Religião

16/10/2020 | domtotal.com

Grupo de mulheres 'candidatas' ao clero se surpreende com o enviado do Vaticano

Claire Conan-Vrinat, que se candidatou para ser diaconisa e que se encontrou com o arcebispo Celestino Migliore em 28 de setembro, conta que teve uma conversa foi 'ativa' e 'interessante'

Claire Conan-Vrinat, que se candidatou para ser diaconisa e que se encontrou com o arcebispo Celestino Migliore em 28 de setembro, conta que teve uma conversa foi 'ativa' e 'interessante'
Claire Conan-Vrinat, que se candidatou para ser diaconisa e que se encontrou com o arcebispo Celestino Migliore em 28 de setembro, conta que teve uma conversa foi 'ativa' e 'interessante' (Olivia Snow / Unsplash)

Elise Ann Allen*
Crux Now

Sete mulheres que recentemente entregaram seus currículos na embaixada do Vaticano na França para concorrer a postos eclesiais abertos apenas a homens ficaram chocadas, não só quando receberam uma resposta, mas também tiveram encontros privados individuais com o núncio do Vaticano no país, o arcebispo Celestino Migliore. Essas reuniões aconteceram entre 14 de setembro e 2 de outubro.

Várias mulheres saíram da conversa descrevendo-a não apenas como "cordial" e agradável, mas elogiando Migliore - um diplomata do Vaticano de longa data, que de 2002 a 2010 serviu como observador permanente do Vaticano nas Nações Unidas - como gentil, atencioso ouvinte e como alguém bem informado.

Claire Conan-Vrinat, que se candidatou para ser diaconisa e que se encontrou com Migliore em 28 de setembro, disse ao Crux que encontrou no núncio "uma mente aberta e uma escuta sincera às minhas observações e sugestões". Sem entrar em detalhes, Conan disse que a conversa "foi ativa, interessante" e até "espiritual".

Da mesma forma, Hélène Pichon, que se candidatou a ser embaixadora do Vaticano e se encontrou com Migliore em 1º de outubro, disse que o prelado foi "muito cortês e gentil" e foi "definitivamente muito, muito aberto e muito atencioso".

"Ele também fez sua pesquisa em termos de quem éramos individualmente", disse, lembrando como o cardeal a conhecia, através de um livro que Pichon escreveu e sabia, também, sobre seu trabalho como diretora de relações institucionais no Centro para Estudo e Prospectiva Estratégica (CEPS).

Tanto Pichon quanto Conan-Vrinat disseram que suas conversas, embora privadas, eram apenas o começo, e disse que Migliore indicou que poderia haver mais reuniões no futuro.

Essas reuniões foram a culminação de um processo iniciado em 25 de maio, quando uma mulher chamada Anne Soupa enviou à embaixada do Vaticano em Paris sua candidatura para ser a próxima arcebispa de Lyon, cargo que ficou vago desde a renúncia do cardeal Philippe Barbarain em março uma batalha legal em andamento para se livrar das acusações de encobrimento de abuso sexual.

Depois que Soupa enviou seu pedido, várias outras mulheres se juntaram à sua causa, formando uma coalizão chamada, Toutes Apôtres! [Todos somos Apóstolos], que se dedica a promover a igualdade na Igreja para todos os batizados, independentemente de seu sexo, estado civil, profissão ou orientação sexual.

Na festa de 22 de julho de Santa Maria Madalena, sete mulheres, entre as quais Pichon e Conan-Vrinat, que fazem parte da coalizão, apresentaram sua "candidatura" à nunciatura para ministérios atualmente abertos apenas para homens, incluindo o diaconato, o sacerdócio, o episcopado, o status de núncio do Vaticano e de pregadoras.

Algumas das mulheres em seus encontros com Migliore, incluindo Loan Rocher, uma mulher transgênero, defendeu os direitos LGBT, insistindo que essas pessoas são forçadas a viver "na periferia" do cristianismo. Outros desafiaram o sacerdócio exclusivamente masculino da Igreja Católica, enquanto outros ainda queriam apenas abrir a conversa sobre a criação de mais espaço para mulheres na liderança da Igreja.

Pichon, que disse ter sentido um chamado para se tornar diplomata do Vaticano quando tinha 14 anos, disse que era importante para ela ter "uma abordagem diplomática" ao pedido de mudança. "Em vez de implicar e tomar ações de confronto, demos passos muito pequenos e muito respeitosos", disse a candidata a embaixadora, "e isso funcionou".

Tendo crescido em uma família devota, Pichon estava profundamente envolvida em sua vida paroquial como acólita e frequentadora da missa diária. Pichon disse que desde muito jovem ficou fascinada pela história da Europa e queria ser diplomata, mas "não queria servir a um estado, porque sentia que as nações e os estados eram muito diminutos em comparação com o quadro mais amplo, que era o Príncipe da Paz, Jesus Cristo".

Quando descobriu a existência do corpo diplomático do Vaticano durante uma viagem a Roma aos 14 anos, Pichon disse que parecia que as estrelas estavam alinhadas e havia encontrado sua vocação, mas ficou desapontada quando seu pároco disse que não poderia se tornar uma diplomata do Vaticano "porque é uma menina".

"Eu olhei para ele e falei que não entendeu nada da mensagem de Jesus Cristo", disse Pichon, explicando que em sua conversa com Migliore, contou sua história e sentiu uma conexão "profunda" com o cardeal, porque os dois tiveram carreiras no trabalho diplomático.

Ela também expressou preocupação com a crise de abuso sexual da Igreja Católica, argumentando que muito disso poderia ter sido evitado se as mulheres estivessem mais envolvidas na liderança da Igreja.

"O que precisa ser feito é uma liderança com equilíbrio de gênero, esse é o caminho para erradicar o clericalismo", apontou, lembrando como disse a Migliore, que quando homens e mulheres compartilham responsabilidades, "você definitivamente vai além de todos os tipos de frustrações sexuais e até de tabus sexuais".

Conan-Vrinat disse durante sua conversa que expressou preocupação com os "limites" impostos às mulheres que desejam ser sacerdotes ou diáconos, mas não podem ser ordenadas. Enfatizou que não está pedindo a ordenação como uma "busca de poder", mas como uma questão de vocação.

Insistindo que sentiu um profundo chamado para se tornar uma diaconisa, Conan-Vrinat falou sobre a dificuldade desistir apenas por causa de seu sexo, perguntando "Qual é a minha escolha? O que devo fazer?".

A conversa deles sobre a ordenação de mulheres "levou a comentários clássicos sobre o fato de que Jesus teria chamado apenas homens", disse, lembrando como desafiou essa afirmação argumentando que Jesus "não escolheu criar um clero, muito menos um clero de homens". Já que havia várias mulheres entre seus seguidores.

"Eu entendo que abrir a ordenação para mulheres estaria em conflito com a tradição da Igreja", assinalou, explicando que, em sua opinião, a ordenação feminina também seria “uma primeira pedra” na luta contra o clericalismo.

Pichon também argumentou que a mudança para as mulheres poderia ajudar a conter a tendência de uma Igreja "moribunda", mesmo em países tradicionalmente católicos como a França, onde as igrejas estão cada vez mais vazias e algumas foram convertidas em restaurantes ou outras instalações.

Isso, como aponta Pichon, está cada vez mais "se tornando a norma. Então, consideramos os fatos, devemos refletir que se isso está acontecendo, é por um motivo? Nós somos a Igreja, então nós estamos deixando isso acontecer?". Seu encontro com Migliore, disse, foi um ponto de partida para "enterrar esta Igreja ou dar-lhe um segundo fôlego, um beijo à vida e À vocação".

Pichon e Conan-Vrinat disseram acreditar que o papa Francisco está indo na direção certa na questão das mulheres, mas insistiram que ainda há um longo caminho a percorrer antes que o trabalho termine.

"Acredito que o papa Francisco está dando o seu melhor para caminhar na direção da igualdade e inclusão das mulheres em papéis de liderança na Igreja", disse Conan-Vrinat, acrescentando, "eu mantenho a esperança de que minha fé é o primeiro passo... Mesmo que às vezes eu possa perder a esperança".

Pichon disse acreditar que a Igreja está avançando "porque estamos tentando nos mover em vez de não fazer nada e esperar que isso mude por não fazer nada". No entanto, disse que isso está sendo feito de acordo com uma mentalidade cultural que ainda precisa mudar.

"Até o papa, é apenas um ser humano, com seu cérebro moldado e determinado pelas circunstâncias socioeconômicas que moldaram sua existência", apontou, acrescentando, "acho que agora é hora de abrirmos todas as correntes, por assim dizer, e acho que nós, como batizadas, estamos tentando".

*Siga Elise Ann Allen no Twitter: @eliseannallen

Publicado originalmente em Crux Now.


Crux Now

Traduzido por Ramón Lara.



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