Mundo

21/10/2020 | domtotal.com

'Evo Morales não terá nenhum papel em nosso governo', afirma presidente eleito da Bolívia

Refugiado na Argentina desde 2019, Evo ainda não tem previsão de retorno ao seu país

O presidente eleito Luis Arce (esq) foi ministro da Economia de Evo Morales
O presidente eleito Luis Arce (esq) foi ministro da Economia de Evo Morales (Ronaldo Schemidt/AFP)

Luis Arce, presidente eleito da Bolívia, disse que "não há papel" em seu governo para o ex-presidente Evo Morales, que governou o país por quase 14 anos antes de renunciar sob pressão no ano passado, e se exilar na Argentina. Arce foi eleito no domingo (18) – apesar de a apuração ainda estar em andamento – conduzindo o partido Movimento ao Socialismo (MAS) de volta ao governo.

Do exílio, Evo continua sendo presidente do MAS. Para Arce, qualquer influência do ex-presidente continuará limitada a essa posição. "Ele não terá nenhum papel em nosso governo", declarou o presidente eleito em entrevista à agência Reuters. "Ele pode voltar ao país quando quiser, porque é boliviano. Mas no governo sou eu que tenho de decidir quem faz parte ou não."

Um ex-líder cocalero, elogiado por muitos por ter melhorado a vida da população em um dos países mais pobres da América do Sul, Evo está vivendo fora da Bolívia desde que fugiu do país, no ano passado, após eleições marcadas por acusações de fraude. O ex-presidente contesta as denúncias e diz que foi alvo de um golpe de Estado.

Evo também enfrenta processos por corrupção e por estupro – ele teria se relacionado com menores de idade –, algo que ele reiteradamente nega. "Os direitos do devido processo legal não foram respeitados em vários casos contra ele (Evo)", afirmou Arce. "Lamento que a política tenha sido judicializada. A direita judicializou a política."

Como ministro da Economia de Evo, Arce ajudou a administrar uma das economias que mais crescia na região. Agora, porém, quando for empossado presidente da Bolívia, no próximo mês, ele assumirá o controle de um país que enfrenta uma recessão preocupante.

"Teremos de ter medidas de austeridade. Não há outra opção se não tivermos renda suficiente para cobrirmos nossas atuais despesas", declarou. Arce acrescentou que o modelo econômico que ajudou a implementar durante o governo de Evo "funcionou e funcionará mais uma vez".

O economista socialista, de 57 anos, educado no Reino Unido, que concorreu com uma plataforma de promessas de gastos sociais, disse que os cortes não afetarão o investimento público, que, segundo ele, será uma "prioridade" para reativar o crescimento.

Arce acrescentou que emitirá títulos "se necessário", apesar de ter criticado o governo provisório conservador da presidente Jeanine Añez – que assumiu após a renúncia de Evo – por tentar emitir papéis da dívida pública.

"As vastas e inexploradas reservas de lítio da Bolívia são também um impulsionador econômico", disse Arce. Elas podem, segundo ele, se tornar cruciais se o mundo começar a mudar sua matriz energética, com carros elétricos e outros dispositivos operados por bateria.

O novo presidente da Bolívia reconheceu que o país precisa de um "parceiro estratégico" capaz de explorar com sucesso suas reservas, algo que poderia gerar até US$ 2 bilhões (cerca de R$ 11,2 bilhões) para Bolívia ao final de seu mandato de cinco anos. Arce disse que manterá a moeda local, o boliviano, atrelada ao dólar, citando temores de forte depreciação.

Sob Evo, a Bolívia e os EUA cortaram laços diplomáticos. Arce disse que quer "restabelecer relações com todos os países", mas, neste caso específico, está deixando a decisão com Washington. "Se eles quiserem restabelecer uma relação conosco, a única coisa que pedimos é que sejamos respeitados como iguais", disse.

Alegria de simpatizantes de Evo

Depois de mortes e violência política em 2019, a alegria voltou ao bairro boliviano de Senkata com a vitória de Luis Arce, o herdeiro político de Evo Morales. "Valeu a pena todo o sofrimento", disse José Mamani.

Há quase um ano, José e seus vizinhos saíram para protestar em Senkata, na cidade de El Alto, vizinha de La Paz, contra a anulação – por alegações de fraude – das eleições nas quais Morales havia sido reeleito para um quarto mandato. Foram reprimidos pela polícia em frente a uma fábrica de combustíveis, resultando em uma dúzia de mortos e várias dezenas de feridos.

"Me sinto feliz", diz José, emocionado. Junto com ele, seus "camaradas de luta" celebram com música, danças e bandeiras azuis (símbolo de Arce) a vitória eleitoral de domingo, que devolve o poder ao Movimento ao Socialismo (MAS) de Morales.

Como o comerciante de 34 anos de cabelo cor de cobre, muitos misturam a alegria da vitória com as lembranças da repressão durante os violentos protestos de novembro de 2019 em Senkata, no distrito 8 desta cidade fiel a Morales, localizada a 4,1 mil metros de altura.

"Neste bairro choramos, sofremos, passamos dias sem comer, a coca e água", lembra José com o rosto ao sol do altiplano, rodeado por uma cordilheira nevada. "Foi muito doloroso o que aconteceu, [a polícia] chutando mulheres de saias, camponesas, foi assim que a presidente interina de direita Janine Áñez chegou ao poder", disse à reportagem Ricardo Saavedra, um estudante de 23 anos.

Organizações de direitos humanos denunciaram o governo Áñez pelo uso excessivo da força durante os protestos, que deixaram mais de 30 mortos e 800 feridos no país, segundo a ONU.

Quase um ano depois, José agarrou sua bandeira Wiphala (símbolo dos povos indígenas), comprou fogos de artifício e saiu para as mesmas ruas onde um dia houve luto para festejar, dançar e gritar "Jallalla [viva] Distrito 8".

"Essa luta não é por dinheiro, sei que não terei um cargo no governo. Luto pelo bem dos meus filhos, porque quero dar a eles um bom futuro", diz José. Em sua camisa azul, lê-se "voltamos e somos milhões", junto com os rostos de Arce e de seu vice-presidente David Choquehuanca, de origem aimará como Morales.

O distrito 8 de El Alto tem uma tradição de luta. Seus vizinhos se rebelaram na chamada "Guerra do Gás" de 2003, que deixou 60 mortos e levou à queda do presidente conservador Gonzalo Sánchez de Lozada.

A possibilidade de Morales voltar ao país do exílio na Argentina é celebrada, embora ele tenha um mandado de prisão na Bolívia por suposto "terrorismo". "Evo, você vai voltar. Evito, você vai voltar", diz Eugenia Centeno, o rosto vermelho de euforia, misturado com lágrimas. Essa vendedora de roupas usa o traje completo: camiseta, boné, lenço e bandeira MAS.

Os rostos refletem o alívio do fim do governo Áñez. "Estamos respirando uma vitória porque não haverá essa discriminação" a partir de agora, diz Condori, em uma Bolívia com 41% da população indígena.

Com o espírito combativo do passado e do presente, a deputada fecha seu discurso com o slogan da guerra do gás em 2003. "El Alto em pé, nunca de joelhos".

Retorno ainda não programado

Refugiado na Argentina desde dezembro, Evo Morales afirmou que ainda não tem data para retornar ao seu país, onde no domingo seu herdeiro político Luis Arce venceu a eleição presidencial. "Meu retorno à Bolívia ainda não está programado", disse à Rádio El Destape, depois de o presidente argentino, Alberto Fernández, manifestar mais cedo seu desejo de acompanhá-lo.

Morales pediu aos seus concidadãos que mantenham a unidade e previu que a contagem final dará à Luis Arce uma vitória "de mais de 55% dos votos" nas urnas. "Em uma comunidade indígena, chegamos aos 99%, em minha aldeia onde nasci, aos 99,2", listou Morales, enquanto uma lenta recontagem oficial atribui a Arce mais de 53% dos votos, com 84% das urnas apuradas.

"Não tem como ocultar o que aconteceu nas eleições", disse o ex-presidente, ao se referir às eleições de outubro de 2019, anuladas por uma suposta fraude com base em uma auditoria da Organização dos Estados Americanos (OEA), nas quais Morales buscava seu quarto mandato consecutivo.

"Se Luis Almagro tivesse alguma ética e moral, deveria renunciar à OEA", afirmou Morales sobre o secretário-geral do órgão internacional, considerando-o "responsável pelo golpe" de Estado em seu país.

Almagro parabenizou Arce por sua vitória no domingo e lhe desejou "sucesso em seus trabalhos futuros", enquanto elogiou a "conduta cívica" do povo boliviano. "A Organização dos Estados Americanos sempre defendeu a vontade popular na Bolívia, expressa através de eleições livres. Um dia como o de hoje é uma oportunidade para avançar na construção de um país mais inclusivo e tolerante", disse a OEA em comunicado.

Morales renunciou à Presidência da Bolívia em 10 de novembro de 2019, após perder o apoio das Forças Armadas em meio às denúncias de fraude. Primeiro, viajou para o México. Depois, asilou-se na Argentina, a partir da posse do peronista Alberto Fernández, em 10 de dezembro.

"Durante todo ano, dissemos que nunca houve fraude", afirmou Morales. O ex-presidente afirmou que, diante dos fatos de 2019, no domingo, "houve uma reação do povo boliviano nas urnas, nas quais votaram pelo respeito

Vitória esmagadora

A lenta contagem oficial de votos na Bolívia confirmava nesta terça-feira (20) a vitória esmagadora no primeiro turno do esquerdista Luis Arce, o afilhado político de Evo Morales, projetada por dois pesquisadores após as eleições de domingo.

Com dois terços das atas de seções escrutinadas por volta das 18h GMT (15h de Brasília), Arce tinha 51,14% dos votos, seguido do ex-presidente centrista Carlos Mesa, com 31,27%, segundo apuração oficial. Em terceiro lugar estava o direitista Luis Fernando Camacho, com 15,49%.

A Constituição boliviana declara vencedor no primeiro turno o candidato que obtiver maioria absoluta ou 40% dos votos com 10 pontos de vantagem sobre o segundo lugar. Caso contrário, deve haver um segundo turno.

Arce obteve mais de 55% em quatro dos nove departamentos do país: Cochabamba, um dos redutos do MAS, La Paz, Potosí e Oruro, onde Morales nasceu. A vitória de Arce marca o retorno ao poder do Movimento pelo Socialismo de Morales (2006-2019), um ano após sua renúncia em meio a convulsões sociais e acusações de fraude eleitoral.

Protestos contra Arce

Centenas de bolivianos se manifestaram nesta terça-feira (20) na cidade de Santa Cruz, reduto do candidato de direita Luis Fernando Camacho, em rejeição à eleição do esquerdista Luis Arce para a presidência do país.

"Isso é uma fraude, como sempre fez [o ex-presidente] Evo Morales (2006-2019)", líder do partido Movimento ao Socialismo (MAS) que teve Arce como candidato, disse uma manifestante que se identificou apenas como Yeni à reportagem.

A mulher carregava uma bandeira verde e branca, símbolo de Santa Cruz, enquanto protestava em uma praça central da cidade mais rica da Bolívia. A vitória de Arce "é como um tapa na cara", disse o manifestante Yasmani Acosta.

Algumas dezenas de pessoas também protestaram nesta terça-feira em frente à sede do Tribunal Eleitoral da região central da cidade de Cochabamba, denunciando uma suposta "fraude" nas eleições vencidas pelo candidato de esquerda.

A vitória do opositor Arce por maioria absoluta no primeiro turno pegou os bolivianos de surpresa, após pesquisas que previam um segundo turno com Mesa. "Vivemos momentos de incerteza gerados por uma péssima gestão do processo eleitoral", disse Camacho em suas redes sociais.

Camacho foi um dos líderes da grande mobilização de Santa Cruz que exigiu a renúncia de Morales em 2019 em meio a denúncias de fraude nas eleições, nas quais o então presidente de esquerda havia sido reeleito, no primeiro turno, para um quarto mandato.

Entre outubro e novembro de 2019, mobilizações massivas em várias cidades bolivianas exigiram a renúncia de Morales, que finalmente entregou o cargo e segue refugiado na Argentina. Os distúrbios deixaram mais de 30 mortos e 800 feridos, segundo a ONU.

Camacho também criticou a decisão do Tribunal Eleitoral de suspender seu sistema de contagem rápida e ter apenas uma contagem oficial lenta. "Essa foi nossa principal arma para detectar fraudes em 2019 e agora não a temos", disse Camacho, apelidado de 'Bolsonaro boliviano', uma associação ao presidente do Brasil.


Agência Estado/AFP/Dom Total



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!