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24/10/2020 | domtotal.com

A união de conveniência entre Trump e os conservadores cristãos do Alabama

'A religião influencia fortemente nossa vida diária', até na hora de votar, afirma uma eleitora republicana

Visitantes de Ave Maria Grotto em Cullman, no Alabama
Visitantes de Ave Maria Grotto em Cullman, no Alabama (Chandan Khanna/AFP)

Donald Trump venceu as eleições em 2016 com quase 90% dos votos no condado Winston, localizado no "cinturão da Bíblia", uma região no sudeste dos Estados Unidos famosa por seu conservadorismo cristão.

Provocativo e grosseiro, o comportamento do empresário nova-iorquino, acusado de adultério e de abuso sexual, pouco tem a ver com o dos moradores, mais modesto e despretensioso. Mas, como bons cristãos, ou como se fosse um casamento de conveniência, eles parecem dispostos a perdoar seus pecados em nome de um interesse maior.

"É um bilionário que constrói prédios em Nova York. Sim, poderia aprender a falar com um pouco mais de eloquência e um pouco menos 'trumpiano', mas ele representa os valores deste condado muito melhor do que seu oponente (o democrata Joe Biden)", explica Tawnya Parker, uma especialista em recursos humanos de 49 anos.

O olhar se torna mais penetrante quando fala sobre seu drama pessoal. Opositora ferrenha do aborto depois de ter feito um quando adolescente, Tawnya Parker, uma cristã devota do Alabama, apoia Donald Trump justamente por este motivo, embora às vezes deseje que "ele fosse impedido de tuitar".

"JESUS - Nossa esperança", diz uma placa vermelha em frente à Igreja Solid Rock, em Haleyville, aonde Tawnya e seu marido, Brian, um ex-soldado que trabalha na empresa de armamento Lockheed Martin, comparecem todos os domingos.

A "religião", admite ela, "influencia fortemente nossa vida diária", inclusive na hora de eleger um presidente.

Ave Maria Grotto

Mãe de cinco filhos, Tawnya conta com a voz suave e com o sotaque sulista que foi obrigada a abortar quando tinha 15 anos depois de um estupro. Um "trauma psicológico e emocional" na gênese de sua enérgica oposição ao "aborto à la carte".

O estado do Alabama aprovou a lei mais restritiva do país contra o aborto em maio de 2019. Os tribunais a impugnaram de imediato, mas a eventual nomeação da juíza Amy Coney Barrett para a Suprema Corte pode ameaçar ainda mais o acesso ao aborto, uma possibilidade pela qual os conservadores deste estado agradecem a Trump.

Essa nomeação é, "talvez, tão importante quanto as eleições presidenciais" em si, disse Jerry Mobley, funcionário do Partido Republicano do condado de Winston.

Cullman, uma fortaleza católica no meio de um território protestante, abriga um ponto turístico curioso: Ave Maria Grotto. "Muita gente diz que o Alabama é a fivela do cinturão da Bíblia", afirma o diretor do Ave Maria Grotto, Roger Steele, rodeado de maquetes como a da Praça de São Pedro de Roma e a do Santuário de Lourdes.

O chamado "Sul Profundo" dos Estados Unidos, às vezes desprezado pelo resto do país, "está mudando", opina. "O conservadorismo extremo e o racismo das décadas de 1960 e 1970 já não estão tão generalizados", acrescenta.

Em Haleyville, Christian Marbutt, de 20 anos, espera no estacionamento de um restaurante sentado ao volante de seu Chevrolet, descolorido pelo sol.

Com o boné virado para trás, o jovem de barba espessa, um crucifixo no pescoço e a palavra família tatuada no antebraço, diz que votará em Trump em 3 de novembro, embora seja a favor do aborto: "É o corpo da mulher". "Nossa geração não se afasta necessariamente da religião", explica, "mas já não é tão capital como para as gerações mais velhas".

Algo que também se vê na casa de Tawnya e Brian Parker, onde não falarão de política quando se sentarem à mesa no Natal. Seus cinco filhos são democratas.


AFP



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