capaz de distinguir a verdade da mentira, o justo da injustiça, a solidariedade do egoísmo.

Ser intelectual não é uma escolha, mas uma obrigação do professor. O conhecimento, as regras sociais, as formas de pensar e de ser de hoje e do passado não são compreendidas sem esforço de interpretação. Os professores são intelectuais depositários de uma herança com a responsabilidade de colocá-la ao alcance das novas gerações.

O Brasil atravessa um deserto cultural. “Não há nada mais desolador que a ignorância em ação” (Goethe). Quando os professores são tratados como inimigos do governo é porque este governo já virou inimigo da educação. O cenário é tão tenebroso que poucos poderiam, no pior dos pesadelos, imaginar. É bizarro perseguir professores para confortar a indigência intelectual e moral de um governante.

O professor é um intelectual, um pensador da Educação. “O intelectual existe para criar desconforto. Ele tem que ser forte o bastante para exercer esse papel. Não há país mais necessitado de intelectuais do que o Brasil” (Milton Santos).

Quem governa o Brasil não sabe o que é uma sala de aula, menos ainda o que é cultura. Em uma sociedade que idolatra ignorantes, ser professor é ser revolucionário. Professor não tem tempo de ter medo. Trabalha sonhando que um dia a cultura ocupará o centro do fazer político.

Somente o conhecimento libertador pode levar homens e mulheres à liberdade (Paulo Freire).

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de: 'Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja' (Paulinas, 2001); 'Cristianismo e economia' (Paulinas, 2016)



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