Cultura

18/10/2020 | domtotal.com

Calígula no Brasil: Quem o reconheceria hoje?

A peça teatral de Albert Camus revela-se uma chave de leitura para os nossos dias

Calígula vive diante de mentiras contadas ao ponto de poderem se tornar verdades em muitas consciências infantilizadas e anestesiadas
Calígula vive diante de mentiras contadas ao ponto de poderem se tornar verdades em muitas consciências infantilizadas e anestesiadas (Pawe? Furman / Unsplash)

André Luiz Boccato de Almeida e Cauê Ribeiro Fogaça*

O pensamento de Albert Camus (1913-1960) mostrou-se, ao longo deste ano, uma excelente chave de leitura para os nossos dias. Não é à toa que sua obra, A peste, no início da pandemia do novo coronavírus, tornou-se um dos livros mais lidos e vendidos na Europa e nas Américas. Parece que o absurdo, conceito central para ele, enquanto a incapacidade de atribuir um significado lógico às coisas, tomou conta de nossa realidade.

Dentre as obras do escritor franco-argelino Camus, Calígula, parte do chamado Ciclo do Absurdo, chama-nos a atenção ainda hoje. Trata-se de uma peça teatral, escrita em 1944, que retrata a vida duma corte aristocrata banal, preocupada com seus interesses mesquinhos, descolados da vida pública e popular. O imperador, Caio Calígula, desaparece. Muitas são as explicações que os moradores do palácio dão a este fato. Quando reaparece, após três dias, Calígula mostra-se cansado, todo enlameado e sujo, dizendo que foi difícil encontrar o que queria: a Lua. Mesmo sem conseguir essa façanha, tinha uma necessidade do impossível.

A imagem literária do homem que quer alcançar a Lua é a representação do absurdo: os homens buscam fora da própria vida algo que possa dar sentido a ela. Essa laboriosa tarefa de atribuição de sentido, contudo, é sempre fracassada, pois a Lua (ou a felicidade ou a imortalidade) está fora deste mundo, sempre longe do alcance humano. Este fracasso incessante faz parte da condição humana, pois como afirma o próprio Calígula "os homens morrem e não são felizes". A vida autêntica, então, é aquela que percebe a contradição inerente da própria vida e ainda assim é vivida!

A continuação da sua obra evidencia uma postura totalmente absurda de Calígula. Os homens da corte, assim descritos por Camus, vivem numa bolha palaciana e são incapazes de perceber os sofrimentos da vida. Esta aristocracia vive às custas dos impostos da população e desprezam os sofrimentos e o esforço hercúleo e infrutífero que todo ser humano faz para alcançar a felicidade para sua vida. Então, Calígula, sendo imperador que dispõe de liberdade absoluta e desmedida, usará de força bruta para fazer ressoar o sentido da vida autêntica em seus cortesãos.

O imperador instaura a crueldade de forma sistêmica e institucionalizada. Seu discurso despreza os demais ao afirmar a inutilidade dos habitantes do palácio. Diante do problema financeiro, ele confisca os bens dos nobres, obriga-os a assinar um testamento no qual seus bens, ao fim de suas vidas, passarão para o Estado e, a partir disso, organiza uma lista aleatória para executar as pessoas, a fim de receber seus bens e posses mais rapidamente. Impõe trabalho forçado, assassina impiedosamente, condicionando a vida dos palacianos ao seu humor matinal; exerce, enfim, um poder exagerado em nome do Estado.

A lógica do horror de Calígula é a consequência extrema da sua autoridade irrestrita e legalizada. O propósito de Calígula é que, através de suas severas imposições e vilipêndios, como slogan político, sobre o sentido da vida, os nobres conheçam a verdade - e, afinal ela os libertará? 

Ao finalizar sua peça, os cortesãos reagem às crueldades do imperador, armam-lhe sua morte, apunhalando-o. A cena final é trágica, na melhor acepção do termo. Calígula ri alto, depois soluça e imediatamente antes das cortinas se fecharem, no meio da confusão no palco, surge um voz forte dizendo "eu ainda estou vivo!".

Assim, o absurdo expresso em Calígula é marcado pela violência. Não é difícil olhar para o cenário político autoritário criado por Camus e identificar que, de fato, Calígula ainda vive quando se ouve discursos de governantes que beneficiam a economia em detrimento da vida humana. 

Quando, com palavreado chulo e desprezível, afirmam a inutilidade das pessoas, especialmente seus opositores; quando lançam mão de recursos de desinformação, guiados por uma lógica que pretende instaurar o caos e a conspiração como critérios de uma "reforma moral". 

Calígula vive diante de mentiras contadas ao ponto de poderem se tornar verdades em muitas consciências infantilizadas e anestesiadas. Enquanto a ação do Calígula descrito por Camus aplica sua lógica do horror com intenções pedagógicas, a versão tupiniquim do Calígula não é nem capaz de tal análise, afinal tudo que faz, deve ser resultado dum grave desatino.

*André Luiz Boccato de Almeida é doutor em teologia moral (Lateranense – Roma); Pós-Doutor em teologia (PUC-PR); Mestre em Teologia (PUC-SP); Especialista em Educação Sexual (UNISAL); Bacharel em Teologia (ANGELICUM/EDT); Licenciatura em Ciências Sociais (FAFICA); Psicanalista. É líder do grupo de pesquisas PHAES (Pessoa Humana, Antropologia, Ética e Sexualidade). Atualmente é professor na PUC-SP e na UNISAL (Pio XI). Seu e-mail: albalmeida@pucsp.br. Cauê Ribeiro Fogaça é bacharel em filosofia (São Bento – SP). Atualmente é graduando em teologia (PUC-SP) e bolsista do CNPq no Programa de Iniciação Científica da PUC-SP, onde analisa as relações entre o pensamento de Albert Camus e a Ética Cristã. Seu e-mail: cribeirofogaca@gmail.com



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