Cultura

20/10/2020 | domtotal.com

O esporte brasileiro na berlinda

O país está à beira do abismo e não dá mais para fingir que está tudo bem

Robinho é acusado de estupro coletivo e gravações confirmam versão da vítima
Robinho é acusado de estupro coletivo e gravações confirmam versão da vítima (Ivan Storti/Santos FC)

Alexis Parrot*

Ao ouvir os tais áudios vazados do Robinho e transcrições de outros mais antigos, captados pela polícia italiana, é impossível não acreditar que o atacante não tenha culpa no cartório. É revoltante assistir à entrevista em que afirma que seu único pecado foi ter traído sua mulher. A moça albanesa semiconsciente foi mesmo estuprada por ele e vários comparsas no camarim da boate milanesa em 2013, e a justiça italiana deve por fim à questão em dezembro, quando julgar o recurso do jogador, já condenado pelo crime. 

Em situações como esta, não dá para contemporizar. Ignorar o caso, como quis fazer o Santos ao contratá-lo, está igualmente fora de questão - e o clube da Vila Belmiro foi obrigado a entender isso na marra, depois de perder cerca de vinte milhões de reais em patrocínio e ver sua imagem pública detonada pela própria torcida.

Casagrande, do quadro de comentaristas de programas esportivos da Rede Globo, disse no ar na última sexta-feira o que achava do assunto. Expressou preocupação com uma certa onda de opiniões que tenta justificar o comportamento de Robinho contra o que ele chamou de "apedrejamento moral da sociedade brasileira". Quem se posicionou ali não foi o eterno ídolo corinthiano, nem mesmo o funcionário da Globo; foi simplesmente o Walter, cidadão decente e homem de bem, honrando a admiração que torcidas de todos os times pelos quais passou ainda hoje nutrem por ele.

Na semana passada saiu também a decisão do STJD sobre o "fora Bolsonaro" que a jogadora de vôlei de praia Carol Solberg soltou em entrevista ao vivo pela TV após uma partida em Saquarema, há um mês atrás. Solberg não levou multa nem suspensão, apenas uma advertência, mas já disse que irá recorrer - porque o que era pontual, virou agora uma questão de princípios.

O imbróglio todo aconteceu porque o Banco do Brasil é o principal patrocinador da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) e do circuito brasileiro de vôlei de praia. A entidade, imediatamente após o ocorrido, soltou uma nota de repúdio e a denúncia contra a atleta no Tribunal de Justiça Deportiva veio no vácuo. A acusação foi que ela teria descumprido o regulamento da competição no seguinte item: "o jogador se compromete a não divulgar, através dos meios de comunicações, sua opinião pessoal ou informação que reflita críticas ou possa, direta ou indiretamente, prejudicar ou denegrir a imagem da CBV e/ou dos patrocinadores e parceiros comerciais das competições."

Então, quer dizer que se eu digo "fora Bolsonaro" eu estou denegrindo a imagem do Banco do Brasil? Este argumento não cola nem com super bonder. O que falou mais alto não foi a lógica ou o cumprimento das regras; só pode ter sido o medo de alguma retaliação por parte de um governo naturalmente vingativo caso a entidade não se manifestasse contra a fala de Solberg. E o Tribunal apenas ratificou a posição da CBV, justificando e naturalizando a censura nas quadras de vôlei do Brasil.   

E enquanto Carol Solberg grita "fora Bolsonaro", outro atleta se compara com ele. Em um dos áudios vazados, Robinho se diz injustiçado porque a "Globo lixo" está fazendo com ele o mesmo que teria feito com o presidente durante a campanha das últimas eleições. De maneira oportunista, distorcendo a realidade e ferindo o bom senso, o jogador declara estar "tranquilão", que o "bem sempre vence" porque "Deus está no controle". Nem parece o depoimento de um estuprador condenado.

Além da vitória triunfal do Flamengo e da derrota do Galo, esta última semana o esporte brasileiro nos fez parar e pensar. O país está à beira do abismo e não dá mais para fingir que está tudo bem. De um lado, há o time da Carol Solberg e do Casagrande; e do outro, o time da CBV, do STJD e do Robinho.

Para quem você vai torcer?      

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.



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