Coronavírus

16/10/2020 | domtotal.com

Cientistas lançam carta aberta alertando para os riscos da ideia de imunidade de rebanho

Documento assinado por 80 autoridades critica a 'miragem perigosa' dessa estratégia

Pedestres, alguns com máscara, caminham por rua comercial em Bordeaux, na França
Pedestres, alguns com máscara, caminham por rua comercial em Bordeaux, na França (PhilippeLopez/AFP)

A ideia de deixar o vírus da Covid-19 circular livremente para alcançar a imunidade coletiva tem sido cogitada desde o início da pandemia. Trata-se de permitir que uma determinada proporção da população se infecte com o vírus, de modo que a pandemia cesse por conta própria, na ausência de novas pessoas para infectar.

No entanto, cientistas estão preocupados com o resgate da ideia de que a chamada imunidade de rebanho seja renovada, em um momento de virada para a evolução das contaminações em todo o mundo. É "um erro", responderam 80 cientistas em uma carta aberta publicada na revista médica The Lancet.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula que, na maioria dos países, 10% da população pode ter-se contagiado com a Covid-19 (ou Sars-CoV-2). A imunidade coletiva, no entanto, só é alcançada com a contaminação de cerca de 70% da população, embora há estudos que apostem em algo em torno de 30% ou 40%. 

Nesta semana, a OMS deixou claro esta semana: "Nunca, na história da saúde pública, a imunidade coletiva foi utilizada como estratégia para responder a uma epidemia, muito menos a uma pandemia. É problemático do ponto de vista científico e ético", disse seu diretor-geral, Tedros Adhanom Ghebreyesus. "Deixar um vírus perigoso livre, do qual muitas coisas nos escapam, é simplesmente contrário à ética. Não é uma opção", insistiu.

Depois de meses de emergência na saúde, Frédéric Altare, especialista em imunidade do Instituto Nacional da Saúde e da Pesquisa Médica da França afirma que "estamos muito, muito longe" de atingir esse limite.

Portanto, bilhões de pessoas ainda podem se infectar com esse vírus, mais letal e contagioso que a gripe e para o qual ainda não existe nenhuma vacina. Em maio, a OMS alertou que os países favoráveis a perseguir a imunidade coletiva se envolveriam em "um cálculo muito perigoso". O presidente Donald Trump defendeu essa ideia com frequência, como de costume, sem apresentar evidências científicas.

Neste mês, um grupo de cientistas lançou o apelo "The Great Barrington Declaration", a favor de deixar que o vírus circule entre os jovens com boa saúde - e, portanto, suscetíveis a não ficarem gravemente doentes -, para proteger os mais vulneráveis. O pedido foi apoiado pela Casa Branca, segundo a imprensa americana.

O principal benefício dessa estratégia seria evitar os danos econômicos, sociais e sanitários provocados pela pandemia, por não precisar decretar, por exemplo, novos confinamentos generalizados. "Uma transmissão incontrolável entre os mais jovens seria muito arriscado em termos de saúde e mortalidade para o conjunto da população", afirmam os signatários da carta, exemplificando com o risco de saturação dos sistemas de saúde.

Limite mínimo

A Suécia, que optou por não confinar sua população, nem fechar escolas, bares e restaurantes durante a primeira onda, registra uma mortalidade que a coloca entre os primeiros 15 países do mundo, em relação ao tamanho de sua população, segundo dados da Universidade Johns Hopkins.

Além disso, não se sabe quanto tempo dura a imunidade e há casos, embora raros, de reinfecção. "É possível que os anticorpos se reduzam com o tempo", lembrou na semana passada uma responsável da OMS, Maria van Kerkhove. "As reinfecções mostram que não podemos nos basear na imunidade adquirida pela infecção natural para alcançar a imunidade de rebanho", escreveu a doutora Akiko Iwasaki, especialista em imunidade da Universidade de Yale.

Alguns defensores da imunidade coletiva natural também argumentam que seu limite, estimado geralmente para um vírus entre 60% e 70% da população, seria na verdade menor, porque nem todo mundo contrai a Covid-19. Recentemente, foi descoberto que algumas pessoas já estão protegidas contra o SARS-CoV-2 quando se infectam, apesar de não terem estado em contato com ele anteriormente, segundo Frédéric Altare.

Em vez de anticorpos, essas pessoas desenvolvem uma imunidade celular, graças a um determinado tipo de glóbulos brancos. Ao "conhecer" outros agentes infecciosos semelhantes ao SARS-CoV-2, esses glóbulos identificam este último como um perigo e o atacam. "Isso significa que os dados que afirmam que entre 5% e 10% da população já poderia estar imunizada estão certamente subestimados, mas não sabemos até que ponto", continua Altare.

No entanto, mesmo levando-se em consideração todos os fatores relevantes, a porcentagem mínima necessária para alcançar a imunidade coletiva "seria de 50%" e, portanto, produziria um número considerável de mortes no caminho, acrescenta. Sendo assim, a imunidade coletiva deve passar por "vacinas seguras e eficazes", segundo a doutora Iwasaki.


AFP/Dom Total



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