Economia

20/10/2020 | domtotal.com

Guerra entre EUA e China por controle do 5G chega ao território brasileiro

Troca de acusações, ameaças e promessas de ajuda tentam influenciar leilão no país

Troca de acusações, ameaças e promessas de ajuda tentam influenciar leilão no país
Troca de acusações, ameaças e promessas de ajuda tentam influenciar leilão no país

Em meio a uma guerra comercial com a China, os Estados Unidos vêm fazendo forte campanha contra a empresa chinesa de tecnologia 5G Huawei e pressionam, desde o ano passado, para que ela seja banida da licitação para escolha de empresas para implantação da rede 5G no Brasil. A empresa chinesa é líder mundial no setor, mas os EUA acusam a Huawei de colaborar com o governo chinês para permitir espionagem cibernética. A China por sua vez, faz as mesmas acusações em relação ao governo americano. Provavelmente, ambos têm razão.

O governo brasileiro pretendia lançar a licitação para o 5G este ano, com um enorme mercado de 212 milhões de habitantes, mas a crise da Covid-19 adiou o calendário para 2021. A questão é que qualquer opção pode ser delicada ao governo brasileiro e os dois gigantes da economia mundial estão neste momento travando uma guerra em território brasileiro.

É notório que o presidente Jair Bolsonaro não esconde sua preferência pelos EUA de Donald Trump e faz uma política externa submissa aos interesses americanos. A questão ideológica tem influenciado a política do Itamaraty e causado prejuízos à longamente construída imagem multilateralista do Brasil. Agora, ao entrar na briga entre Washington e Pequim, o caso é mais complexo. Se aceitar a pressão americana, pode comprometer as relações com a China, nosso maior parceiro comercial. Se permitir a participação da Huawei no leilão do 5G, o governo Bolsonaro vai desagradar a ala ideológica e seus apoiadores mais fanáticos, mesmo que o prejuízo externo seja menor se comparado a uma eventual ruptura com a China.

Pressão de todos os lados

Em visita ao Brasil, o conselheiro de Segurança dos Estados Unidos, Robert O’Brien, voltou a abordar a implantação da tecnologia 5G no Brasil, pressionando – como tem feito em todo o mundo – contra a participação da chinesa Huawei, líder mundial no setor, no leilão que definirá a empresa que fornecerá a tecnologia no país.

Em reunião na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), O’Brien disse que se o Brasil escolher a empresa chinesa Huawei para implantação da tecnologia 5G no país, os dados do governo e de empresas brasileiras poderão ser "decifrados" pelos chineses. No evento, que teve a participação virtual de cerca de 70 empresários, o conselheiro recomendou "fortemente" que os parceiros dos norte-americanos adotem fornecedores "confiáveis".

"Se vocês terminarem com a Huawei na sua rede 5G, haverá backdoors e a capacidade de decifrar quase todos os dados que são gerados em qualquer lugar do Brasil, seja pelo governo, na frente de segurança nacional, seja por empresas privadas em suas habilidades de inovar e desenvolver novos produtos", afirmou. Backdoors ou "porta dos fundos", em inglês, é o método usado para ter acesso às informações dos usuários contornando medidas de segurança. O’Brien afirmou que também poderá cooperar com o governo brasileiro contra espionagem. "Acredito que vamos trabalhar próximo dos militares brasileiros e do governo brasileiro para defender o Brasil no mundo cibernético."

Em julho, em entrevista publicada no jornal O Globo, o embaixador americano no Brasil, Todd Chapman, ameaçou com "consequências", caso o país permita ao grupo chinês implantar sua tecnologia 5G em seu território, o que provocou resposta imediata da China.

Reação chinesa

A China reagiu logo depois. Por meio do perfil nas redes sociais da Embaixada do país no Brasil, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Zhao Lijian, saiu em defesa da Huawei. "A Huawei disse que gostaria de assinar um acordo de 'proibição de backdoors' com todos os países", disse o porta-voz ao defender a empresa chinesa.

O conselheiro americano Robert O’Brien acusou a China de usar ataques cibernéticos para roubar propriedade intelectual em todo o mundo e disse que os Estados Unidos abrem um novo caso de espionagem contra a empresa a cada 10 horas. "Estamos preocupados que a China vá buscar alvos que não sejam tão difíceis como os dos EUA. Estamos preocupados que a China se volte cada vez mais para os países como o Brasil, especialmente se eles conseguirem sua rede 5G", completou.

Zhao Lijian inverteu as acusações de espionagem, afirmando que os EUA "têm realizado escutas cibernéticas e vigilância", em resposta às recentes declarações dos americanos. "Acho que a razão pela qual os EUA suprimem a HW Huawei é que, caso outros países usem equipamentos HW, os EUA não poderão mais tocar em outras pessoas através de backdoors", diz ainda o texto publicado.

Na série de postagens, Zhao Lijian criticou o plano "Clean Network" ("Rede Limpa") promovido pelos EUA para limitar a participação da tecnologia. As postagens chamam a iniciativa de "Rede Suja", afirmando se tratar "rede de monopólio que "promove uma Guerra Fria nos domínios de ciência e tecnologia e discriminação contra determinados países".

Nesse contexto de pressão americana para impedir a participação da empresa de tecnologia no leilão brasileiro, Zhao Lijian afirmou, ainda por meio das publicações da Embaixada, que "a maioria dos países permanecerá independente, tomará suas próprias decisões, dirá não à 'Rede Suja' dos EUA e promoverá um ambiente de negócios justo, aberto e não discriminatório para empresas de tecnologia #5G em todo o mundo".

A tecnologia 5G vai revolucionar as telecomunicações e abrir caminho para a internet das coisas (Freepix)A tecnologia 5G vai revolucionar as telecomunicações e abrir caminho para a internet das coisas (Freepix)

Financiamento americano

Nesta terça-feira (20), o tom de ameaça ganhou outros contornos. A delegação de autoridades americanas que visitam Brasília afirmou que os Estados Unidos estão dispostos a financiar investimentos no setor de telecomunicações brasileiro para evitar a participação da empresa chinesa com a justificativa de proteção de dados.

Um dos integrantes da delegação, Joshua Hodges, diretor sênior interino para o Hemisfério Ocidental do Conselho de Segurança Nacional (NSC, na sigla em inglês), disse que "há um equívoco de que não existe alternativa, não é o caso”. “Há competição lá fora, está disponível e os Estados Unidos estão prontos para financiar isso”, declarou.

Desta forma, o governo americano estaria disposto a abrir linhas de crédito para a Oi, Vivo, Claro, Tim e outras companhias que operam no Brasil possam comprar equipamentos com financiamento dos EUA. Segundo fontes em Brasília, o financiamento poderia ser realizado por meio do U.S. International Development Finance Corporation (DFC), instituição estatal criada pelo governo Donald Trump para dar suporte à estratégia geopolítica de Washington no exterior.

Tecnologia de ponta

A tecnologia 5G é a quinta geração das redes de comunicação móveis. Ela promete velocidades até 20 vezes superiores ao 4G. Em ambiente controlado, as redes 5G podem ter velocidades de até 1 gigabit por segundo (Gbps). Assim, permite um consumo maior de vídeos, jogos e ambientes em realidade virtual. Além disso, promete reduzir para menos da metade a latência, tempo entre dar um comando em um site ou App e a sua execução - dos atuais 10 milissegundos (ms) para 4 ms. Em algumas situações, a latência poderá ser de 1 ms, importante, por exemplo, para o desenvolvimento de carros autônomos.

Em visita ao Brasil, o conselheiro terá nesta terça-feira (20) uma reunião com o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, para tratar de segurança, e há expectativa de que a questão do 5G seja discutida. O’Brien encontrará na quarta-feira o presidente Jair Bolsonaro.


Dom Total/Agência Estado



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