Religião

23/10/2020 | domtotal.com

Louvar a Deus em nossa vida

Somente quem faz a profunda experiência da vida humana é capaz de reconhecer a presença de Deus salvador em nossa história

Devemos, como Simeão, contemplar a salvação de Deus que nos criou, chamou, formou, conduziu e enviou para o anuncio de sua boa nova
Devemos, como Simeão, contemplar a salvação de Deus que nos criou, chamou, formou, conduziu e enviou para o anuncio de sua boa nova Foto (Guillaume de Germain / Unsplash)

Francisco Thallys Rodrigues*

O momento atual está marcado por incertezas, medos, violências, pobrezas e sofrimentos que nos fazem, desde uma perspectiva crente, questionar "até quando viveremos nesta situação? Até quando teremos que esperar?". Em meio às turbulências torna-se difícil enxergar a presença do Deus da vida em nosso cotidiano. A partir do canto de Simeão, proferido no encontro com o menino Jesus no templo (Lc 2, 22-35), somos convidados a reconhecer os sinais de Deus presentes em nossa história e elevar ao Pai um canto de louvor pelas maravilhas realizadas, pois nossos olhos contemplaram a salvação que vem de Deus.

O canto de Simeão está inserido no evangelho de Lucas (sendo exclusivo deste autor) na seção comumente chamada de narração da infância de Jesus (Lc 1 – 2). Este pequeno bloco, de apenas dois capítulos, sintetiza e apresenta, em forma de prelúdio, os elementos essenciais que serão desenvolvidos ao longo de todo o texto sagrado. Com uma clara preocupação em situar os acontecimentos no tempo e o espaço, as narrações da infância têm como palco principal a cidade de Jerusalém aonde Jesus será reconhecido/condenado pelos seus coetâneos. Além disso, é em Jerusalém que se formará o primeiro núcleo da comunidade cristã, tornando-se centro irradiador da mensagem evangélica para os confins da terra.

Após o nascimento de Jesus (Lc 2,1-20), Maria e José dirigem-se ao templo para a purificação da mãe, seguindo os costumes legais que exigiam o oferecimento de um cordeiro ou dois pombinhos (Lv 12,1-8), bem como para consagrar o menino ao Senhor segundo a lei (Ex 13,2.12). O desenrolar dos fatos assemelha-se à descrição da apresentação do profeta Samuel no templo (1 Sm 1,11.21-28). O evangelista está sinalizando, para seus leitores, a dimensão profética presente na vida de Jesus, entretanto, a sequência dos acontecimentos aponta que a missão desta criança ultrapassa a lei e os profetas.

Neste cenário, o justo e piedoso Simeão toma a criança em seus abraços e eleva a Deus um canto-profecia de louvor. Louva ao Criador porque as promessas se cumpriram, Israel será consolado (Is 40,1; 49,13). As palavras, por ele proferidas, recordam as expectativas messiânicas presentes no povo, mostram que Deus não os abandonou, mas, que cumpre suas promessas. Neste encontro, temos o cruzamento de duas épocas: o tempo da expectativa e o início de um novo tempo de salvação, o antigo e o novo Israel que se tocam.

O justo Simeão reconhece naquela criança, pequena, pobre, frágil, a manifestação plena de Deus na história humana. Dentro da mentalidade de seu tempo, este reconhecimento parece insano, sem sentido. Entretanto, ele é capaz de reconhecer que Deus se encarna, faz-se solidário à humanidade, intervém em nossa história como Deus libertador. Adverte, inclusive, que esta salvação não chegará sem desafios. Neste sentido, compreende-se a sua palavra dirigida à mãe do menino: Maria representa a comunidade dos seguidores que terá seu coração traspassado pela morte do Mestre e pelas perseguições que virão em seguida. O discípulo de Jesus deverá ter presente que Deus caminha conosco em meio às nossas alegrias, desafios e angústias.

O justo Simeão alerta: "Este menino será sinal de contradição" (Lc 2,34). Diante de Jesus não é possível "ficar em cima do muro", o contato com Ele nos leva a uma decisão: sim ou não? Tem a palavra de Jesus sentido para minha vida? Ele responde as minhas buscas? Vale à pena engajar minha vida por ele? O modus operandi de Jesus contrapõe-se a lógica de domínio e poder humanos, exige consciência do caminho assumido e capacidade de perceber a presença do Reino de Deus que como fermento transforma as relações humanas e o mundo.

Louvar a Deus, neste contexto, torna-se difícil porque exige sabedoria para reconhecer que Deus não segue nossa lógica de poder e de domínio, mas manifesta-se na simplicidade e nos pequenos gestos daqueles que se abriram à graça de Deus e à força do Espírito. Somos convidados a reconhecer a salvação de Deus que nos chega, ainda que não plenamente, no cotidiano da vida e, partir destes pequenos sinais, elevar a nossa oração de louvor e de agradecimento a Deus. Devemos, como Simeão, contemplar a salvação de Deus que nos criou, chamou, formou, conduziu e enviou para o anuncio de sua boa nova.

Na oração das completas, rezada ao fim a da noite, antes do repouso, louva-se a Deus pelas grandes maravilhas que Ele opera na história humana, ao fim se repete as palavras de Simeão: "Deixai vosso servo ir em paz". Somos convidados a reconhecer as maravilhas que Deus opera em nossa vida. Ele é o Senhor da história. Somente quem faz a profunda experiência da vida humana é capaz de reconhecer a presença de Deus salvador em nossa história. É preciso olhar com sabedoria para reconhecer os sinais de Deus na vida humana, pois ele não se manifesta em grandes fenômenos (trovões, tremores), mas na brisa suave.

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*Francisco Thallys Rodrigues é presbítero da Diocese de Crateús. Especialista em Sagradas Escrituras (EST), bacharel em Filosofia (FCF) e Teologia (FAJE), licenciado em História (UNOPAR). Trabalha na Paróquia Nossa Senhora do Rosário em Tauá?"CE e no Colégio Antônio Araripe como professor de história no Ensino Médio



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