Economia

21/10/2020 | domtotal.com

'Acusações feitas pelos EUA não têm fundamento', diz executivo da Huawei

A troca de farpas acontece nos meses que antecedem o leilão das frequências do sinal de 5G no Brasil

Até agora, não há impedimento para a Huawei surfar a onda do 5G
Até agora, não há impedimento para a Huawei surfar a onda do 5G (AFP)

A fabricante de equipamentos de telecomunicações Huawei reagiu à escalada de acusações feitas nesta semana no Brasil por uma comitiva norte-americana, que pressiona o governo brasileiro a restringir a atuação da empresa chinesa por aqui.

O diretor local de cibersegurança da Huawei, Marcelo Motta, afirmou ao Estadão/Broadcast que os ataques dos Estados Unidos carecem de "quaisquer fundamentos" e negou que a companhia tenha acesso a dados privados ou que tenha obrigação de repassar esse conteúdo ao governo chinês.

A troca de farpas acontece nos meses que antecedem o leilão das frequências do sinal de 5G no Brasil, previsto para meados de 2021. A participação no leilão será das operadoras, não das fabricantes. Entretanto, a Huawei é uma das três grandes fornecedoras do mercado nacional, ao lado da sueca Ericsson e da finlandesa Nokia.

Uma delegação americana deixou claro em visita ao Brasil nesta semana que espera que o país escolha empresas de outras nacionalidades para a construção de sua infraestrutura 5G.

"É razoável que isso seja olhado com a seriedade que requer o assunto e essa decisão eu entendo que vai ser tomada mais para frente, no início do ano que vem", afirmou Forster em entrevista a correspondentes brasileiros em Washington. "Não se trata de banir essa ou aquela empresa, trata-se de procurar atender ao interesse nacional. É isso que está em jogo", afirmou o embaixador do Brasil em Washington, Nestor Forster.

Na avaliação de analistas ouvidos pelo Estadão, além de interesses comerciais o governo de Donald Trump tenta gerar boas notícias nas relações exteriores, às vésperas das eleições americanas. Os americanos disseram estar dispostos a financiar "qualquer investimento" no setor de telecomunicações.

"Faz parte do ideário de Trump, de colocar oposição à China como principal item de sua política externa, embora as simplificações de comércio, como as que foram assinadas, não levem necessariamente a um acordo de comércio, já que o governo americano não pode negociar algo assim sem autorização do Congresso", diz o ex-embaixador do Brasil em Washington Rubens Barbosa.

Ele avalia que a delegação americana aproveitou a viagem para oferecer empréstimos e facilidades ao Brasil, "colocando uma ‘cenourinha’ para que o Brasil exclua a China do leilão". Para o consultor, o mais prudente seria que o Brasil esperasse o resultado das eleições nos EUA antes de decidir sobre o 5G.

Até agora, não há impedimento para a Huawei surfar a onda do 5G. A Vivo, inclusive, já usa equipamentos da chinesa nas primeiras redes comerciais de 5G em São Paulo e no Rio de Janeiro.

O Gabinete de Segurança Institucional já listou os requisitos mínimos de segurança cibernética que devem ser adotados na implantação das redes 5G e não fez nenhum veto à presença da multinacional. Mas a decisão final caberá ao presidente Jair Bolsonaro.

Como a Huawei recebeu as declarações do conselheiro de Segurança dos Estados Unidos, Robert O’Brien, de que os dados do governo brasileiro e empresas locais poderão ser "decifrados" pelo governo chinês caso passem por equipamentos da Huawei?

Recebemos as acusações com naturalidade, visto que acontecem há mais de uma década e sem qualquer fundamento. Temos cibersegurança e privacidade como prioridades máximas. Nossa governança passa por testes em múltiplos centros de transparência globais e regionais. Todo este esforço é o fundamento para a produção de equipamentos confiáveis e seguros para clientes, parceiros e governos.

Há uma crítica recorrente à legislação chinesa, que obrigaria a Huawei a repassar dados de seus clientes se solicitada pelo governo de lá. Essa obrigação existe, de fato?

Não. E nem existem tais leis e obrigações na China. Toda as leis lá existentes aplicam-se igualmente a todos os fornecedores de telecomunicações lá presentes, basicamente todos os grandes players mundiais. Ademais, fornecemos apenas equipamentos. E não temos acesso a eles, que são operados diretamente por nossos clientes. Logo, não temos acesso a quaisquer dados privados.

Então, que garantias a Huawei pode oferecer ao Brasil em termos de segurança e privacidade da conexão?

Temos mais de 270 certificados em segurança e privacidade. Além dos clientes que nos testam rotineiramente, é importante enfatizar que tais mecanismos de validação estão abertos ao governo brasileiro também para que possa usar suas próprias ferramentas de teste, sem a opinião infundada de terceiros.

Nesta semana, a comitiva de oficiais do governo dos EUA chegou a oferecer financiamento às teles brasileiras na compra de equipamentos de outros fornecedores. A Huawei também tem opções de financiamento para a compra de equipamentos?

Não financiamos equipamentos, e os clientes são livres no levantamento deles. Lembramos, no entanto, que todo financiamento tem custo, e a livre competição leva à redução.

Como a Huawei vai se posicionar para enfrentar as tentativas dos EUA restringirem a atuação da empresa no Brasil e em outros países?

Nós fornecemos equipamentos que são inovadores, compactos, verdes (reduzido consumo), inteligentes e seguros. Eles são objeto de desejo de nossos clientes e têm custos reduzidos. Então, é importante frisar que a ausência desses equipamentos em alguns mercados incrementou os preços em duas a cinco vezes para pequenos operadores em áreas rurais, tudo o que desejamos que não aconteça no Brasil.

Indefinição

Atrás nas pesquisas eleitorais na disputa contra o democrata Joe Biden (embora a distância entre eles tenha caído), Trump pode perder a Casa Branca em 3 de novembro.

Oliver Stuenkel, coordenador do MBA em Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), concorda que negociar com Trump tem pouco ou nenhum peso, às vésperas das eleições. "É melhor esperar e negociar com quem quer que seja o presidente americano nos próximos quatro anos." Para Stuenkel, porém, a vitória democrata não traria grandes mudanças na postura americana de conter o avanço chinês.

Já Juarez Quadros, ex-presidente da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), lembra que o Brasil tem a quinta maior rede de telefonia móvel mundial e é natural que seja uma peça de disputa pelo 5G, mas a concorrência está mais politizada que o normal. "Não é comum que concorrências desse tipo envolvam os líderes das maiores economias." Ele avalia, porém, que embora seja prudente esperar as eleições, a demora na definição do futuro do 5G no País deixa os brasileiros para trás em relação aos europeus e vizinhos, como o Uruguai.


Agência Estado/Dom Total



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