Brasil

16/10/2020 | domtotal.com

Querida, encolhi o dinheiro

Ter, sempre teve. E pode até sobrar

Dinheiro e recursos sempre existiram. O que mais faz falta é vergonha na cara
Dinheiro e recursos sempre existiram. O que mais faz falta é vergonha na cara (Pixabay)

Fernando Fabbrini*

Caros leitores: pensem num país tropical imenso, abençoado por Deus, onde quase 14 milhões de pessoas vivessem na linha da pobreza. O estranho é que o país imaginado não era propriamente uma nação desprovida de recursos, muito pelo contrário. Indústria, comércio, agricultura, serviços – tudo funcionava em horizontes crescentes e promissores. O estado arrecadava fortunas em impostos para serem revertidos – como manda a Constituição – em favor dos habitantes: saúde, educação, infraestrutura, bem-estar social. Só que essa dinheirama não chegava para as contas, estava sempre em falta. Por que seria?

Pouco a pouco, foram descobrindo os motivos. Ao gastar o dinheiro que pertencia ao povo, os dirigentes do país destinavam o tutu para certos fins esquisitos, ocultos e até inexplicáveis. Vejam este exemplo: a entidade responsável pelo apoio aos habitantes primitivos daquele rincão – denominados indígenas – dispunha de uma frota de aeronaves para deslocamento no vasto e inóspito território coberto por florestas. Infelizmente, várias dessas aeronaves – sucateadas, pirateadas, malcuidadas, usadas para outros fins – jaziam em hangares abandonados, à espera de leilão. O aluguel de certo hangar exigia dos cofres públicos um desembolso em torno de R$ 1 milhão por mês. Já a aeronave ali abrigada, caindo ao pedaços, com muita sorte seria arrematada por um lance de, no máximo, R$ 100 mil.  

A Fórmula 1 é um esporte fascinante, mas é caro pra caramba. A manutenção de uma equipe – carros, técnicos, combustível, equipamentos – vem, é lógico, dos patrocinadores. São rios de dinheiro consumidos a cada prova; fortunas viram fumaça e borracha gasta no asfalto, num piscar de olhos. Mesmo assim, os governantes de tal país citado resolveram entrar na brincadeira. Através de uma de suas estatais e de uma agência de propaganda, firmaram um contrato com uma equipe no valor de R$ 750 milhões por cinco anos. O acordo dava direito ao país de exibir sua bandeira nacional nas medidas de 10 X 6 centímetros nos capacetes dos pilotos da famosa scuderia. Só isso. Que legal, hein? Na verdade, o símbolo magno da pátria disputava espaço e visibilidade com uma dúzia de outras logomarcas fixadas no mesmo capacete – lubrificantes, bancos, cervejas, companhias aéreas - mas tudo bem. No país faltavam estradas, transporte decente, ruas limpas. Porém, ficou chique nas pistas, dava orgulho ver a bandeirinha ali e os governantes achavam que fazia muita diferença para a vida dos cidadãos.

Outro caso. Descobriram recentemente que tal país contava com o apoio de milhares de consultores; gente engravatada que falava bonito, especializada em arrumar jeitinhos de arrancar dinheiro do tesouro nacional através de propostas variadas. Uma dessas ideias envolvia o estabelecimento de um escritório numa pequena e inexpressiva cidade do interior de certa nação europeia, com grande equipe de funcionários, para “divulgar o nome do país e sua cultura no exterior”. Valor da ideia brilhante: R$ 5 milhões todo mês – o que daria de sobra para socorrer as Embaixadas e Consulados que já têm a mesma função e andam pendurados nas dívidas.

Pois é. Como os valores acima foram expressos na moeda corrente, é claro que estamos falando do nosso Brasil mesmo. São apenas três episódios cujas gastanças acabam de ser interrompidas; contratos, tretas e arranjos cancelados com votos de “vão caçar outra mamata, o dinheiro sumiu”.

Dinheiro e recursos sempre existiram. O que mais faz falta é vergonha na cara. O que sempre sobrou foi cara-de-pau, roubalheira e desfaçatez.

Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.



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