Religião

23/10/2020 | domtotal.com

Magnificat: O cântico profético e libertador de Maria

O Cântico de Maria deve ser lido como ícone da Igreja em sua ação evangelizadora

Ela é a serva do Senhor. É a mulher da resistência que, mesmo em meio aos sofrimentos e angústias, não deixa morrer a esperança e a f
Ela é a serva do Senhor. É a mulher da resistência que, mesmo em meio aos sofrimentos e angústias, não deixa morrer a esperança e a f Foto (Mateus Campos Felipe / Unsplash)

Rodrigo Ferreira da Costa, SDN*

Uma das características de Maria é o seu silêncio atento e reflexivo, sua docilidade paciente de "conservar tudo cuidadosamente no seu coração" (cf. Lc 2,19). Maria quase não fala em todos os Evangelhos. Porém, o evangelista Lucas dá voz à jovem de Nazaré que, com a força profética que é própria da juventude, canta as maravilhas que Senhor realizou ao longo da história do seu povo, sua misericórdia e compaixão pelos fracos e pequenos, bem como denuncia a prepotência dos ricos e poderosos. 

Talvez por isso, o Documento de Puebla (n. 297) tenha afirmado que "o Magnificat é espelho da alma de Maria, o cume da espiritualidade dos pobres do Senhor e do profetismo da Antiga Aliança. É o cântico que anuncia o novo Evangelho de Cristo. É o prelúdio do Sermão da Montanha. Aí Maria se nos manifesta vazia de si própria e depositando toda sua confiança na misericórdia do Pai".

O Magnificat (Lc 1, 46-55) começa com uma referência direta ao Cântico de Ana, pronunciado por ocasião do nascimento do seu filho Samuel (1 Sm 2, 1-10), na qual Maria manifesta o sentimento de sua pequenez, bem como a sua confiança na misericórdia de Deus. "Proclama minha alma a grandeza do Senhor; alegra-se meu espírito em Deus, meu salvador, que olhou para a humilhação de sua serva" (Lc 1, 46-48). Assim como Ana, mulher humilhada pela sua esterilidade, mas que foi ouvida em suas orações, Maria também reconhece sua condição de jovem humilde de Nazaré, mas que pela misericórdia gratuita do Senhor será a mãe do Messias Salvador. No Magnificat manifesta-se, portanto, como que o modelo "para os que não aceitam passivamente as circunstâncias adversas da vida pessoal e social, nem são vítimas da alienação, como se diz hoje, mas que proclamam com ela que Deus 'exalta os humildes' e se for o caso 'derruba os poderosos de seus tronos' " (São João Paulo II).

No Magnificat, Maria se torna a porta-voz da espera dos "pobres do Senhor" que colocam a sua confiança na justiça misericordiosa desse Deus que "derruba os poderosos de seus tronos", que "despede os ricos de mãos vazias" e que "enche de bens a mesa dos famintos". Ou seja, no Cântico de Maria está refletida a predileção de Deus pelos últimos e, ao mesmo tempo, a denúncia contra todo tipo de idolatria da riqueza e do poder, pois estes não são valores reais que gozam de nenhum crédito aos olhos de Deus. "O que sucedeu na humilde serva de Deus, relido à luz pascal, é motivo de confiança e esperança para os pobres, os provados e os que sofrem das primeiras gerações cristãs, e de todas as gerações, que - junto com elas - a chamarão bem-aventurada" (Bruno Forte).

Se olharmos com atenção o Cântico de Maria encontraremos nele o resumo do evangelho de Lucas II. Como primeira discípula, Maria representa todo discipulado cristão que na obediência serviçal, ouve e põe em prática a Palavra de Deus. 

Ela é a serva do Senhor. É a jovem da periferia da Judeia, na qual "Deus realizou grandes coisas". É a missionária apressada (cf. Lc 1, 39) sempre pronta a sair ao encontro do outro. É a mulher da resistência que, mesmo em meio aos sofrimentos e angústias, não deixa morrer a esperança e a fé. 

É a mãe da misericórdia que nos faz acreditar na força revolucionária da ternura. É a profetiza que ajuda o povo a fazer memória das ações de Deus em seu favor e que não se cala diante da injustiça e opressão dos poderosos. 

Por isso, o Cântico de Maria deve ser lido como ícone da Igreja em sua ação evangelizadora. Como escreve Dom Bonhöffer comentando o Magnificat: "Não fala aqui a doce, terna e sonhadora Maria das imagens, mas uma Maria apaixonada, impetuosa, altiva, entusiasta. Nada dos acentos adocicados e melancólicos de tantos cantos de Natal, mas o canto forte, duro, impetuoso dos tronos que desmoronam, dos senhores humilhados, da potência de Deus e da impotência dos homens".

Neste sentido, podemos afirmar que o Magnificat é "um canto de esperança, que nos quer despertar também a nós convidando-nos a entoá-lo hoje por meio de três elementos preciosos que nascem da contemplação da primeira discípula: Maria caminha, Maria encontra, Maria rejubila" (papa Francisco). Pois somente quando saímos de nós mesmos, para ir ao encontro do outro, podemos descobrir a verdadeira alegria que nasce de uma vida compartilhada e solidária.

Assim como toda devoção mariana deve nos conduzir a Cristo, o Cântico de Maria é para nós um verdadeiro hino que expressa a nossa identidade cristã de discípulos missionários do Reino. Pois nele, Maria expressa a sua experiência de fé, sublinhando a ação misericordiosa de Deus na história de Israel e em sua vida de serva humilde e disponível, bem como, o grito dos pobres e sofredores que esperam no Senhor. 

Assim como Maria, somos chamados a reconhecer as maravilhas de Deus em nosso favor, sua ternura e compaixão pelos fracos e sofredores e, assumir com coragem profética, a luta dos pobres e injustiçados, a fim de que possamos cantar a esperança e a utopia, sem nos calarmos diante da opressão dos poderosos.

Leia também:

Rodrigo Ferreira da Costa, SDN, é licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, com especialização em formação para Seminários e Casa de Formação. Atualmente é pároco da Paróquia de Santa Luzia - Arquidiocese de Teresina-Piauí



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outras Notícias

Não há outras notícias com as tags relacionadas.