Religião

19/10/2020 | domtotal.com

A injustiça por detrás das coisas escondidas onde o sol ainda não bate

A insensatez ético-moral dos corruptos não afeta somente a eles próprios, mas potencializa a miséria causada pela injustiça, nos já injustiçados empobrecidos e empobrecidas

No Brasil, agentes públicos pegos surrupiando dinheiro não são uma novidade, infelizmente
No Brasil, agentes públicos pegos surrupiando dinheiro não são uma novidade, infelizmente (Edilson Rodrigues/Agência Senado)

Felipe Magalhães Francisco*

O profeta Isaías, ao lançar seu olhar sobre as injustiças sociais, foi bastante categórico ao trazer a compreensão que tinha sobre sua causa: a raiz delas e, em consequência, de todos os males que delas provêm, são a ganância e a cobiça (cf. Isaías 1,21-26). Este é um mal que se revela responsável pela ruptura do coração ("corrupção"), e ela está presente em todos os níveis: desde o indivíduo às grandes corporações e governos.

No Brasil, agentes públicos pegos surrupiando dinheiro não são uma novidade, infelizmente. Há aqueles que recebem valores ilícitos em malas; os que guardam o fruto apodrecido da corrupção nas meias e cueca; e, esta última semana, vimos do que o mau caratismo é capaz: esconder dinheiro entre as nádegas. Sabe-se lá Deus onde mais a criatividade perversa é capaz de descobrir como esconderijo!

O Evangelho de Marcos (cf. 4,22) coloca na boca de Jesus uma coisa interessante e importante: não há nada de oculto que não venha a se manifestar à luz do dia. A sabedoria de nosso povo diz a mesma coisa, mas em outras palavras: a mentira tem pernas curtas. O dito de Jesus está inserido num contexto sapiencial, o de uma sabedoria de quem observa a realidade cotidiana e, no caso específico, de quem tem uma ética nascida da fé. Jesus sabia que aquilo que era virtuoso não precisava ser feito às escondidas, afinal ninguém acende uma lâmpada para colocá-la debaixo da cama (cf. Marcos 4,21).

A sapiencialidade de Jesus, que traz a luz do dia como um símbolo-metáfora da clareza da verdade, fez-me recordar de outro sábio bíblico, de uns poucos séculos antes de Cristo: o Qohélet, autor do Livro do Eclesiastes. O realismo desse sábio é impressionante. Para ele, a sabedoria consiste em buscar observar e compreender tudo o que acontece debaixo do sol, isto é, tudo o que é possível e acessível à realidade humana. Ainda assim, insiste o Qohélet, essa sabedoria é vaidade, vento, efêmero. Isso porque, para ele, tudo é fugaz: "vaidade das vaidades, tudo é vaidade" (Ecl 1,2). Uma vida sábia, contudo, ainda é infinitamente preferível à estupidez e a uma vida sem sentido, porque a sabedoria diz respeito ao bem-viver.

O autor do Eclesiastes tem uma palavra sobre a riqueza: quem se apega a ela, corre atrás de vento e vive mal, pois apega-se aos seus próprios bens, sem deles poder usufruir (cf. Ecl 6,1-2). Ao senador, ao que tudo indica pego quase que literalmente com as calças nas mãos a esconder dinheiro que a ele não pertencia, e a todos os corruptos e corruptas, o Qohélet diria que são reféns da própria vaidade, pois são catadores de vento, prisioneiros da própria ambição: mesmo escondendo dinheiro naquele lugar onde o sol não bate - para fazer memória do eufemismo usado por minha bisavó - não possui nada.

À crítica sapiencial de Eclesiastes precisamos agregar àquela profética, de Isaías, à qual fizemos referência logo na primeira frase deste texto. Isso porque não basta suavizar a crítica, apenas demonstrando a pobreza existencial de quem se apega ao dinheiro. É preciso denunciar que a ganância e a cobiça trazem consequências sociais graves.

A insensatez ético-moral dos corruptos não afeta somente a eles próprios (isso, sobretudo, quando parte de agentes públicos), mas potencializa a miséria causada pela injustiça, nos já injustiçados empobrecidos e empobrecidas. E o profeta Isaías, leitor atento das injustiças sociais e de sua ultrajante causa, parece descrever o Brasil, na distância antecipada quase três milênios: "Teus chefes são corruptos, sócios de ladrões: todos gostam de um suborno, correm atrás de 'comissão', aos órfãos não fazem justiça e a causa das viúvas nem chega às suas mãos" (Isaías 1,23). Ai de nós, é o que, por hora, resta-nos dizer!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com



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