Religião

20/10/2020 | domtotal.com

É possível incluir a solidariedade nas relações feitas através das telas?

Embora essas ferramentas digitais não sejam inerentemente boas ou más, seu valor moral depende de como são usadas, tanto em termos de intenção e circunstâncias, quanto dos efeitos de seu uso

Nossos hábitos digitais ajudam a manifestar que somos todos membros de
Nossos hábitos digitais ajudam a manifestar que somos todos membros de "uma única família, morando em uma casa comum" (nº 17)? (Eddy Billard / Unsplash)

Marcus Mescher*
America Magazine

Na última encíclica, Fratelli Tutti, o papa Francisco nos exorta a nos comprometermos com a prática do amor universal na busca da solidariedade inclusiva e interdependente. Mesmo antes da pandemia, mas especialmente desde que a Covid-19 interrompeu nossas rotinas e mudou a forma como nos encontramos, nosso contexto social foi marcado por encontros mediados por nossas telas, graças à tecnologia digital e a mídia social.

Francisco atualiza o cânone do pensamento social católico refletindo sobre essas ferramentas e sobre as redes digitais. Fratelli Tutti nos convida a considerarmos como nossas telas muitas vezes refletem e reforçam "visões antropológicas redutivas" que distorcem a dignidade humana inerente, obscurecem direitos e responsabilidades, geram desconfiança e exacerbam a divisão social (nº 22).

Nos parágrafos 42 a 50, Francisco destaca os perigos da comunicação digital:

  • a falta de privacidade;
  • hábitos de voyeurismo e vigilância constante;
  • desinformação e manipulação emocional;
  • desprezo explícito pelos outros (às vezes anonimamente) por agressão desenfreada;
  • a vaidade de atender tudo de acordo com nossos interesses e preferências, ao mesmo tempo em que podemos passar o dedo ou clicar em qualquer coisa desagradável; e
  • os graves problemas de uma "cultura de cancelamento" que prefere se desculpar em vez de se engajar naquilo que pode ser desagradável.

O papa está certo em apontar essas ameaças à dignidade humana e à comunidade. A Igreja não deu atenção adequada ao impacto moral das telas em nossa identidade, ações e relacionamentos. Tristan Harris, ex-designer de tecnologia de Google, alerta que, se não nos conscientizarmos da influência da tecnologia digital, não conseguiremos evitar a tendência de "rebaixamento humano" que nos torna mais dependentes dessas ferramentas.

De uma perspectiva teológica e moral, devemos considerar como esses dispositivos e redes digitais podem cultivar o vício e induzir as pessoas a pecar. Embora essas ferramentas digitais não sejam inerentemente boas ou más, seu valor moral depende de como são usadas, tanto em termos de intenção e circunstâncias, quanto dos efeitos de seu uso.

Podemos ver plataformas como o Facebook, por exemplo, como formas inofensivas de acessar informações ou entretenimento, que visam aumentar a eficiência ou criar mais conexões. Na verdade, somos o produto que o Facebook busca, enquanto a empresa coleta e vende dados de usuários, prevê e aproveita as preferências e rejeições de alguns usuários, enquanto encoraja outros. O resultado não é apenas mais divisão, mas uma radicalização exacerbada que normaliza o medo, a repulsa e até a violência.

Após campanhas de desinformação desenfreadas na corrida para a eleição de 2016, o Facebook só recentemente tomou medidas contra as "fazendas de trolls" (grupos que espalham fakes news nas redes) que esperam influenciar os eleitores novamente em 2020.

O Facebook fez algumas mudanças em suas políticas, incluindo a decisão de não permitir anúncios políticos uma semana antes da eleição no próximo mês. No entanto, atuais e ex-funcionários continuam expressando sua preocupação com o que está em jogo para nossa democracia. Recentemente, o ex-engenheiro do Facebook, Ashok Chandwaney, acusou a empresa de "lucrar com o ódio" nos Estados Unidos e em todo o mundo.

Isso deve ser um ponto para se pensar na hora de usar Facebook. A causa do alarme vai além da dinâmica de comparação e desespero tão prevalente nas redes sociais, ou as taxas decrescentes de empatia e números crescentes de depressão, ansiedade e isolamento social devido a interações online empobrecidas. 

Se nossos feeds de notícias continuarem sendo câmaras de eco que confirmam nossos próprios pontos de vista, podemos ter menos oportunidades de praticar a humildade, porque estaremos menos dispostos a nos esforçarmos a ouvir e aprender com outros que têm uma aparência ou pensam diferente. 

Esta é uma consideração moral especialmente importante em um contexto social onde a maioria dos americanos tem laços sociais segregados racialmente, o que pode explicar por que os americanos brancos lutam para compreender as experiências dos negros americanos.

Enquanto Fratelli Tutti destaca como a mídia digital e as conexões minam a amizade social, a encíclica falha em abordar como eles podem ser aproveitados para uma "cultura de encontro" que leva a "comunidades de pertença" (Nos. 30, 36). Francisco também deixa claro que nossas telas não nos salvarão e nenhuma solução viável será encontrada em uma rejeição ludita da tecnologia.

As dúvidas de Francisco sobre essas ferramentas e redes digitais são irônicas, porque sua visão da reforma da Igreja inclui a descentralização e a aproximação com as periferias. Quando bem usada, a mídia social fornece uma plataforma essencial para que indivíduos e grupos sub-representados levantem sua voz. 

Essas ferramentas e redes têm sido usadas com eficácia para resistir a estruturas de poder hegemônicas e construir coalizões igualitárias à distância física. Elas também são caminhos essenciais de conexão e apoio para pessoas que são socialmente marginalizadas, como a comunidade LGBT e pessoas com deficiência. A solidariedade hoje exige a liberdade digital como direito e corresponsabilidade.

Individualmente, precisamos nos tornar mais reflexivos e intencionais sobre como e por que usamos essas ferramentas e redes digitais. Devemos ficar mais atentos a como o tempo gasto online afeta nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos, bem como como nossas decisões digitais afetam outras pessoas. 

Nossos hábitos digitais ajudam a manifestar que somos todos membros de "uma única família, morando em uma casa comum" (nº 17)? Isso significa, por exemplo, resistir à tentação de passar o dedo ou rolar sobre o sofrimento e, em vez disso, tornar-se mais sensíveis às maneiras como nossas telas podem servir como um amortecedor que nos impede enfrentar a injustiça, seja próxima ou não. Se nossas telas nos treinam para nos enxergarmos mais como espectadores do que como partes interessadas em nossas comunidades, podemos considerar a adoção de um jejum digital para nos dar o reset que precisamos.

Nossa formação moral se dá por meio do relacionamento com os outros e de nossas práticas compartilhadas, o que dá crédito à linha de Francisco de que "ninguém se salva sozinho, que só é possível salvar-nos juntos" (nº 32).

Em A alegria do amor, o papa Francisco lembra à Igreja que fomos chamados a formar consciências, não para substituí-las. Este dever de informar nossa consciência e ajudar a formar a consciência dos outros requer segurança e confiança. 

Esses requisitos provavelmente não serão atendidos por cliques e toques em uma tela, mas sim por interações offline significativas com amigos, família, vizinhos, colegas de trabalho e estranhos. As telas devem servir e complementar, mas nunca suplantar essas relações.

Invocando a história do bom samaritano, Francisco observa "reconheceremos que todos somos, ou fomos, como estas personagens: todos temos algo do ferido, do salteador, daqueles que passam ao largo e do bom samaritano" (n. 69). Para "ir e fazer o mesmo", seguindo o exemplo do samaritano, não precisamos nos livrar da tecnologia. Mas:

  • Precisamos repensar nossa abordagem a esses dispositivos e redes digitais para que possam ser mais do que ferramentas de informação ou entretenimento;
  • Precisamos abraçá-los como portais para visões e vozes mais diversas, a fim de aprofundar nossa compreensão de nossa realidade complexa e interdependente;
  • Precisamos garantir que sirvam como instrumentos de maior transparência e responsabilidade, especialmente na resistência a abusos de poder que silenciam, estigmatizam ou envergonham indivíduos ou grupos;
  • Devemos usá-los para aumentar a consciência, ativar a capacidade de agir, organizar de forma colaborativa e expandir nossa imaginação de forma criativa.

Fazendo isso, podemos trabalhar em prol de nosso florescimento compartilhado e do bem comum global. Uma visão do amor universal pela solidariedade não requer nada menos em uma era digital.

*Marcus Mescher é professor associado de ética cristã na Xavier University em Cincinnati, Ohio, e autor de The ethics of encounter: Christian neighbour love as a practice of solidarity.

Publicado originalmente em America Magazine

Traduzido por Ramón Lara



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